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Fabrício Carpinejar: Seja no celular o que você é à luz do dia

O autor de 'Minha Esposa Tem a Senha do Meu Celular' diz que as pessoas têm de aprender a resguardar a intimidade (e a honestidade) na vida digital

Você diz, no seu livro, que celular não é “cofre de intimidade”. Por quê?  Ele é um aparelho de uso comum. É uma tranquilidade não ficar em pânico por uma mensagem ou um telefonema. Se você usa o smartphone para esconder informações do seu relacionamento, algo está errado. Conversas com amigos, memórias, encontros: nada disso está no meu celular.

Sergio Moro é a mais recente figura pública a se envolver em um escândalo porque confiou que suas conversas não vazariam. Devemos mudar a maneira de usar os aparelhos?  Você pensa que está em segredo no celular, escondido, protegido, inviolável, mas não é verdade. Escreva no celular aquilo de que não vai se arrepender depois. Seja no celular aquilo que você é à luz do dia.

Você costuma contar que escreveu os textos de seus últimos livros no celular, em trânsito. Não tem medo de ver seus livros roubados? Se isso acontecesse, seria a maior prova de evolução cultural no país. Hackear autores! Demonstraria um interesse por literatura inimaginável e futurista diante do atual descaso com a arte.

Há alguma coisa comprometedora no seu celular que você teme ver publicada? Não. Não tiro sarro com piadas preconceituosas. Não sei rir nem de vídeos em que as pessoas sofrem.

Em conversas privadas, existe o momento certo de interromper a comunicação por celular para falar ao vivo?  Se você está cometendo alguma trapaça, tanto faz se for ao vivo ou por escrito. A cultura da malandragem deve ser derrubada no país. Honestidade não deve ser uma exceção.

Políticos devem dar a senha do celular para a esposa? Seria perfeito. Celulares todos desbloqueados. Os políticos precisam entender que a função deles é como um sacerdócio. Estão representando os outros, não a si mesmos.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2019, edição nº 2640

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