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Gloria Pires vive médica pioneira em ‘Nise – O Coração da Loucura’

Longa narra a história real de psiquiatra que, na década de 1940, implementou um tratamento mais humanizado em hospital psiquiátrico do Rio

Quando um diretor de bom gosto decide contar a história de um grande personagem com a ajuda de excelentes atores, quase nada pode dar errado. É o caso de Nise – O Coração da Loucura, filme estrelado por Gloria Pires que chega aos cinemas do país nesta quinta-feira. O longa narra a história real da médica Nise da Silveira e a sua empreitada em adotar um tratamento mais humano e menos violento aos pacientes de um hospital psiquiátrico do Rio nos anos 1940. O resultado da produção é uma coleção de acertos, que vai da atuação do elenco à sensibilidade do roteiro.

Nascida em Maceió, Nise esteve entre as primeiras mulheres que se formaram em medicina no Brasil. No fim dos anos 1930, foi afastada da psiquiatria por motivos políticos – ela chegou a ser presa por posse de livros marxistas -, até que, em 1944, voltou a trabalhar no Centro Psiquiátrico Engenho de Dentro, no Rio. E é este período específico no hospital que o filme retrata. O que já é, diga-se, suficiente para comprovar a relevância da personagem.

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O longa começa com a volta de Nise ao hospital e o choque da médica ao descobrir os procedimentos violentos que passaram a ser adotados para tratar os pacientes. Contrária a tais técnicas e incapaz de aplicá-las, a protagonista assume a ala de terapia ocupacional do centro psiquiátrico, que se limitava a um espaço tomado por entulhos e dois enfermeiros, Lima (Augusto Madeira) e Ivone (Roberta Rodrigues), que pouco ou quase nada faziam pelos pacientes.

Nise, então, transforma a ala em um ambiente livre de violência e acolhedor aos pacientes, onde poderiam desenvolver atividades lúdicas. Para isso, ela precisou enfrentar a má vontade dos dois enfermeiros da sua equipe e o preconceito dos outros psiquiatras do hospital (todos homens). Com o tempo, o setor comandado por Nise se torna um ateliê artístico, em especial de pintura, onde os pacientes revelam seu lado criativo e produzem obras de arte – ou “imagens do inconsciente”, como definia a psiquiatra.


É interessante a forma como o diretor Roberto Berliner (Julio Sumiu) expõe as ideias de Nise – e as suas consequências sobre os pacientes. O filme é didático, mas não se apega tanto a explicações teóricas, e sim em mostrar na prática os efeitos das ações da médica, os quais promoveram melhorias consideráveis no comportamento dos internados. O resultado é bem-sucedido, e o mérito é todo dos competentes atores que cumpriram com elegância e sensibilidade a tarefa de dar vida a pessoas com problemas psiquiátricos em estágio avançado. Gloria Pires, por sua vez, entrega uma Nise como deve ser: rígida, determinada e sobretudo devota aos seus clientes – era assim que ela chamava os pacientes. Para a psiquiatra, enquanto funcionária pública, o seu dever era de prestar bons serviços àqueles que estavam internados no hospital.

Em determinado momento do filme, Nise escreve uma carta a Carl Jung, psiquiatra cujas obras foram a sua fonte de inspiração. Ela relatou os progressos feitos no hospital e enviou fotografias de telas pintadas pelos seus clientes. Surpreendentemente, o suíço respondeu à brasileira, observando que ela e sua equipe, ao que parecia, “não tinham medo do inconsciente”. Essa talvez tenha sido a grande diferença da médica alagoana para os outros profissionais da sua época. Ao deixar os pacientes livres para se expressarem, ela conseguia compreendê-los e, assim, ajudá-los. Nise desenvolveu uma troca benéfica com os seus clientes, e o mesmo pode-se observar entre Gloria Pires e o restante do elenco no filme. A trajetória da psiquiatra e o conjunto das atuações ajudam a fazer de Nise – O Coração da Loucura um filme em que, de fato, nada deu errado.