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James Bond, o cinquentão mais poderoso do cinema

Com charme, força e sedução, além de viver antenado com as décadas que já atravessa, agente secreto britânico completa meio século sem sair de cartaz

Nesta sexta-feira, completaram-se 50 anos do lançamento do primeiro capítulo da saga mais longa do cinema: a de James Bond. Depois de meio século, é de se perguntar por que o agente secreto britânico não perde o cartaz. É simples. Mais do que filmes de ação sobre um espião, as 23 produções feitas com base na série criada pelo escritor britânico Ian Fleming são peças de uma história que arrecadou mais de 12 bilhões de dólares no cinema e não perdeu relevância porque soube se renovar sem abrir mão da essência. Há cinco décadas, longas sobre o agente 007 operam com elementos deliciosos como o poder e a sedução e refletem o espírito da época em que são feitos. Além de espelhar, a saga dita tendências de consumo, moda, beleza, tecnologia, carros e até gastronomia.

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O primeiro livro sobre Bond, Casino Royale, foi publicado por Fleming em 1953. Em pouco tempo, a saga do agente secreto se tornou um fenômeno de vendas na Inglaterra e começou a pautar adaptações para a televisão. Antes de sua morte, em 1964, Fleming ainda escreveu outros 13 volumes – todos já roteirizados. Mas outros autores vêm dando continuidade ao legado, e assim produzindo matéria-prima quase inesgotável para a franquia. O último título foi Carte Blanche, de Jeffery Deaver, que estreou em quinto lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times em 2011 – prova de que Bond segue pop também entre os leitores.

Nos cinemas, Bond conquistou público nos anos 1960 com elementos então inéditos para filmes de ação: ritmo frenético, humor negro e subtexto erótico. “Os produtores foram felizes em expandir os limites do universo criado por Fleming, feito de mulheres, ação em vários países, Guerra Fria, vilões ricos e bizarros. Somaram a esses elementos um pouco de música e cenários grandiosos, e deu certo”, diz Bruno Zolotar, da editora Record.

Para o escritor Eduardo Torelli, autor do livro Sexo, Glamour & Balas, considerado a enciclopédia brasileira de 007, o sucesso se mantém graças à habilidade de adaptação dos produtores. “Eles mantiveram a fórmula básica, mas adicionaram elementos, de forma a alinhar a série estética, política e ideologicamente com a realidade de cada década.”

A cada ator, uma era – Poucos atores tiveram a honra de interpretar Bond no cinema. Foram apenas seis, e não é exagero dizer que nenhum alcançou o prestígio obtido pelo escocês Sean Connery, o primeiro e, para muitos fãs, o verdadeiro 007, já que o seu estilo durão e sedutor é inimitável. Quando escalado para o papel, Connery, hoje um dos grandes nomes do cinema mundial, era um novato relutante em embarcar em uma franquia. Mas foi o espião que fez sua carreira explodir.

O escocês fez cinco filmes em sequência: 007 contra o Satânico Dr. No (1962), Moscou contra 007 (1963), 007 contra Goldfinger (1964), 007 contra a Chantagem Atômica (1965) e Com 007 Só se Vive Duas Vezes (1967). E, após se afastar para não ficar marcado pela saga, ainda voltaria a dizer “Bond, James Bond” em 007 – Os Diamantes São Eternos (1971), quando foi convocado para reconduzir a franquia aos trilhos, já que a Eon Productions, que detém os direitos da obra de Fleming e é responsável pelos filmes oficiais do personagem, deu com os burros n’água ao tentar alavancar o modelo George Lazenby no filme 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade (1969). Connery foi bem recompensado pelo retorno: recebeu um cachê recorde de 1,25 milhão de dólares (equivalente a 7 milhões hoje), além de 12,5% dos rendimentos do filme. Vale acrescentar, aliás, que o ator ainda estrelaria Never Say Never Again (1983), que ao lado do Casino Royale de 1967, é dos únicos Bond não-oficiais — feitos fora da Eon.

O próximo a se dar bem como Bond seria Roger Moore, que chegou a ser cogitado para a franquia antes de Sean Connery, mas declinou por se considerar muito novo na época. “Moore tinha pinta de playboy internacional, era cínico e irônico, bem a cara dos anos 1970”, diz Zolotar, da Record. Não à toa, foi o que mais durou no papel. Foram sete filmes: Com 007 Viva e Deixe Morrer (1973), 007 contra o Homem com a Pistola de Ouro (1974), 007 – O Espião que Me Amava (1977), 007 contra o Foguete da Morte (1979), 007 Somente para Seus Olhos (1981), 007 contra Octopussy (1983) e 007 – Na Mira dos Assassinos (1985).

Quando Moore deixou o ofício, a substituição voltou a ser um drama. O britânico Timothy Dalton interpretou o agente secreto em dois filmes, 007 Marcado para a Morte (1987) e 007 – Permissão para Matar (1989), mas a bilheteria deixou a desejar e ele logo foi deixado de lado. A culpa, porém, pode não ter sido do ator, que para muitos foi o mais subestimado da saga, e sim dos anos 1980. “O mundo vivia a paranoia da aids, então os produtores acharam melhor reduzir o número de parceiras sexuais do herói, diminuindo o erotismo”, conta Torelli.

Da aids ao politicamente correto – Sucessor de Dalton, o irlandês Pierce Brosnan foi o Bond mais “coxinha” da série, em que marcou presença em quatro produções, 007 contra GoldenEye (1995), 007 – O Amanhã nunca Morre (1997), 007 – O Mundo Não É o Bastante (1999) e 007 – Um Novo Dia para Morrer (2002). Além de andar mais arrumadinho que os outros – a regra básica do estilo de Bond é ser elegante, sem ostentar -, o personagem deixou de fumar e passou a tratar melhor as mulheres, algo inimaginável para o machão Sean Connery ou para o canastrão Roger Moore.

O 007 atual, Daniel Craig, assumiu a franquia em 2005, completamente desacreditado. Além de ser loiro e mais baixo (ele tem apenas 1,78m) do que seus precursores, ele é também o primeiro intérprete do espião nascido após o começo da franquia e após a morte de Fleming. Sua performance não convenceu muito no primeiro filme, Casino Royale, mas a megaprodução do longa, o melhor dos últimos anos, compensou. “Tecnicamente, os filmes com Craig são superiores, a tecnologia do cinema avançou muito. E ele trouxe um novo Bond, mais duro e brutal”, diz Zolotar. Os produtores parecem ter gostado de Craig no papel, já que neste ano anunciaram que ele fará mais dois longas, além dos três que já rodou – 007 – Casino Royale, 007 – Quantum of Solace e 007 – Operação Skyfall, que estreia no próximo dia 26.

Outra inovação da fase Craig também diz respeito aos tempos que o cercam, cada vez mais permeáveis às ações – e verbas – publicitárias. A partir de Skyfall, James Bond troca seu indefectível Martini por uma cerveja Heineken. E quem poderá substituí-lo depois? “O tempo provou que o ideal é um ator que não seja muito conhecido, assim os atores servem ao personagem, e não o contrário”, diz Torelli. Fica a dica.

(Com colaboração de Meire Kusumoto)