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Espécie ameaçada

Em 'Godzilla II', ambientalismo raso e narcisismo levam à extinção o filme clássico de criatura, que assombrava a plateia com a ideia de sua insignificância

Visto pela primeira vez em um filme de 1954 dos estúdios Toho, o gigantesco lagarto mutante Godzilla brotou do trauma atômico japonês e imediatamente entrou para o vocabulário pop global: era um emblema eloquente de uma ordem natural pervertida pelas forças incontroláveis postas à solta pela arrogância humana. Godzilla II: Rei dos Monstros (Godzilla: King of the Monsters, Estados Unidos/Japão, 2019), já em cartaz no país, ilustra bem esse perigo — uma outra vertente dele. Nesta continuação do igualmente inane Godzilla de 2014, cientistas e militares se unem para libertar os “titãs” (o elenco de monstros da Toho) a fim de que façam uma faxina na Terra, superpovoada e ultrapoluída. Se eles destruírem na medida certa, raciocinam (maneira de dizer), o planeta será devolvido a um estado primal e poderá reviver. Erram de cara: dão passe livre ao invencível dragão de três cabeças Ghidorah, que não está nem aí para equilíbrio interespécies. Será Godzilla, o monstro do bem, capaz de derrotar esse monstro do mal? As facções contrárias e favoráveis aos titãs, então, unem-se para empurrar o lagarto para sua missão.

Godzilla II é péssimo e confuso, mas o que se lamenta é outra coisa — o assassinato do filme de criatura clássico, aquele que relembra a plateia de sua insignificância e a assombra com a beleza terrível de algo muito maior do que ela. Da visão ignorante da natureza à ênfase nos dramas banais dos personagens, e da fotografia escura que esconde as criaturas à empáfia com que atribui ou não utilidade a elas, Godzilla II serve como constatação de que até a soberba humana é hoje mais mixa do que no passado: a única coisa que causa espanto, aqui, é o narcisismo de uma geração que acha que não há nada, no mundo, que não possa estar a seu serviço.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2019, edição nº 2637

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