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Favoritas ao Emmy, Handmaid’s Tale e The Americans refletem a era Trump

Produções enfrentam a fantasia pop de 'Game of Thrones' dialogando com o cotidiano

Mulheres diminuídas, Intolerância e espionagem russa. Poderia ser uma descrição dos Estados Unidos sob o governo Donald Trump, mas são, na verdade, os motes de duas concorrentes ao prêmio de melhor série dramática do Emmy 2018, que acontece na segunda-feira (17). The Handmaid’s Tale, distopia que retrata o país americano sendo governado apenas por homens enquanto mulheres são relegadas ao seu papel reprodutor, briga pela sua segunda estatueta nessa categoria junto com outras seis produções, incluindo The Americans, que trata de um casal de espiões russos camuflados nos Estados Unidos como americanos comuns durante a Guerra Fria.

Como fenômeno pop, os dois seriados não se comparam nem de longe com Game of Thrones, que não só é o assunto geral quando uma de suas temporadas está no ar na HBO como detém os recordes de série roteirizada mais indicada ao Emmy e série roteirizada que mais troféus ganhou na história da premiação. O barulho só cresce quando se leva em conta que a temporada que concorre nesta edição do Emmy é sua sétima e penúltima, o que deve animar os fãs que aguardam o desfecho da história, previsto para o ano que vem. Apesar de tudo isso, Game of Thrones, no fim das contas, é uma série de fantasia e pode perder força quando comparada a produções que respondem a anseios da população americana sob o governo Trump ou dialogam com o cotidiano – caso de The Handmaid’s Tale e The Americans, as queridinhas da crítica especializada.

A primeira, série original do serviço de streaming Hulu que é exibida no Brasil pelo canal pago Paramount Channel, causou furor em 2017, quando estreou. Baseado na obra de Margaret Atwood, o seriado chocou seus espectadores ao mostrar mulheres sendo estupradas em um ritual criado para garantir a perpetuação da espécie humana, portanto abençoado por Deus, gays enforcados em praças por serem “traidores de gênero” e torturas dos mais variados tipos.

Tudo isso passou na TV justamente no primeiro ano do governo de Donald Trump, o presidente que um mês antes das eleições estrelava um vídeo obtido pelo jornal The Washington Post em que dizia que, quando um homem é famoso, as mulheres deixam que ele faça “qualquer coisa” com elas, incluindo tocar suas partes íntimas. No mesmo vídeo, ele contava sobre suas investidas sexuais em mulheres casadas. Em outros depoimentos ao longo dos anos, falou que não vale a pena ir para a cama com mulheres com mais de 35 anos e chegou a usar termos como “voluptuosa” para descrever sua própria filha, Ivanka. Para piorar, em 2018 o ex-advogado pessoal de Trump admitiu ter pagado duas mulheres para que elas não revelassem que haviam tido um caso com o empresário em 2006, quando ele já era casado com a atual esposa, Melania.

Que fique claro: o estupro institucionalizado de The Handmaid’s Tale não é a mesma coisa que as barbaridades que Trump fez com ou falou sobre as mulheres. Ambos, porém, nascem do mesmo princípio, o machismo, ou seja, a ideia de que o homem é superior à mulher e que ela deve subserviência, de uma ou outra maneira, a ele. Para além do governo Trump, o cenário de terror mostrado no seriado não só em relação a mulheres, mas também a qualquer pessoa que tente romper com o regime como ele se estabeleceu, é também um retrato da intolerância levada até as últimas consequências. E intolerância é o que não falta no mundo que vivemos hoje.

Enquanto The Handmaid’s Tale parece ter sido criada justamente em resposta ao panorama de machismo e intolerância atual, The Americans, disponível no serviço de streaming Fox+, acabou sendo tragada pela onda Donald Trump. O seriado estreou em 2013, quando o presidente americano era conhecido somente por sua vida de empresário e seu programa de TV The Apprentice. Mas a produção que retrata um casal de agentes secretos da KGB infiltrado nos Estados Unidos do presidente republicano Ronald Reagan, nos anos 1980, em plena Guerra Fria, se viu perto demais da realidade quando começaram as acusações de que houve interferência russa nas eleições americanas de 2016.

Na série, que terminou em maio, os protagonistas fingem levar a vida como os americanos, moram no subúrbio, cuidam da casa e dos filhos enquanto assumem missões com a intenção de detonar os Estados Unidos por dentro. Na vida real, agências americanas de inteligência investigam agentes russos acusando-os de ter interferido nas eleições para minar a campanha da democrata Hillary Clinton e beneficiar a de Trump, em um esquema que teria envolvimento até do presidente da Rússia, Vladimir Putin, ex-agente da KGB.

As comparações entre a trama do seriado e a realidade se tornaram frequentes nos últimos anos, para a infelicidade dos criadores da produção: nunca foi a intenção deles que o programa se tornasse um espelho da vida real. “É engraçado – parece que o que estávamos mostrando na série seria mais relevante para a Rússia, especificamente. Mas isso de uma maneira incidental, porque achávamos que estávamos dizendo isso levando em conta um inimigo genérico e como é importante lembrar que nossos inimigos também são humanos”, disse Joel Fields, produtor executivo, em entrevista. “A ideia da série era mostrar que seus inimigos não precisavam ser seus inimigos – mas acho que o seriado não deu certo”, completou Joe Weisberg, o criador da série, aos risos.