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‘Faço por amor à música’, diz pianista que já tocou de graça até em asilos

Filho de refugiados romenos, o premiado Cristian Budu, 31 anos, criou um projeto para levar a música clássica para a casa das pessoas

Em 1981, a Romênia vivia sob a ditadura de Nicolae Ceausescu. Minha família — composta principalmente de professores universitários, intelectuais e engenheiros — era tida como perigosa. Um tio-avô meu foi incluído na lista de fuzilamentos porque havia externado suas críticas ao regime na frente de funcionários do governo. A vinda da minha família para o Brasil se deu mais por necessidade que por opção. Meus pais contaram com a ajuda da minha avó, uma princesa da dinastia Ghyka, que já tinha emigrado para o país e pediu a um embaixador uma carta oficial recomendando que eles viessem. Desembarcaram em Diadema, na Grande São Paulo, e trouxeram só livros na bagagem. Foi ali, numa casa que ainda estava sendo construída, que nasci e vivi até os 22 anos. A família dava tanta importância aos estudos que minha mãe fazia questão de atuar como voluntária nas escolas públicas nas quais eu estudei.

Eu queria ser jogador de futebol. Mas, como meu pai ganhou um piano, comecei a brincar nele: imitava os dedilhados paternos e até encontrava espaço para improvisação. E ainda tive sorte de deparar com uma professora lendária: Elsa Klebanowski, mestra do grande pianista alemão Wilhelm Kempff. Fiz bacharelado na USP e depois ganhei uma bolsa para fazer mestrado em Boston, nos Estados Unidos. Seis anos atrás, arrisquei-me no meu primeiro concurso internacional de piano: o Clara Haskil, na Suíça, que às vezes não concede o prêmio caso ache que os concorrentes não têm o nível exigido. Fui sem grandes expectativas. Muitos deram risada da minha petulância. Mas a despretensão me ajudou. Virei o primeiro brasileiro a ganhar o grande prêmio e faturei mais dois prêmios extras, incluindo o da votação do público. O curioso é que estava tão certo de que não iria ganhar que fui beber uma cerveja com um amigo suíço e perdi o anúncio dos finalistas! Mas me recuperei o suficiente para aprender em um dia o Concerto para Piano de Schumann, peça que não havia estudado porque achei que não teria a chance de executá-la para os juízes. Bem, foi a obra que me garantiu a vitória no Clara Haskil. Hoje, vivo entre viagens e concertos no mundo inteiro — neste ano farei minha estreia no Verbier Festival, talvez o evento mais importante do mundo erudito. O disco que gravei como resultado de ter vencido o Clara Haskil foi incluído na lista da revista Gramophone como uma das gravações mais antológicas das obras de Beethoven e Chopin, ao lado de mestres de piano como Martha Argerich.

A carreira internacional não me fez esquecer os ensinamentos dos meus pais em relação à educação. Por isso criei o Pianosofia (www.pianosofia.com), que tem como objetivo levar a música clássica para a casa das pessoas. A ideia é tirar esse ranço de ser uma música inacessível. Vamos até as residências que não têm piano — para isso, levamos um doado pela Sociedade Cultura Artística. Dentro do projeto, também já me apresentei em bar, asilo, lar para deficientes… Toco por amor à música, não pelo lucro: a iniciativa funciona à base de doações diretas, e o dinheiro arrecadado vai para os músicos. Quero incentivar o gosto pela música tocada em conjunto. A meu ver, é o melhor caminho para agregar as pessoas, respeitando suas diferenças, assim como notas musicais distintas podem se unir num mesmo acorde. Quanto à Romênia… Voltei à terra dos meus pais em 2007 e a achei muito semelhante ao Brasil. Quando os romenos vão para outro país, misturam-se com as culturas locais e se adaptam a todo tipo de dificuldade. Eles acharam engraçado eu usar palavras e gírias dos anos 70, pois foi o período em que meus pais viveram lá. Em 2021, pretendo retornar para fazer concertos.

Depoimento dado a Sérgio Martins

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647