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Harry e Meghan: Meu reino por uma boa foto

Em viagem à África, o casal investe em sua campanha de recuperação da popularidade, detonada pelos tabloides que não perdoam a duquesa “difícil”

Encerrados quase seis meses de licença-maternidade, Meghan, a duquesa de Sussex, volta ao real batente: ela, o marido, Harry, e o filhinho, Archie, de quase 5 meses, desembarcaram na África do Sul para uma visita de dez dias. Nada de anormal no ramo de trabalho do alto escalão da monarquia britânica, mas essa viagem tem um significado especial. Mal havia começado, e lá estavam eles, dançando com os locais do modo desajeitado de sempre. O duque e, principalmente, a duquesa contam resgatar com o périplo — ou, ao menos, começar a resgatar — o status de queridinhos da corte, que teve seu apogeu em outra viagem, à Austrália e arredores, logo depois do anúncio de que Meghan estava grávida. Bons tempos. Agora, ela é torpedeada dia sim, dia também, nos tabloides — jornais de fofoca que se reinventaram como a santa inquisição das celebridades. “Só uma visita bem-sucedida não deve mudar a maré. Mas, se tudo correr bem, pode ser o início de uma relação mais tranquila com a imprensa”, diz Ingrid Seward, autora de livros sobre a realeza.

Não houve um fato concreto que tenha atiçado os tabloides contra Meghan. Alguns comentaristas especializados em royals veem na profusão de notícias negativas um racismo disfarçado, argumentando que a sociedade mais conservadora nunca engoliu a ex-­atriz americana, divorciada e filha de mãe negra, que se casou com o príncipe. Outros acusam na lata: ela é “difícil” mesmo. No disse me disse que mistura realidade com descarada boataria, até a rainha Elizabeth é citada: pessoas que vão ter contato com ela estariam sendo avisadas de que, no momento, não é de bom-tom trazer à baila os duques de Sussex. Nas redes sociais, rachadas entre apoiadores de Meghan, de um lado, e da cunhada “certinha” Kate, do outro, a hashtag #Mexit arrebanha retuítes.

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Dispondo de maior liberdade de ação do que William e Kate, herdeiros do herdeiro do trono, Meghan e Harry resolveram adotar um modo de vida peculiar no contexto da família real. Em compromissos públicos, não negam sorrisos e cumprem as vontades dos súditos. Na vida particular, não devem explicações a ninguém. Apertaram o botão do “não é da sua conta” até no nascimento de Archie: recusaram-se a revelar onde seria o parto, fazem segredo dos padrinhos (“Absur­do. Os mentores morais de um herdeiro do trono são questão de interesse público”, bradou um crítico) e são avarentos nas fotos — só agora se viu direito o fofíssimo bebê, que teve o seu primeiro compromisso oficial na África do Sul.

Entre o sem-fim de passos em falso (segundo os tabloides) do casal está uma reforma de 3 milhões de dólares do Frogmore Cottage, a casa próxima ao Castelo de Windsor onde foram morar, paga com dinheiro dos contribuintes. Condena-se o entra e sai de funcionários insatisfeitos, a quantidade de americanos no estafe e, mais recentemente, o número de mulheres a serviço dos Sussex — a equipe de dezesseis ajudantes na África do Sul é inteiramente feminina. Para piorar, a duquesa editou um número da Vogue britânica sobre mulheres poderosas em que nenhuma tinha título de nobreza. Defensores do meio ambiente e da sustentabilidade, eles viajaram de jatinho particular para Ibiza, na Espanha, e Nice, na França. Tiveram ainda a audácia de esnobar o convite da rai­nha para passar uns dias no castelo de Balmoral, na Escócia, onde a família bate ponto todo verão, alegando que Archie ainda é muito novinho (mas para Ibiza e Nice ele foi, não é?).

Cientes de seus problemas de imagem, os duques de Sussex contrataram a Sunshine Sachs, conhecida agência de relações públicas (de Holly­wood, onde mais?), para recuperar a popularidade. Outra profissional renomada, Sara Latham (americana, obviamente), que trabalhou na campanha de Hillary Clinton para a Presidência, foi incorporada à equipe de comunicação do Palácio de Buckingham com o mesmo objetivo. Meghan, empenhada na causa feminista, assinou uma linha de roupas destinadas às mulheres que trabalham. Harry, ambientalista de raiz, patrocina uma iniciativa para favorecer o turismo “verde”. Ele também discursou em prol do meio ambiente — descalço — em um encontro recente de megamilionários e famosos, ao qual chegou de jatinho, o bicho-papão da pegada de carbono (os tabloides, claro, não perdoaram). Depois de se separarem da Royal Foundation, patrocinada por William, Harry e suas respectivas caras-metades, os Sussex abriram a própria fundação.

A viagem à África é a chance do casal de aparecer muito bem na foto e reconquistar as boas graças da imprensa que lhe desce o pau. Logo no primeiro dia, a duquesa, ainda com uns quilinhos da gravidez na circunferência, mostrou a que veio: “Quero que saibam que, ao mesmo tempo que estou aqui com meu marido como membro da família real, eu, pessoalmente, também estou aqui como mãe, como esposa, como mulher, como mulher de cor e como irmã”, discursou em um bairro negro da Cidade do Cabo. Enquanto Meghan permanece na África do Sul, Harry fará um rápido périplo por Botsuana, Angola e Malawi. Em Angola, vai visitar o mesmo campo minado que sua mãe, Diana, outro alvo da impiedade dos tabloides, atravessou, de colete protetor, em 1997, e que hoje é uma cidade em expansão. Fotos não faltarão.

 

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2019, edição nº 2654