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‘Fausto’, do russo Alexandre Sokourov, leva o Leão de Ouro do Festival de Veneza

O filme “Fausto”, do russo Alexandre Sokurov, conquistou neste sábado o Leão de Ouro da 68a. edição da Mostra de Veneza.

Inspirado no clássico de Goethe, “Fausto”, o filme faz uma análise sobre a corrupção do poder e é, segundo seu diretor, uma homenagem à cultura europeia.

“É difícil realizar cinema autoral hoje em dia. Agradeço pela compreensão e pelo cansaço que isso implica”, declarou o cineasta, emocionado ao receber o prêmio do presidente do festival, Paolo Baratta.

O diretor narra em mais de duas horas a história da figura mitológica de Fausto, que vendeu sua alma ao diabo Mefistófeles em troca da juventude e da realização de todos seus desejos.

“É impossível imaginar a literatura sem ‘Fausto'”, afirmou Sokurov, que completa assim uma série de filmes sobre a natureza do poder depois dos dedicados a Adolf Hitler (“Moloch”, 1999), Lênin (“Taurus”, 2000) e ao imperador Hirohito (“The Sun”, 2005).

No filme, os personagens evoluem em uma atmosfera sufocante de fim de mundo. A obra, que agradou em cheio os amantes do cinema ‘noir’, é salpicada por cenas de revirar o estômago, como corações arrancados de cadáveres e defecação em uma igreja.

“O mal se reproduz e Goethe formulou sua essência: ‘pessoas infelizes são perigosas'”, havia declarado Sokurov na coletiva de apresentação do filme, admitindo que ele foi forçado a cortar muitas cenas porque o horror foi “muito extremo”.

Sokurov é o segundo diretor russo a receber o prêmio maior de Veneza, depois que seu compatriota Andrei Zviaguintsev o levou em 2003 pelo filme “O regresso”.

O Leão de Prata para melhor direção coube ao chinês Cai Shangjun, por “Ren Shan Ren Hai”.

O júri, presidido pelo cineasta e produtor americano Darren Aronofsky, concedeu o Prêmio do Júri ao drama italiano sobre a imigração ilegal “Terraferma”, de Emanuele Crialese.

O ator alemão de mãe irlandesa Michael Fassbender, de 34 anos, recebeu a Copa Volpi por sua impecável e difícil atuação em “Shame”, do videomaker britânico Steve McQueen, que retrata um executivo viciado em sexo.

“Um trabalho extraordinário e corajoso”, enfatizou o júri.

A atriz chinesa Deani Ip foi premiada com a Copa Volpi feminina por sua atuação no poético filme “Tao jie” (Vida simples) sobre a velhice na sociedade contemporânea.

O Prêmio Especial do Júri foi para o italiano Emanuele Crialese, por “Terraferma”.

Crialese, vencedor do Leão de Prata 2006 com “Nuovomondo”, dedicou seu prêmio aos habitantes de Lampedusa e Linosa, que receberam nos últimos meses uma onda de imigrantes provenientes da África.

No total, 65 estreias mundiais de 35 países foram exibidas durante os dez dias do festival, que este ano contou com uma melhor organização e a presença de astros de Hollywood assim como de importantes nomes do cinema de autor.

O filme mais recente dirigido por George Clooney abriu o festival, que contou com outros gigantes da sétima arte, como Roman Polanski, David Cronenberg, Abel Ferrara e Johnnie To.

Até a estrela pop Madonna apresentou, fora de competição, seu segundo filme como diretora, “W.E.”.

Outro convidado de honra foi o ator Al Pacino, que exibiu, também fora de competição, seu terceiro longa-metragem como diretor, “Wilde Salomé”.

O cinema brasileiro marcou presença na mostra “Horizontes”, com “Girimunho”, dos diretores Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina.

A seguir, a lista dos premiados:

– Leão de Ouro para melhor filme:

“Fausto”, de Alexandre Sokurov (Rússia)

– Copa Volpi de melhor ator:

Michael Fassbender, por “Shame”, de Steve McQueen (Grã-Bretanha)

– Copa Volpi de melhor atriz:

Deanie Yip, por “Taojie” (Uma vida simples), de Ann Hui (China/Hong-Kong)

– Leão de prata de direção:

Cai Shangjun, por “Ren Shan Ren Hai” (Gente da montanha, gente do mar) (China)

– Prêmio Especial do Júri:

“Terraferma” (Terra firme), de Emanuele Crialese (Itália)

– Prêmio Marcello Mastroianni de melhor jovem intérprete:

Shôta Nikaidô e Fumi Nikaidô, por “Himizu”, de Sion Sono (Japão)

– Prêmio Osella de melhor roteiro:

Yorgos Lanthimos e Efthimis Fillippou, por “Alpeis” (Alpes), de Yorgos Lanthimos (Grécia)

– Prêmio Osella de melhor direção artística:

Robbie Ryan, por “Morro dos ventos uivantes”, de Andrea Arnold (Grã-Bretanha)