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Lady Gaga, a menina de NY disposta a tudo pela fama

Parceiros de primeira hora da cantora, quando ela era ainda uma estudante da Universidade de Nova York, contam ao site de VEJA como ela forjou sua imagem e sua carreira para ser aquilo que o mercado esperava dela

Por Carol Nogueira - 11 nov 2012, 13h37

Lady Gaga é homem. Lady Gaga é gorda. Lady Gaga é idiota. Lady Gaga é satanista. Essas não são declarações de alguém em particular, mas sim buscas sugeridas pelo Google. Por elas, dá para sentir o volume das controvérsias em que já se envolveu a cantora americana, que fez na sexta-feira no Rio o seu primeiro show no país e canta neste domingo no Estádio do Morumbi, em São Paulo. E isso em apenas quatro anos: afinal, ninguém sabia quem era Gaga antes de The Fame, seu disco de estreia, lançado em 2008. Controvérsias não são novidade para as personalidades – e menos ainda para as chamadas celebridades, personagens que adquirem fama antes de, e quase sempre sem, obter prestígio. E, no caso de Gaga, algumas podem até ser verdade – vai saber se ela não veio mesmo de outro planeta? A questão porém é que, em se tratando da performer americana, isso pouco importa. Pouco importa se Gaga é homem, se é gorda, se tem religião ou se copia Madonna. Ela pode ser tudo isso e o que mais o mercado pedir. Ela topa tudo. É o que dizem pessoas que a conheceram antes do estrelato.

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Entre elas, o produtor Joe Vulpis, que conheceu a cantora quando ela ainda usava o nome verdadeiro, Stephanie Germanotta, e produziu suas primeiras demos, quando ela cantava jazz e tentava entrar na faculdade. “Ela fazia o tipo cantora-compositora, com banda de acompanhamento, esse tipo de coisa”, diz Vulpis. A mudança, segundo Frank Fredericks, ex-colega de Gaga na Universidade de Nova York (NYU) e seu primeiro empresário, se deu depois que ela conheceu o produtor Rob Fusari, que também se tornou seu namorado. “Ela passou por uma transformação no visual e no repertório. Ficou mais simples, mais pop e mais dance, tingiu o cabelo, perdeu peso e mudou de nome. Quando um artista começa a ficar famoso, tem de se adaptar para atender às expectativas”, diz Fredericks.

Embalada como um produto pop-dançante, Gaga acabou marcada por hits de pista, carregados de distorções na voz e pouco representativos de seu talento – sim, ela tem talento. Hits como Just Dance e Poker Face chegam a soar infantis e insossos perto do que a cantora apresentou nos dois discos seguintes, The Fame Monster e Born This Way. Apesar da evolução musical, porém, subsiste a impressão de que Gaga é uma cantora de pista, graças à péssima seleção de singles feita pela gravadora da cantora, que reforça essa faceta.

Maturidade hoje – Gaga começa a mostrar que tem talento para composições mais variadas, como Alejandro, a partir de The Fame Monster, quando também demonstra um talento nato para baladas ao piano, como a subestimada Speechless. Mas é em Born This Way, curiosamente o seu disco de menor sucesso até hoje, que a cantora mostra toda a sua potência. Ela não só dá conta dos quesitos rítmico e vocal, como consegue unir em um mesmo balaio influências oitentistas (Bon Jovi), noventistas (techno) a heavy metal, ópera, rock e pop, e arriscar letras em espanhol (em Americano) e alemão (em Scheiße). O álbum pode soar exagerado, mas também soa genial.

A maturidade ainda aparece nas letras, todas escritas em parceria com os produtores do álbum. Os textos têm mais que mensagens de autoajuda para jovens desajustados. Agora, ela critica o governo (em Government Hooker), a religião (em Judas e Bloody Mary), o machismo. É nessa mistureba que Gaga tem seu maior trunfo. Afinal, nem Madonna conseguiu abraçar tanta coisa em 30 anos de carreira.

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Vá lá, Lady Gaga é um tanto fake. Tudo, do visual às músicas, é excessivo – e, por consequência, artificial. Mas esse exagero não é só a cruz, é também a salvação da artista. E, quiçá, da música pop. Ainda que seu objetivo seja a fama a todo custo, na trajetória que traça ela acaba dando uma bem-vinda sacodida no cenário pop radiofônico, que andava adormecido. Se vai vingar ou não, ainda é uma incógnita, que o próximo disco, Artpop, ajudará a responder.

Enquanto o disco não vem, o produtor Joe Vulpis e Frank Fredericks, primeiro empresário da cantora, ajudam a entender o fenômeno. Leia abaixo a entrevista dos dois ao site de VEJA.

Como a conheceu?

Joe Vulpis: Conheci Stephanie há muito tempo, quando ela tinha 17 anos. O pai dela me contratou para produzir uma demo de jazz para que ela conseguisse entrar na NYU. Funcionou muito bem, ela entrou na escola e me procurou três anos depois para gravar um EP (um disco com poucas músicas), que ficou conhecido como Red & Blue Sessions.

Frank Fredericks: Começamos a faculdade juntos na NYU e competimos um contra o outro em um show de calouros. Naquela época, eu percebi que ela era muito talentosa e quis trabalhar com ela. Stephanie concordou e, logo de cara, consegui que ela se apresentasse no The Bitter End, um bar bem famoso de Nova York. Trabalhamos juntos por dois anos e gravei uma demo com ela.

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Como foi trabalhar com ela?

Joe Vulpis: Ela é muito divertida e talentosa. Nós não apenas trabalhávamos juntos, como nossa amizade cresceu muito nesse tempo. Saíamos juntos sempre que podíamos e as gravações sempre terminavam com jantares e drinks. É muito legal sair com ela, até hoje.

Frank Fredericks: Como éramos muito novos, não tinha nenhum contrato ou nada do tipo, e eu também não ganhava dinheiro porque ela ainda não rendia. Talvez eu devesse ter feito um contrato, assim teria faturado quando ela começou a ganhar dinheiro. Mas enfim… Foi uma ótima experiência de aprendizado de qualquer maneira.

Quais são os maiores talentos dela?

Joe Vulpis: Ela é uma ótima cantora e compositora. Gravei músicas ótimas dela, cruas, sem nenhuma modificação, que são capazes de tirar o fôlego de qualquer um. Assim que começamos a trabalhar juntos, eu sabia que ela tinha o que era preciso para ser grande. Eu sabia que ela ia estourar. Ela tem muito apelo popular.

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Frank Fredericks: Ela é uma das pessoas mais talentosas que eu já conheci e é muito engenhosa. É uma ótima cantora, compositora e pianista. Quando fazíamos faculdade, ela compunha músicas tão complexas quanto Miles Davis. Eu sei que ela é muito mais do que isso que está mostrando.

O que mudou quando ela se tornou Lady Gaga?

Joe Vulpis: O principal foi a parte teatral: o guarda-roupa e o cabelo. Vi um pouco disso começando quando ela tinha 21 ou 22, ela experimentava muita coisa para ver o que daria certo. Foi uma mudança lenta e divertida de acompanhar. Quanto ao som, antes ela tinha uma vibe mais de cantora-compositora com banda, mas algumas das músicas já a levavam nessa direção dance.

Frank Fredericks: Quando ela conheceu o Rob Fusari (produtor com quem namorou e que basicamente criou a persona Lady Gaga), passou por uma grande mudança visual e sua música também mudou bastante. Ficou mais simples e mais pop, mais dance. Nesse meio tempo, ela mudou seu nome, tingiu o cabelo, perdeu peso. Já vi isso acontecer várias vezes. Quando um artista começa a ficar famoso, tem de se adaptar para atender às expectativas. Mas, até aí, todo mundo se adapta, se não eu não estaria aqui no meu escritório agora usando um terno, não é mesmo?

Qual a importância do pai dela no que ela se tornou?

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Joe Vulpis: O pai dela sempre esteve presente (ele está inclusive no Brasil, acompanhando a filha). Ele a encorajou desde o começo, bancou as gravações das demos, a universidade, gastou dinheiro para incentivá-la a perseguir seu sonho.

Frank Fredericks: O pai é um cara muito legal. Era divertido estar no estúdio com ela, porque ele passava por lá, dizia do que gostava e do que não. A música é uma paixão que eles dividiam. É claro que ele gastou dinheiro, mas o apoio que ele dava era mais emocional que financeiro, no fim das contas. Acho que ele não gostou das mudanças pelas quais ela passou, porque ela ficou mais sexy, e nenhum pai gosta de ver sua filha andando com roupas sensuais por aí. Acho que isso causou um certo desconforto, mas ele não deixou de apoiá-la.

Como é sua relação com ela hoje?

Joe Vulpis: Ela á uma amiga querida. Se me tornei um produtor bem sucedido, devo tudo a ela. A fama não mudou nosso relacionamento, embora eu não a veja tanto mais hoje em dia.

Frank Fredericks: Eu tenho respeito por Stephanie, mas não temos mais contato hoje.

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