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Festival integra jovens de Canoa Quebrada com as artes

Por AE

São Paulo – Italo Alisson Almeida tem 16 anos e nunca foi além de 30 km de Canoa Quebrada, região famosa pela praia repleta de dunas no município de Aracati, no Leste cearense. Italo não conhece nem mesmo a capital Fortaleza nem nunca foi ao cinema, mas já é diretor.

O rapaz, que mora com a mãe, diarista, e o padrasto, participou da mostra paralela do 7º Curta Canoa – Festival Latino-Americano de Cinema de Canoa Quebrada. O objetivo principal do evento é integrar a comunidade com os projetos audiovisuais. E Italo é prova de que a iniciativa tem sido bem-sucedida. Se o cinema ajuda a construir sonhos de quem o assiste, também forma jovens cidadãos mais conscientes da realidade que os cerca.

Confundido com alguém da produção aos 11 anos, Italo foi ficando no festival. De ajudante, tornou-se aluno das oficinas ministradas durante o ano, que levam conhecimentos básicos sobre a arte de filmar a crianças e adolescentes. O cinema, aqui, é elemento não só de arte como de resgate social. Assim como o jovem e moradores do local, o idealizador do projeto, Rodrigo Tasso, também atesta que as drogas tornaram-se um problema de saúde pública na região e o envolvimento com a produção de filmes mantém os adolescentes em outro caminho.

O Canoa Faz Cinema – projeto em que os jovens alunos dirigem seus filmes – deu certo e expandiu-se para o distrito ao lado. Majorlândia Faz Cinema é apenas mais um tijolo na construção do sonho de Tasso de ter uma cidade inteira envolvida com o cinema. Ideal que é compartilhado com Fernando Maia, um dos professores da Faculdade Católica do Ceará (Marista), que também ministram oficinas durante o evento. O carioca assinala as cores e luzes do Ceará e a visão ainda pouco contaminada de comunidades que tiveram até então o mínimo contato com o cinema como um diferencial. “É um jeito de estimular uma linguagem própria. É assim que funciona o audiovisual, contar uma história através do seu olhar. Não há coisa melhor que pegar pessoas com ‘HD zerado’.”

E é numa quadra aberta, com jeitão de praça, que todos os filmes – incluindo um grupo de latino-americanos vindo do FAM, o Florianópolis Audiovisual Mercosul – que os filmes são exibidos. Entre a segunda e o sábado passados, mais de cem filmes foram apresentados. Evento que coloca garotos da comunidade, como Italo, ao lado de jovens que já desenham um portfólio cinematográfico consistente, como Thiago Valente. Fortalezense radicado no Rio, ele viu seu curta, “Laura”, o quinto que dirige, no telão ao ar livre emoldurado pela lua cheia.

Dirigido por Adriano Lima desde a primeira edição, um apaixonado por cinema, o Curta Canoa ainda envolve a conscientização do meio ambiente como reciclagem de lixo, plantio de mudas de árvores e apoio à moda local. Pequenas ações em prol da comunidade que, aliadas ao aprendizado do cinema, ajudam a florescer cidadãos melhores. Como Italo. No nono ano do Ensino Fundamental e orgulhoso de seu primeiro trabalho cinematográfico, o rapaz tem consciência dos obstáculos, mas está recheado de autoestima suficiente para conquistar seus objetivos.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.