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IMPERDÍVEL: As agruras da velhice regem ‘A Viagem de Meu Pai’

Filme francês acompanha relação entre pai idoso e filha que tenta lidar com a nova condição familiar

Uma dose extra de sensibilidade é desejável aos cineastas que decidem retratar pessoas que sofrem com distúrbios como a demência. E o francês Philippe Le Guay (de Pedalando com Molière e As Mulheres do Sexto Andar) possui a dosagem ideal para tal tarefa. Seu novo longa, A Viagem de Meu Pai, em cartaz no Brasil, acompanha com delicadeza o drama de um homem octogenário em sua perda de si mesmo.

A carta na manga do filme é o ator Jean Rochefort, 86 anos. O francês interpreta Claude Lherminier, o protagonista, inicialmente apenas um idoso irritadiço, que se recusa a ser tratado como incapaz. Com o passar das cenas, nota-se que Claude sofre de algum tipo de doença mental, que não é explicada com todas as letras pela produção.

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Apesar de o distúrbio ser um importante elemento da história, o cineasta prefere focar na relação de Claude e sua filha Carole (Sandrine Kiberlain). Ela se equilibra sobre muitas tarefas: cuidar do filho adolescente, evoluir a relação com o novo namorado, administrar a empresa que seu pai deixou e vigiar o próprio patriarca, que endereça a ela suas frustrações e também o comportamento instável, causado pela doença.

O protagonista tinha todo o potencial para ser o insuportável, que motiva narizes torcidos nos espectadores. Porém Rochefort consegue transformar Claude em um adorável idoso, por vezes divertido, em outras, confuso, para em seguida se mostrar perigoso. O cineasta acompanha de perto a visão do pai, tanto que a edição do filme faz cortes de tempo que confundem o protagonista e o público. A plateia sente junto a Claude o estranhamento do branco provocado pelos saltos em uma história linear. O resultado é uma produção que trata das agruras da velhice sem elementos apelativos, ao mesmo tempo em que olha com intimidade para as pessoas que convivem com uma nova e dramática dinâmica familiar.