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Hollywood grisalha

Aos 88 anos, Clint Eastwood dirige a si mesmo em 'A Mula' e inverte o senso comum sobre a velhice, ao viver um nonagenário ainda com energia para errar feio

Earl Stone tem 90 anos, mas continua com a cabeça da juventude: adora paquerar, é bom de copo, canta junto com o rádio do carro, não perde uma piada nem um baile de polca na Associação dos Veteranos (ele lutou na Guerra da Coreia, que acabou em 1953). E Earl nunca deixou também de ser inconstante e inconsequente. A família ficou pelo caminho, mas volta e meia ganha uma nova chance de se decepcionar — a mais recente é a notícia de que ele não vai ajudar a custear o casamento da neta, porque sua plantação de flores foi à falência (ele não se adaptou ao esquema de entregas pela internet). Tudo que Earl tem no mundo, agora, cabe na traseira de sua caminhonete velha. Eis, porém, que ele aparece com um maço de dinheiro. E outro, e mais outro. Earl encontrou um novo meio de vida: transporta drogas para um cartel mexicano entre o Texas e Illinois, um estirão de mais de 2 000 quilômetros. Vai protegido pela aparência inocente dos muito idosos, pelo histórico impecável — nunca tomou multa — e pela crença na sua invencibilidade. Desde Gran Torino, de 2008, Clint Eastwood não dirigia a si mesmo, e é possível que A Mula (The Mule, Estados Unidos, 2018), já em cartaz no país, seja a última ocasião em que o faça. Mais que os 88 anos de idade, pesa aí a seletividade: Eastwood prossegue dirigindo pelo menos um filme por ano, mas, conforme brincou com VEJA na época de Sniper Americano, “não é a toda hora que aparece um velho chato que merece ser protagonista”.

Se Gran Torino tratava da libertadora revisão de pontos de vista mantidos durante toda uma (longa) vida, A Mula lida com um personagem preso à ilusão de que a existência será mais leve quanto menos atada a vínculos estiver. Esses laços, é evidente, começarão a fazer falta ao airoso Earl Stone. Ainda assim, Eastwood sublinha durante todo o filme a ideia de que a velhice não exclui prazer, jovialidade, desejo de aventura nem a trepidação do novo. (Com certa pilantragem, também, ele se aproveita da cobertura da idade para ser o mais politicamente incorreto possível.) É mais que um manifesto contra a gerontofobia: partindo de um realizador cuja curiosidade pelo mundo não se abate e cuja resistência física é notável, trata-se de um testemunho e um testamento.

O dado mais curioso é que Eastwood o assine quase às vésperas de se tornar nonagenário. Aos 60 anos, Billy Wilder, diretor de clássicos de primeira grandeza como Crepúsculo dos Deuses e Quanto Mais Quente Melhor, já encontrava enorme resistência dos estúdios a confiar-lhe novos projetos. Cecil B. DeMille, John Ford, Howard Hawks e Alfred Hitchcock conseguiram cruzar a linha dos 70 dirigindo — uma façanha. Verdade que é para poucos (ou nenhum) o feito do português Manoel de Oliveira, que morreu aos 106 pensando no trabalho. Mas hoje prosseguem firmes na ativa, e aparentemente intocados no ânimo e no físico, Woody Allen (83 anos), Martin Scorsese (76), Ridley Scott (81), Michael Haneke (76), Marco Bellocchio (79), Roman Polanski (85), David Lynch (73), Stephen Frears (77) e Steven Spielberg (72), entre vários outros nem tão célebres. Essa longevidade profissional segue o movimento das mudanças demográficas: vive-se mais e com saúde melhor, e trabalha-se também até mais adiante — de forma que, entre 1995 e 2014, a média de idade dos cineastas de Hollywood saltou de 43 para 49 anos.

Mesmo para quem fica à frente das câmeras, onde o vigor e a experiência não raro são preteridos em favor da aparência, o panorama já é outro. Quando Bette Davis e Joan Crawford encarnaram duas irmãs idosas, decadentes e loucas em O que Terá Acontecido a Baby Jane?, em 1962, tinham 54 e 56 anos, então bem para lá da meia-­idade — mas na faixa em que hoje estão Nicole Kidman, Sandra Bullock, Laura Linney ou Julianne Moore. Ruth Gordon, a eterna velhinha do cinema, trabalhou até morrer, aos 88 anos, em 1985 — porém sempre como coadjuvante. Agora, é grande o número de atores e atrizes que não apenas têm papéis principais nessa idade, como são a razão de ser das séries e dos filmes em que trabalham (veja o quadro abaixo). A vida talvez comece aos 40, talvez antes. Mas é certo que, no cinema, já continua bem além dos 80.


80 (ou quase lá) e firmes no batente

Sete atores e atrizes idosos que continuam muito produtivos — e ainda atingem seu melhor

 (Claire Folger/Warner Bros/Divulgação)

Clint Eastwood, 88 anos
Tempo de carreira: 64 anos

O maior ícone vivo do cinema americano tem dezenas de créditos como ator e, embora dirija desde 1971, foi aos 62 anos que inaugurou sua fase mais extraordinária como diretor, com Os Imperdoáveis, ganhador de quatro Oscar, incluindo o de melhor filme. Fez Menina de Ouro aos 74, Gran Torino aos 78 e Sniper Americano aos 84

Neste ano… dirige e protagoniza A Mula (foto), sobre um idoso envolvido com um cartel mexicano


 (Nick Wall/Trademark/Divulgação)

Judi Dench, 84 anos
Tempo de carreira: 62 anos

Dama do teatro inglês, só ganhou de fato atenção no cinema aos 61 anos, como a chefe de James Bond em 007 contra GoldenEye (1995). Depois, fez perto de quarenta filmes, ganhou um Oscar e, apesar da visão comprometida, continua ativa

Neste ano… estrela Red Joan e mais três filmes


 (Sony Pictures Classics/Divulgação)

Christopher Plummer, 89 anos
Tempo de carreira: 69 anos

O ator canadense estourou aos 36 anos, em A Noviça Rebelde (1965) — e reestourou aos 81, em Toda Forma de Amor (2010), que finalmente lhe rendeu um Oscar. Trabalhador incansável, tem cerca de 180 créditos no cinema e na TV, fora os trabalhos de voz

Neste ano… estará em três filmes e na série de TV Departure


 (John Lamparski/WireImage/Getty Images)

Morgan Freeman, 81 anos
Tempo de carreira: 55 anos

Estourou aos 52 anos, com Conduzindo Miss Daisy (1989), e desde então fez mais de sessenta filmes, ganhou um Oscar e teve quatro indicações. É um dos campeões de bilheteria de Hollywood

Neste ano… tem quatro estreias programadas


 (//Divulgação)

Ian McKellen, 79 anos
Tempo de carreira: 58 anos

Instituição do teatro inglês, virou Magneto na franquia X-Men aos 61 anos. Na sequência, eternizou-se como o mago Gandalf de O Senhor dos Anéis

Neste ano… estará em quatro filmes, incluindo o musical Cats


 (Mike Yarish/Netflix)

Alan Arkin, 84 anos
Tempo de carreira: 63 anos

Grande ator “de personagem”, foi indicado ao Oscar logo na estreia, aos 33 anos, em Os Russos Estão Chegando! (1966), mas só ganhou o prêmio aos 73, por Pequena Miss Sunshine (2006)

Neste ano… está nos filmes Dumbo e Wonderland e na série O Método Kominsky


 (Ali Goldstein/Netflix)

Jane Fonda, 81 anos
Tempo de carreira: 59 anos

Estrela desde os anos 60, é atriz cada vez mais afiada, em filmes como E Se Vivêssemos Todos Juntos? (2011), que fez aos 74 anos, e séries como Grace and Frankie

Neste ano… está no ar na quinta temporada de Grace and Frankie

 

Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2019, edição nº 2622

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