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Filme brasileiro enfrenta disputa acirrada no Festival de Cannes 2016

Evento que começa nesta quarta-feira recebe ‘Aquarius’, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que concorre à Palma de Ouro com nomes como Almodóvar e irmãos Dardenne

Fazia oito anos que um filme brasileiro falado em português não participava da competição do Festival de Cannes. A última vez foi com Linha de Passe, de Walter Salles, em 2008. O diretor – que apresentou Na Estrada, produção em inglês, em 2012 – agora volta ao evento como um dos produtores de Aquarius. O segundo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho (de O Som ao Redor) está na seleta lista de 21 candidatos à Palma de Ouro na 69a edição do festival, que começa nesta quarta-feira com a exibição fora de concurso de Café Society, de Woody Allen. Aquarius tem como personagem central Clara (Sonia Braga), uma escritora e jornalista aposentada que luta contra a demolição do edifício antigo onde mora, em Recife (confira uma cena do filme ao final desta reportagem).

A seleção deste ano é bem empolgante, ao menos no papel. Alguns vencedores de anos anteriores retornam com seus novos trabalhos. É o caso dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, que não entram para perder: levaram a Palma de Ouro com Rosetta (1999) e A Criança (2005), o Grande Prêmio do Júri com O Garoto da Bicicleta (2011) e o troféu de roteiro com O Silêncio de Lorna (2008). Eles apresentam La Fille Inconnue, com a nova sensação do cinema francês, Adèle Haenel. O romeno Cristian Mungiu, que levou a Palma em 2007 com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e o prêmio de roteiro com Além das Montanhas (2012), exibe Bacalaureat. Ken Loach, vencedor em 2006 por Ventos da Liberdade, volta com I, Daniel Blake. O diretor participou outras 11 vezes da competição.

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Outros premiados em edições anteriores também disputam os cobiçados troféus. O espanhol Pedro Almodóvar, melhor direção por Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e melhor roteiro com Volver (2006), vem com Julieta. O francês Bruno Dumont, Grande Prêmio do Júri com A Humanidade (1999) e Flandres (2006), retorna com Ma Loute. O filipino Brillante Mendoza, troféu de direção em 2009 com Kinatay, mostra Ma’Rosa. O americano Jim Jarmusch ganhou a Câmera de Ouro em 1984 por Estranhos no Paraíso e o Grande Prêmio do Júri em 2005 com Flores Partidas. Agora, exibe Paterson. O dinamarquês Nicolas Winding Refn, melhor diretor por Drive (2011), traz The Neon Demon. O sul-coreano Park Chan-wook, Grande Prêmio do Júri por Oldboy (2004) e prêmio do júri por Sede de Sangue (2009), apresenta Agassi. A inglesa Andrea Arnold, prêmio do júri em 2006 com Marcas da Vida e em 2009 com Fish Tank, compete com American Honey. O caçula da turma, o franco-canadense Xavier Dolan, levou o prêmio do júri dois anos atrás com Mommy. Seu novo trabalho é Juste la Fin du Monde.

Ou seja, o Festival de Cannes é um clubinho bem restrito. Mesmo quem nunca foi premiado é presença constante: Sean Penn ganhou como ator (Loucos de Amor, 1997), competiu em 2001 como diretor com A Promessa (2001) e foi presidente do júri em 2008. Desta vez apresenta The Last Face. Seu conterrâneo Jeff Nichols, que participou com Amor Bandido (2012), exibe Loving, apenas três meses depois de estrear Midnight Special na competição em Berlim. A francesa Nicole Garcia já esteve na seleção principal duas vezes, com O Adversário (2002) e Selon Charlie (2006), e mostra Mal de Pierres. Também francês, Olivier Assayas vem com Personal Shopper depois de disputar prêmios na seção oficial em quatro outras edições. O iraniano Asghar Farhadi, Urso de Ouro em Berlim com A Separação, concorre à Palma pela segunda vez com Fourshande (The Salesman). O holandês Paul Verhoeven, que disputou em 1992 com Instinto Selvagem, exibe Elle.

Enquanto isso, outros foram promovidos. O francês Alain Guiraudie, que fez sucesso em 2013 com Um Estranho no Lago (2013), melhor filme e direção da mostra Um Certo Olhar, vai à competição pela primeira vez com Rester Vertical. O romeno Cristi Puiu também foi premiado na mesma seção em 2005 com A Morte do Senhor Lazarescu (2005). Agora apresenta Sieranevada. É o caso do próprio Kleber Mendonça Filho, que apresentou O Som ao Redor na mostra paralela Quinzena dos Realizadores, que tem comitê de seleção completamente separado. Já a alemã Maren Ade, que vem com Toni Erdmann, levou prêmio, mas no Festival de Berlim, com Todos os Outros (2009).

O júri oficial, encarregado de distribuir os prêmios da competição, é presidido pelo cineasta australiano George Miller e composto pelo diretor francês Arnaud Desplechin, a atriz americana Kirsten Dunst, a atriz italiana Valeria Golino, o ator dinamarquês Mads Mikkelsen, o cineasta húngaro László Nemes, a atriz francesa Vanessa Paradis, a produtora iraniana Katayoon Shahabi e o ator canadense Donald Sutherland. O anúncio dos premiados acontece no domingo, dia 22.