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Harper Lee e a arte de transformar o simples em clássico

Escritora de 'O Sol É para Todos' morreu nesta sexta-feira, aos 89 anos

A americana Harper Lee, morta nesta sexta-feira, aos 89 anos, deixa uma obra diminuta, com apenas dois livros, mas de maneira alguma insignificante. Seu primeiro romance, O Sol É para Todos (José Olympio), lançado em 1960, é um dos maiores clássicos da literatura americana contemporânea – se não o maior. Elogiado pela crítica, vencedor de um Prêmio Pulitzer, adaptado para o cinema e estudado nas escolas, o livro marcou gerações ao ser lançado em uma época em que a luta pelos direitos civis da população negra dos Estados Unidos estava a todo vapor. E tudo isso narrado com uma linguagem simples, visto pelos olhos de uma criança.

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Em O Sol É para Todos (To Kill a Mockingbird, no original), a narradora Jean Louise, conhecida como Scout, é uma garotinha que mora na pequena cidade de Maycomb, no Estado sulista do Alabama, junto com seu irmão mais velho, Jem, e seu pai, o advogado Atticus Finch. Ao mesmo tempo em que conta das peripécias que apronta pela vizinhança junto com Jem e o amigo Dill, Scout enfrenta a realidade de gente grande quando seu pai passa a defender o negro Tom Robinson, acusado erroneamente de estuprar uma moça branca da cidade.

O caso mostrado no livro traz grande semelhança com um acontecimento real de 1931, como lembra a professora Maria Silvia Betti, da Universidade de São Paulo. “Há muitos paralelos entre as circunstâncias narradas no livro e um caso verídico que causou grande comoção nacional: o julgamento de um grupo de nove jovens negros acusados do estupro de uma branca durante uma viagem de trem. Todos os acusados foram sentenciados à morte, exceção feita a um deles que era menor de idade. Os julgamentos realizados foram notoriamente arbitrários e desprovidos de provas, e a defesa apresentada foi inconsistente e mal fundamentada”, diz. Mais tarde, uma das jovens admitiu que havia mentido e que nenhum dos rapazes era culpado. “Por fim, as acusações de quatro dos nove envolvidos foram retiradas. As sentenças impostas aos demais variaram entre 75 anos e a pena capital.”

Em O Sol É para Todos, a família de Scout se torna malvista em Maycomb – na mentalidade corrente da época, um homem branco de bem jamais poderia defender um negro, ainda mais um que fosse acusado de ter cometido um crime contra outro branco. Apesar disso, Atticus nunca se abala ou deixa de acreditar na inocência de Tom, discursando para os filhos com frequência sobre igualdade racial e, principalmente, justiça.

Retratado como um homem sério, paciente e justo, Atticus se tornou uma espécie de herói tanto para Scout e Jem quanto para os leitores. “O livro trata da história de injustiça perante os negros e como a sociedade estava atravancada com ideias separatistas. Foi uma tentativa de mostrar a cultura vigente – segregacionista, racista – e como famílias brancas com ideais de igualdade sofriam segregação dos próprios pares”, avalia a professora de literatura Cláudia Maria Ceneviva Nigro, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).

O fato de o romance tocar em uma ferida aberta da sociedade americana da época não prejudicou seu sucesso. Ao contrário, ele foi impulsionado pelo contexto em que foi publicado. “Quando Harper escreveu o livro, o Alabama era um dos Estados em que a segregação racial era mais intensa e em que a luta pelos direitos civis enfrentava maiores desafios”, afirma a professora Maria Silvia Betti. “No Alabama havia ocorrido o episódio do boicote dos cidadãos negros às empresas de ônibus em Montgomery, em 1955, após Rosa Parks, uma cidadã negra, ter se negado a ceder seu lugar a um homem branco em um ônibus com pouquíssimos passageiros. A mobilização foi fundamental para a consolidação da liderança do jovem pastor batista Martin Luther King Jr. e para a projeção de seu nome como uma liderança pacifista em nível nacional. Dentro desse contexto, o assunto central de O Sol É para Todos não poderia ser mais pertinente.”

Transformado em best-seller, O Sol É para Todos rodou os Estados Unidos e o resto do mundo, enquanto sua autora, Harper Lee, foi se escondendo cada vez mais do assédio. Harper se tornou reclusa, negando pedidos de entrevistas e aparições públicas. Em 2007, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e ficou com a saúde debilitada, com deficiências visuais e auditivas.

Seu nome voltou ao noticiário no começo de 2015, quando a advogada Tonja Carter afirmou ter descoberto um manuscrito de Harper da década de 1950. A história, que foi publicada no ano passado com o nome de Vá, Coloque um Vigia, traz Scout e Atticus de volta, mais de dez anos depois dos acontecimentos do primeiro livro. Scout, agora com 26 anos, vai visitar o pai e descobre que ele passou a sustentar argumentos racistas – algo que chocou não apenas a narradora, mas todos os leitores que conheciam aquele Atticus do primeiro livro.

Como obra literária, o segundo romance é completamente dispensável, inconsistente e entediante. O brilho da narrativa pelos olhos de uma criança já não existe e resta certa nostalgia dos tempos em que Atticus era um homem livre de preconceitos raciais. Por isso mesmo, o livro foi recebido friamente mundo afora – era melhor ficar apenas com a lembrança de O Sol É para Todos, este, sim, um clássico.