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‘Invencível’ e a guerra pessoal de Angelina Jolie

Em entrevista ao site de VEJA, atriz fala de seu envolvimento com a história do sobrevivente de guerra Louis Zamperini, de quem se tornou amiga, e com a direção de filmes, atividade que tem se esforçado para assumir como principal

Uma das maiores estrelas do mundo, com cachê na casa dos 30 milhões de dólares, mulher de Brad Pitt, mãe de seis filhos, exemplo no trabalho humanitário, Angelina Jolie quer mais. Recentemente, adicionou uma função a seu currículo, que pretende transformar em atividade principal: diretora de cinema. Ela estreou como cineasta em 2011, com o filme Na Terra de Amor e Ódio, que escreveu inspirada pelas informações que adquiriu ajudando vítimas da dramática Guerra da Bósnia. Seu segundo trabalho, Invencível, em cartaz no Brasil a partir desta semana, também traz um pano de fundo bélico, o da Segunda Guerra Mundial, embora a guerra, segundo Angelina, não seja o foco principal. No melhor estilo de enviada especial da ONU para os refugiados, ela afirma em entrevista concedida em vídeo ao site de VEJA (confira abaixo) que Invencível carrega uma “mensagem”, que seria a da superação, palavra-súmula da história quase inacreditável de Louis Zamperini (1917-2014), seu amigo e personagem principal.

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Nascido em Nova York, filho de imigrantes italianos, Zamperini foi um garoto problema, que bebia, fumava e roubava aos 9 anos de idade. Influenciado por seu irmão mais velho, Pete, canalizou sua energia para a corrida e chegou a competir na Olimpíada de Berlim em 1936, na prova de 5.000 metros, onde não fez feio. Pouco tempo mais tarde, quando lutava na Segunda Guerra Mundial, seu avião foi derrubado e ele passou 47 dias à deriva no mar, até ser capturado por japoneses e passar dois anos como prisioneiro de guerra – com tudo de nefasto que isso inclui.

“Acho que todos precisamos ser lembrados da força do espírito humano, do que está dentro de cada um de nós”, diz Angelina, que também conta ter feito um filme para atingir espectadores jovens como seus filhos – Maddox Chivan, 13, Pax Chien, 11, Zahara Marley, 9, Shiloh Nouvel, 8, Knox Léon e Vivienne Marcheline, gêmeos de 6. A família, aliás, acompanhou o trabalho desde o início. O marido, Brad Pitt, foi um dos primeiros a saber do interesse da mulher em rodar a vida de Zamperini, por quem se apaixonou depois de ler a biografia escrita por Laura Hillenbrand. Pitt contou a ela que a ideia de levar às telas a saga de Zamperini já circulava em Hollywood havia tempos – mais precisamente, desde 1957, quando a Universal comprou os direitos da autobiografia do atleta e soldado, lançada no ano anterior.

Ser Angelina Jolie, como mostrou o vazamento de dados da Sony provocado por um ataque hacker da Coreia do Norte, não facilitou muito as coisas – em e-mail tornado público após o ataque coreano, a atriz é chamada de “mimada” por um produtor enfurecido com um pedido feito por ela para o filme Cleópatra. O projeto de Invencível, afinal, seria apenas a segunda ficção de Angelina, e previa cenas difíceis, com combates, derrubada de avião, ataque de tubarão, botes à deriva. Foi preciso convencer o estúdio de que ela era a melhor pessoa. Angelina chegou a fazer gráficos em cartolinas, que carregava em sacos de lixo (o único recipiente em que cabiam), para apresentar suas ideias para o filme. Foi nessa época que conheceu Louis Zamperini, que morava muito perto – se subisse em seu telhado, Angelina podia ser vista por ele da janela de sua sala. No dia em que finalmente recebeu o sinal verde, ligou para Brad Pitt hastear a bandeira americana em sua casa, para Louis saber que o longa-metragem finalmente iria acontecer.

Para interpretar Louie, que morreu em julho depois de ver uma versão incompleta do longa-metragem, ela escolheu o inglês Jack O’Connell, 24, incrível no papel. “Senti uma responsabilidade enorme de retratar uma pessoa tão extraordinária”, diz o ator. “Logo depois de conhecer Angelina, percebi que seu desejo era que o papel fosse meu. E, se ela estava do meu lado, o mínimo que podia fazer era acreditar em mim mesmo.” O ator é só elogios para sua diretora. “Ela é comprometida, inspiradora, extraordinária.”

O’Connell, que enfrentou surras de barras de borracha e confinamento nos testes, precisou emagrecer bastante para fazer as cenas em que Zamperini estava à deriva no bote, no mar, e refém dos japoneses. “Eu estava comendo coisas saudáveis”, contemporiza o ator, antes de adotar um discurso similar ao da sua diretora. “Vivemos em um mundo em que muita gente não tem escolha, por isso não quero que sintam pena de mim.”

Tanto O’Connell quanto o resto do elenco sabiam que a realidade do personagem havia sido bem pior. “Aqueles homens que retratamos passaram por isso de verdade, sem saber se iam sobreviver. Nós sabíamos que tínhamos grandes chances de continuarmos vivos depois da filmagem.”

Guerra pode ser um tema recorrente na vida de Angelina Jolie, mas a atriz virou estrela foi por mostrar versatilidade. Ela levou o Oscar de coadjuvante por sua ótima performance como uma moça internada em um hospital psiquiátrico em Garota, Interrompida (1999), de James Mangold, e foi campeã de bilheteria com superproduções questionáveis como Salt (2010), de Phillip Noyce, além de fazer bombas como O Turista (2010), ao lado de Johnny Depp. Como cineasta, ela diz se sentir à vontade por – para esbarrar de novo no campo bélico – estar na “trincheira”. “Atores ficam isolados. Como diretora, você está na trincheira, com o time”, disse. “Prefiro ser parte da família em vez de ser aquela na frente da câmera.”

É visível seu crescimento como cineasta, na comparação de Invencível com Na Terra de Amor e Ódio. Seu primeiro longa de ficção tinha cenas impactantes porque Jolie não aliviava ao mostrar as atrocidades cometidas na Guerra da Bósnia, como estupros e execuções em massa. Mas, na tentativa de ser realista, soterrava o espectador com a dor constante. Em Invencível, mesmo as cenas mais difíceis têm seus momentos de beleza, acentuadas pela fotografia de Roger Deakins. Ela dá conta da maior parte das sequências complexas. O drama vem junto com o suspense e uma dose de aventura, bem na linha de atrair o público jovem. A diretora escorrega aqui e ali por suas boas intenções, tentando passar mensagens e ser leal a seu amigo Louie. Pode ser visto como dramalhão, mas, no fim, Angelina Jolie fez o que queria fazer: um filme à moda antiga que celebra o espírito humano. Seus modelos parecem ter sido Steven Spielberg e Clint Eastwood – mas é claro que ela ainda precisa evoluir um bocado para chegar ao nível dos dois.

Depois de Invencível, Angelina emendou outra produção, By the Sea, baseado em uma história sua, que fala de outro tipo de conflito: entre duas pessoas casadas, interpretadas por ela mesma e pelo marido, Brad Pitt. “Queria trabalhar com Brad. Nós estamos juntos sempre, mas, quando você trabalha junto, compartilha coisas diferentes”, diz. “E fazia quase dez anos que não trabalhávamos juntos.” Os dois se conheceram nas filmagens de Sr. e Sra. Smith (2005), de Doug Liman. Ativa, Angelina também não descarta uma carreira política. “Estou aberta”, declarou à revista americana Vanity Fair. “Quando você faz missões humanitárias, está consciente de que a política precisa ser considerada.”