Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Festival Varilux abre com ‘Intocáveis’, fenômeno de bilheteria mundial

Longa já abraçado pelo produtor americano Harvey Weinstein, o mesmo de ‘O Artista’, é a principal atração do evento que este ano acontece simultaneamente em 33 cidades

Há cerca de um ano, poucas pessoas fora da França haviam ouvido falar na dupla de diretores Eric Toledano e Olivier Nakache. No entanto, eles foram responsáveis por um dos grandes hits cinematográficos recentes, o filme Intocáveis, lançado na França em novembro passado e que abre nesta quarta-feira o festival de cinema francês Varilux, em 33 cidades brasileiras. “Estou mais do que bem. Tive um ano incrível.” A maneira como Toledano cumprimenta a reportagem já diz tudo sobre o sucesso do filme, o quarto da carreira da dupla. Produzido de maneira independente, o longa se tornou um fenômeno de bilheteria, arrecadando 360 milhões de dólares e passando a ser o segundo título mais visto da história do cinema francês.

LEIA MAIS:

LEIA MAIS: Em seu terceiro ano, festival Varilux tem sua maior edição

Não é só isso. Intocáveis, uma comédia sobre o valor da amizade, recebeu nove indicações ao César, o Oscar francês – Omar Sy levou o troféu de melhor ator, se tornando o primeiro negro a ganhar o prêmio – e, de quebra, colocou seus diretores na mira de Hollywood. Lembra um pouco a história de outro acontecimento recente do cinema francês – o filme O Artista, que venceu o Oscar deste ano? Não é coincidência. O produtor responsável pela distribuição dos dois longas nos Estados Unidos é o mesmo, Harvey Weinstein, nome por trás de diversos êxitos hollywoodianos e que adquiriu também os direitos para fazer um remake com Colin Firth no papel principal. “Weinstein é como o ‘poderoso chefão’ dos produtores, porque conhece todo mundo, todos os filmes, entende de marketing e de roteiro”, afirma Toledano. E, o mais importante, diz, “Está muito interessado no cinema francês no momento.”

Se O Artista triunfou mais por suas qualidades estéticas – o cineasta Michel Hazanavicius se arriscou a fazer um longa mudo e em preto-e-branco – que por seu roteiro simplista, Intocáveis inova na narrativa. A sinopse poderia ser a de um dramalhão – “Após ficar paraplégico, empresário milionário contrata rapaz pobre dos subúrbios como enfermeiro, e nasce uma improvável amizade. Baseado em uma história real” -, mas o tom escolhido pela dupla de diretores franceses é de comédia. “Quando começamos a dizer a produtores que queríamos fazer um filme engraçado sobre um cara em uma cadeira de rodas, as pessoas ficaram assustadas”, conta Toledano. O roteiro, escrito por ele e por Nakache, contém cenas hilárias e a dose certa de drama para tornar o filme emocionante, sem ficar pesado.

Na vida real, o milionário é Philippe Pozzo di Borgo (vivido por François Cluzet no filme), um dos homens mais ricos da França, que se tornou deficiente físico após um acidente de parapente e contratou o algeriano Abdel Sellou (que no filme vira o senegalês Driss, interpretado por Omar Sy) para ajudá-lo. Antes de ser transformada no filme, a história já rendeu dois livros (um escrito por Borgo, e outro por Sellou) e o documentário À La Vie, à La Mort, de 2004.

Leia abaixo a entrevista com o diretor Eric Toledano.

Como você explica o sucesso de Intocáveis? Fizemos uma comédia sobre um assunto que não é divertido. Quando começamos a dizer a produtores que queríamos fazer uma comédia sobre um cara em uma cadeira de rodas e a sua relação com um cara mais pobre, as pessoas ficaram assustadas e nos disseram que isso não era tema para uma comédia. Mas nós tínhamos certeza de que era possível encontrar humor nisso. Acho muito importante que se façam comédias sobre assuntos de profundidade. As pessoas têm medo de um dia se ver em uma cadeira de rodas, ou perder todo seu dinheiro e ter de morar em um bairro pobre. Mas nós conseguimos mostrar como o amor pode surgir nesse tipo de situação, e acho que esse é um dos elementos do sucesso do filme. No Brasil, a diferença entre ricos e pobres é gritante, então, acho que vocês podem compreender bem o universo que mostramos no longa.

Os Estados Unidos não se mostraram tão compreensivos com o filme. Alguns críticos de lá disseram que o longa é racista. Os Estados Unidos criam muitas polêmicas raciais. Eles têm um presidente negro e têm problemas em aceitar ligações entre pessoas brancas e negras, porque veem uma relação de dominação, quando essa relação não existe mais.

O filme é baseado em uma história real. Mas, nela, o rapaz que cuida de Philippe era algeriano, e não senegalês. Isso implica que ele não deveria ser negro. Essa é uma parte do problema nos Estados Unidos. Mas é preciso entender que, na França, os imigrantes vivem juntos em bairros pobres em volta das grandes cidades, como Paris, Lyon e Marseille. Não é como nos Estados Unidos, em que há os bairros dos negros, os bairros dos latinos e os bairros dos chineses. Nós já trabalhávamos com Omar há anos, e sabíamos que ele seria perfeito para o papel. Como ele era negro, preferimos mudar a nacionalidade dele para senegalês. Para você ter uma ideia de como isso é normal por aqui, ninguém falou sobre essa mudança nos jornais franceses. Só nos Estados Unidos disseram que o filme era racista. É completamente estúpido.

Está orgulhoso de ter revelado Omar? Este é o quarto filme que fazemos com ele. Ele começou com papéis menores, há dez anos, foi crescendo conosco e essa é a primeira vez dele como protagonista. Estamos muito orgulhosos de tê-lo descoberto, porque confiamos nele desde o começo.

E como você e Olivier Nakache se conheceram? Nós nos conhecemos num acampamento de verão, quando éramos adolescentes. Ele veio até mim e disse: “Ouvi dizer que você gosta de cinema”. Então, eu disse: “Vamos fazer filmes juntos”. Nós éramos crianças, era só um sonho. Mas lá se vão vinte anos, e hoje estou falando com uma jornalista brasileira em São Paulo. Acho que posso dizer que todos podem acreditar nos seus sonhos.

Com o sucesso do filme nos EUA, imagino que você tenha recebido muitas propostas de Hollywood. Pensa em fazer um filme americano? O sistema de produção de filmes na França é muito bom, porque somos independentes. Podemos escolher como queremos nosso filme e manter o controle sobre ele. Quando começaram a aparecer propostas nos Estados Unidos, ficamos muito interessados e fomos conhecer alguns atores e produtores americanos. Com o tempo, entendemos que eles queriam controlar tudo. E, se Intocáveis é o filme que é, eu posso me gabar de ser assim por eu tê-lo feito de forma independente, com o controle inteiramente em minhas mãos. É por isso que eu prefiro ficar na França, fazendo os meus filmes, e não precisar escutar um produtor americano dizer como o meu filme tem de ser feito.

Como foi conhecer o produtor Harvey Weinstein? Toda vez que vou aos Estados Unidos, nós nos encontramos. Ele é muito bom no que faz, é como o “poderoso chefão” dos produtores, porque conhece todo mundo, todos os filmes, entende de marketing e de roteiro, e está muito interessado no cinema francês no momento. Ele fez com que O Artista ganhasse o Oscar. É um grande profissional, e sabemos que estamos em boas mãos com ele.

Acha que o Oscar de O Artista atraiu mais atenção para o cinema francês? O Artista não é um filme francês típico, porque não tem diálogos. O nosso é mais típico. Mas falou-se muito sobre o cinema francês no mundo todo esse ano, entre O Artista ganhar um Oscar e o nosso filme ter a maior bilheteria de um filme estrangeiro nos Estados Unidos. É um grande momento para o cinema francês.