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‘Game of Thrones’: A fantasia para adultos na TV brasileira

Primeiro episódio apresenta homens e mulheres - munidos de sexo, traição e violência - às voltas com o mais primitivo e eterno de todos os jogos

Por Marco Túlio Pires - 6 May 2011, 23h37

No dia das mães a rede de TV HBO exibirá o primeiro episódio da aguardada série Game of Thrones. Às 21 horas do domingo, os telespectadores brasileiros serão convidados a embarcar em uma nova caracterização do gênero fantasia – muito intensa, sombria e perversa. Game of Thrones não é uma fábula medieval. Apesar de ter nascido à sombra de O Senhor dos Anéis, do inglês J.R.R. Tolkien, a nova série não é história para encantar ou fazer sonhar, com elfos, duendes ou fadas. Sua sedução é de outra ordem, adulta, crua, sem pudor, com homens e mulheres – munidos de sexo, traição, promiscuidade e violência – às voltas com o mais primitivo e eterno de todos os jogos: jogo pelo poder.

A adaptação para as telas de As Crônicas de Gelo e Fogo, série de sete livros do autor americano George R. R. Martin, captou a essência do que se pretendia com os livros, preencher um vazio de mercado que há muito tempo carecia de atenção. Tanto aqueles que passaram a juventude consumindo cultura nerd ou lendo aventuras infanto-juvenis, quanto os curiosos que desejam experimentar o gênero, terão motivos de sobra para passar as noites de domingo ligados na série. E depois dormir felizes. A aposta é tão grande que todos os assinantes da Net poderão ver o primeiro episódio da série. A empresa já confirmou que irá liberar o sinal mesmo para os que não pagam os pacotes com a HBO.

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Acostumada a gastar sem reservas nas séries que produz, a HBO enfiou a mão no bolso e desembolsou 10 milhões de dólares (só no novo primeiro episódio) para dar vida aos Sete Reinos de Westeros, criado por Martin. O piloto de Game of Thrones nasceu às duras penas. A primeira versão, filmada em 2009, não agradou a cúpula da rede e foi praticamente refeito, com novos atores. Quem viu as duas versões disse que o resultado mudou da ‘água para o vinho’. Mas apesar da dinheirama investida, alguns detalhes podem incomodar os fãs mais exigentes. Em Winterfell (filmada na Irlanda), por exemplo, que no livro é um lugar gelado e farto de neve, na versão para a TV virou um lugar que aparenta ser frio, mas não tem nenhuma neve.

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Outros podem criticar o modo como os lobos da família Stark são retratados. É que a produção da série optou por cachorros treinados em vez de computação gráfica. Isso limita as opções de interação dos animais com os personagens e a sensação é de que faltam lobos, o contrário do que acontece no livro, onde em muitos momentos, os animais roubam a cena com feitos espetaculares. Algo que também vai levantar algumas sobrancelhas acontece quando a família encontra os lobos filhotes no início do primeiro episódio e a sensação que se tem é que os produtores não conseguiram se decidir sobre a iluminação – eles estão fora ou dentro da floresta? Mas nada disso diminui o valor da série nem desmerece o sucesso que ela está fazendo no exterior e provavelmente fará no Brasil.

O primeiro episódio de Game of Thrones é uma espécie de superintensivo para o restante da história. Os telespectadores são apresentados a pelo menos 20 personagens diferentes desencadeados de formas bastante inteligentes. As relações entre as famílias muitas vezes precisa ser deduzida pelo telespectador e outras vezes é entregue de bandeja. O equilíbrio ajuda a espantar o tédio. Outra coisa que vai manter os olhos dos fãs pregados é a eliminação de várias partes mais arrastadas no livro. Como o grosso primeiro volume precisa se resolver em 10 episódios na televisão, a HBO promete reviravoltas em todos os episódios. É quase certo que a maior parte das pessoas ficará de queixo caído com o que se sucede ao final da primeira etapa. Acreditem, é tenso.

Uma das estrelas da série é, sem dúvidas, o ator Sean Bean, que ficou famoso por fazer o papel de Boromir nos dois primeiros filmes da trilogia O Senhor dos Anéis. Na pele de Eddard Stark, Bean é o austero senhor de Winterfell, guardião das terras do norte. A região é o lar de um povo sofrido, marcado pela dura rotina gelada e pelos rígidos costumes dos antepassados. O estilão paladino medieval caiu muito bem ao ator e ele incorpora o personagem com naturalidade.

Outro destaque é maravilhosa Emilia Clarke (Doctors), que encarna Daenerys Targaryen, a última sobrevivente mulher da antiga família que governava os Sete Reinos e agora está exilada do outro lado do mundo. A beleza exótica e ingênua reforçada pela boa atuação de Emilia vai fazer palpitar mais forte o coração dos marmanjos. O cenário tropical de Pentos, cidade onde está a princesa exilada, foi filmado em Malta, que também dá vida ao Porto Real, onde fica a corte.

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Tanto no livro quanto nas telinhas, Tyrion Lannister, o astuto anão, caçula da gananciosa família da rainha, merece um comentário a parte. A HBO conseguiu afinar perfeitamente a genialidade do personagem com o excelente poder de atuação de Peter Dinklage (As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian). Único americano no elenco, Dinklage consegue executar a difícil tarefa de ser promíscuo sem perder a classe. É o tipo do antivilão que vai cativar muitos telespectadores enquanto deixa outros em cima do muro sobre sua personalidade. Ele é mau? Bom? Não se sabe ainda.

Uma condição, no entanto, é essencial para os que pretendem passar pelos portões dos Sete Reinos na TV: como a trama é complexa e igualmente saborosa, melhor não perder nenhum episódio. As intrigas surgem em velocidade e volume tão próximos do que se vive na realidade que – também como na vida real – é bom estar sempre atento. Já no primeiro episódio fica claro que em Game of Thrones nada é o que parece ser.

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