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James Gray faz novelão com ‘The Immigrant’

Recebido com frieza por jornalistas nesta sexta-feira, longa com Marion Cotillard e Joaquin Phoenix tem personagens frágeis e buracos no roteiro

James Gray é um dos queridinhos do Festival de Cannes. À exceção de seu primeiro longa, Fuga para Odessa (1994), que ganhou dois prêmios em Veneza, todos os seus outros filmes foram exibidos na Riviera Francesa. E é só isso o que justifica a presença de The Immigrant na disputa pela Palma de Ouro na 66ª edição. O filme foi recebido com certa frieza pela plateia de jornalistas na manhã desta sexta-feira – e dá para entender a razão.

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Neto de russos judeus que foram para os Estados Unidos na década de 1920, James Gray fez um melodrama sobre um assunto muito próximo, a imigração. Marion Cotillard é a jovem polonesa Ewa Cybulski, que chega à Ellis Island, posto de entrada dos imigrantes no país, acompanhada da irmã, Magda (Angela Sarafyan). As duas são separadas porque Magda está doente e precisa ficar em quarentena, e Ewa acaba sendo presa fácil para o cafetão Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), que recruta mulheres solteiras sob ameaça de deportação. Mais adiante, ela vê no sedutor mágico Orlando (Jeremy Renner) uma possível tábua de salvação.

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É a primeira vez que o diretor constrói uma história com uma mulher no centro. Mas a personagem Ewa é frágil demais, e o roteiro tem alguns buracos que fazem com que o espectador se irritar ainda mais com sua ingenuidade beirando a burrice. Ela depende de dois homens para sobreviver, quando a solução apresentada ao final poderia ter sido tomada logo no início da trama – claro que aí não haveria filme. Os personagens masculinos não são muito melhores. Há uma elegância na fotografia de Darius Khondji, mas os diálogos e a música emprestam um ar de novela a The Immigrant.

Na coletiva de imprensa que se seguiu à exibição, Gray disse que escolheu Marion Cotillard depois de conhecê-la por causa de sua amizade com o marido da atriz – Gray e Guillaume Canet acabaram escrevendo o roteiro de Blood Ties, apresentado fora de competição. “Eu não a conhecia porque não vejo filmes”, contou. “Mas ela tem um dos melhores rostos da história do cinema.” Para a atriz, a maior dificuldade foi aprender as quase 20 páginas de diálogos em polonês. Com Jeremy Renner, foi diferente. “Eu p conhecia porque sou muito amigo de Kathryn Bigelow, que o dirigiu em Guerra ao Terror. Acho que ele parece um Clark Gable e Errol Flynn.” Joaquin Phoenix, por sua vez, é parceiro antigo do cineasta. O ator, que não veio a Cannes porque está filmando com Paul Thomas Anderson, já trabalhou quatro vezes com James Gray. “Você se aproxima de atores que pensam da mesma maneira que você sobre o mundo, a arte, o comportamento humano”, afirmou o cineasta.

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Ele defendeu a imigração, um tema que levanta muitos debates nos Estados Unidos e na Europa hoje. “Sou a favor da imigração, acho que são os imigrantes que dão vitalidade a uma sociedade. Los Angeles não seria uma cidade vibrante se não fosse a mistura de latinos e asiáticos”, disse. “São usados os mesmos argumentos há mais de 100 anos nos Estados Unidos, foi assim com os italianos, os irlandeses, os judeus. Queria que nos livrássemos um pouco do racismo e do preconceito.”

Western na França – O francês Michael Koolhaas, de Arnaud des Pallières, exibido em sessão de imprensa na noite da quinta-feira, também tem um ator, o dinamarquês Mads Mikkelsen, falando um idioma que não é o seu – no caso, o francês. Mas o filme não poderia estar mais longe do melodrama.

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Mikkelsen, vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes no ano passado por A Caça, volta a oferecer uma performance poderosa, alternando força e vulnerabilidade no papel do título. Na França do século 16, Koolhaas é um mercador de cavalos impedido de cruzar um rio por um barão, que toma alguns de seus animais. Para reparar a injustiça, ele monta um exército, com consequências trágicas para sua família, que inclui a mulher, Judith (Delphine Chuillot), e a filha, Lisbeth (Mélusine Mayance).

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Pallières inspirou-se num romance de Heinrich von Kleist escrito no século 19, mas mudou a ação da Alemanha para a França para falar de injustiça e de vingança. O diretor optou por não abusar nem dos cenários nem dos figurinos de época – na verdade, eles se aproximam das roupas de hoje. A natureza invade o filme em todos os fotogramas, seja pelo som do vento ou pela neblina cerrada e pelas sombras projetadas no solo pelas nuvens, o que só acrescenta dramaticidade.

Por causa da presença da paisagem, o longa-metragem aproxima-se de um western, com combates que se dão quase no mano a mano. Não há o heroísmo solene de tantos filmes. O protagonista tem medo quando confrontado com uma ameaça, como qualquer ser humano teria. Michael Koolhaas é uma produção de época bem interessante, com um grande ator no papel principal, e deveria ser considerado pelo júri presidido por Steven Spielberg.