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Família, o ‘cupido’ da Índia

Moncho Torres.

Nova Délhi, 17 fev (EFE).- Em um país como a Índia, onde impera a tradição, a família ocupa o papel principal na hora dos jovens escolherem seus pares para o matrimônio, em casamentos arranjados que usam desde anúncios em jornais até agências matrimoniais.

A família do jovem Shyam Kumar recorreu ao método clássico que consiste em pesquisar o círculo social mais próximo para encontrar uma esposa e, após analisar 15 meninas, viram na prima de uma de suas cunhadas a mulher ideal para ele.

Desde que recebeu a notícia, Kumar anda distraído pelos corredores do colégio onde trabalha como zelador, sonhando com o encontro com sua futura esposa.

‘Saberei o seu nome, poderei falar com ela por 20 minutos e vou pegar o número de seu telefone’, explicou o jovem à Agência Efe, acrescentando que o casamento está marcado para o final de dezembro e que se sente confiante na escolha da família.

A septuagenária Shanti Rani, que se casou aos 15 anos, afirmou convencida à Efe que esta é a melhor maneira de casar um filho ou filha porque ‘as famílias entram em acordo, algo que não acontece nos casamentos por amor’.

Este aspecto pode ser compreendido se levarmos em conta o que explica o escritor espanhol Álvaro Enterría em seu livro ‘A Índia Por Dentro’: ‘Neste país o casamento não é uma relação entre indivíduos, mas entre famílias’.

Isto se torna um valor incontestável porque, segundo Enterría, em um país onde o Estado não pode prover as necessidades de seus cidadãos, os laços familiares surgem como o único seguro desemprego, seguro médico ou fonte de renda.

Algo confirmado pela diretora da agência matrimonial Sycorian, Rekha Vaid: ‘Mesmo hoje em dia, 80% dos jovens ainda preferem que seus pais escolham seus cônjuges, contra os 20% que o fazem por amor’.

Esta agência localizada no sul de Nova Dhéli – existem dezenas tanto físicas como na internet – conta, afirma Rekha, com 200 empregados e em 2011 atendeu cerca de dez mil famílias, entre as quais 40% encontrou um par para seus filhos.

A diretora explicou que os aspectos mais tradicionais levados em conta na hora de escolher um bom candidato, como serem da mesma casta, estão perdendo espaço para anseios mais mundanos como emprego, educação ou simplesmente que ‘a menina seja bonita’.

Outro fator fundamental é que os astrólogos prevejam a compatibilidade entre os dois possíveis noivos ao estudar a data e hora dos nascimentos.

Aishwarya, de 23 anos é filóloga e diz não acreditar nesses prognósticos, embora os leve em conta ao comparar as centenas de currículos que recebe das possíveis candidatas a se casar com seu irmão Rahul.

‘Um trabalho árduo’, brincou Aishwarya à Efe, em um café no centro da capital indiana, onde ressaltou que recebeu mais de 400 currículos por e-mail depois que sua família pôs um anúncio em um jornal durante três domingos alternados.

De acordo com a jovem, os requisitos de Rahul em relação às meninas dificultam sua tarefa, pois ele exige que ‘a primeira pergunta seja se gostam de esportes e, se a resposta for negativa, ele se recusa a continuar’.

Mas Rahul desfruta de uma posição privilegiada dentro da sociedade indiana e foi ele que preferiu um casamento arranjado ao invés de por amor, ao contrário de Aishwarya, que acredita ser fundamental conhecer e conviver com o outro, e revelou ter um namorado secreto.

‘Se eu me casar com este menino – de casta mais baixa – será como uma rebelião para a minha família’, alfinetou Aishwarya. EFE