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Lars Von Trier e Shia LaBeouf ‘causam’ em Berlim

Diretor dinamarquês apareceu com camiseta provocativa. Ator americano recusou-se a responder perguntas, soltou uma frase enigmática e saiu da sala

Por Mariane Morisawa, de Berlim - Atualizado em 10 dez 2018, 09h55 - Publicado em 9 fev 2014, 14h21

As coletivas de George Clooney nos festivais costumam ser bizarras, como se viu neste sábado em Berlim. E as de Lars Von Trier costumam gerar controvérsias e burburinho. Em Cannes, em 2011, ele tentou fazer referências – de péssimo gosto – a Adolf Hitler, fato que acabou lhe rendendo a nada honrosa condição de ‘persona non grata‘ no festival, que não quer mais sua presença. Desta vez, na divulgação sobre a versão completa de Ninfomaníaca, exibida fora de competição no 64º Festival de Berlim e apresentada para a imprensa no início da tarde deste domingo, o diretor dinamarquês apareceu na sessão de fotos vestindo uma camiseta com o símbolo do Festival de Cannes e a inscrição “persona non grata“.

Mas o cineasta, conhecido por filmes como Os Idiotas (1998), Dançando no Escuro (2000) e Melancolia (2011), apesar de ter exibido sua camiseta provocante, não participou da entrevista. Coube então ao ator Shia LaBeouf (da franquia Transformers) fazer seu showzinho particular. Pouco depois de se recusar a responder a uma pergunta a todos os atores presentes na mesa – ele, Christian Slater, Stacy Martin, Stellan Skarsgård e Uma Thurman -, LaBeouf recebeu outra questão, sobre o conforto de fazer cenas de sexo no filme. Após a resposta de sua companheira em tais cenas, Stacy Martin, o ator disse: “Quando as gaivotas seguem uma traineira, é porque pensam que sardinhas serão atiradas no mar. Obrigado”. E saiu da sala [confira vídeo abaixo].

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A frase é mais um plágio do ator – foi dita pelo jogador de futebol Eric Cantona à imprensa depois de sua condenação pela agressão a um torcedor em 1995. Desde o final do ano passado, LaBeouf tem enfrentado uma maré de confusões. Quando seu curta HowardCantour.com, exibido em Cannes em maio, caiu na rede, logo foi acusado de plagiar o quadrinho Justin M. Damiano, de Daniel Clowes. Após o episódio, ele pediu desculpas via Twitter. Depois, LaBeouf publicou um storyboard (versão desenhada das cenas de um filme) para um curta-metragem chamado Daniel Boring – Clowes tem uma obra chamada David Boring. Na descrição, usou a mesma definição que o autor usa para esse trabalho. Ele também “tomou emprestadas” as desculpas de Kanye West por ter interrompido Taylor Swift numa premiação musical. (Continue lendo o texto)

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Em janeiro, ele declarou, também via Twitter, que estava se retirando da vida pública e também que tudo não passava de uma grande performance. Logo depois, as explicações foram apagadas. E toda a ‘mise en scène‘ de LaBeouf parece copiada de Joaquin Phoenix, que em 2009 disse que ia virar rapper – mas era tudo parte de um personagem criado para o falso documentário I’m Still Here, de Casey Affleck. Desde o dia 13 de janeiro, LaBeouf publica no Twitter quase diariamente a frase “Eu não sou mais famoso”. Em Berlim, ele já tinha causado confusão com fãs tentavam tirar sua fotografia – só foi interrompido pela turma do “deixa disso”. Virou piada de Bill Murray, que declarou na sexta-feira: “Shia LaBeouf é um nome engraçado. É esse seu problema, é uma cruz muito pesada para carregar, ele deve ter levado muita paulada quando era menino”.

A versão de Ninfomaníaca exibida no Festival de Berlim tem cerca de 25 minutos a mais do que a que está em cartaz no Brasil. O filme traz como personagem principal Joe (Stacy Martin na juventude e Charlotte Gainsbourg na maturidade), uma ninfomaníaca que conta suas aventuras sexuais a Seligman (Stellan Skarsgård), na tentativa de provar como é uma má pessoa. Na versão aprovada pelo diretor, o ritmo é menos acelerado, o que curiosamente lhe dá uma cadência melhor, especialmente para quem acompanha o trabalho do cineasta. Uma cena de Joe no hospital com o pai (Christian Slater) também aparece alongada. Mas a principal diferença fica por conta das cenas de sexo, mais explícitas – uma crítica comum ao Ninfomaníaca em cartaz é que, para um filme sobre o tema, anunciado como “pornográfico” por Von Trier, havia pouco sexo explícito. A produtora Louise Vesth declarou que ainda não sabem quando vão exibir a versão longa de Ninfomaníaca – Parte 2 (a versão editada estreia no Brasil em 21 de março). Sobre o boato de que a primeira apresentação seria em Cannes, ela disse, com ambiguidade: “Não podemos dizer isso”.

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Competição – Os dogmas de uma variante tradicionalista religião católica é o tema do filme alemão Kreuzweg (ou ‘Via Crucis’, na tradução literal), de Dietrich Brüggemann. Maria (Lea van Acken) é uma adolescente de 14 anos, criada pelos pais (Franziska Weisz e Michael Kamp) dentro desta vertente, que nega as modernizações do Concílio Vaticano II (por exemplo, a celebração da missa em língua local em vez do latim). Prestes a fazer a crisma, ela ouve do Padre Weber (Florian Stetter) que não pode escutar a maior parte dos gêneros musicais, porque são satânicos, e que deve abdicar de toda vaidade. Ela também acha que deve se oferecer em sacrifício para a cura de seu irmãozinho de 4 anos, que não fala. Brüggemann segue os ensinamentos de dois mestres provocadores, o alemão radicado na Áustria Michael Haneke e o dinamarquês Lars Von Trier, copiando o estilo seco do primeiro e a divisão em capítulos do segundo (o filme segue os catorze passos da Via Crucis). Mas ele não acerta o tom, rindo dos personagens, um pecado mortal que todo cineasta deveria evitar.

Na noite deste sábado foi a vez do argentino Historia del Miedo (‘História do Medo’, na tradução literal), do jovem diretor estreante Benjamin Naishtat, ser exibido para a imprensa. O longa-metragem abre com uma sequência poderosa filmada de um helicóptero da polícia sobrevoando um condomínio fechado rodeado de casas bem pobres. Em cenas curtas, ele apresenta uma sociedade dominada pelo medo: de um garoto que faz uma performance numa lanchonete, de um homem que tenta fazer uma entrega, do alarme que dispara, do escuro que chega sob a forma de um apagão. Lembra um pouco o brasileiro O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, em que a violência sempre está à espreita, mas sua estrutura é vaga demais, e o diretor tem um pouco de dificuldade de criar o drama das cenas (e entre as cenas). É um primeiro filme ambicioso, mas ainda falta amadurecer.

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