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Escondida na paisagem

A 'Espiã Vermelha' romantiza a história de Melita Norwood, agente dupla que por quase 40 anos trabalhou para os russos e passou despercebida por ser mulher

Em 1999, aos 87 anos, a inglesa Melita Norwood admitiu à tropa de repórteres concentrada em seu jardim no subúrbio de Londres que por quase quatro décadas, desde antes da II Guerra Mundial até 1972, trabalhara para a KGB, o serviço secreto soviético, ao qual passara todos e quaisquer segredos nucleares com os quais tivera contato. Melita foi desmascarada por acaso. Morreu aos 93 anos sem nunca abandonar suas convicções políticas (tomava chá em uma caneca estampada com o retrato de Che Guevara) e tampouco ser presa por traição; sua idade avançada desanimou as autoridades britânicas de buscar punições enérgicas — e fez da ex-estudante de física recrutada na Universidade de Cambridge uma figura folclórica. A Inteligência britânica permaneceu vaga a respeito do calibre das informações que a “vovó espiã” teria fornecido à União Soviética. Há quem especule que ela acelerou a corrida comunista pela bomba atômica; outros duvidam que tenha tido acesso a dados de real relevância. Mas ficou claro que as motivações de Melita foram sempre ideológicas, e que ela prosseguiu na dupla espionagem mesmo depois que a União Soviética se tornou uma potência nuclear. Entretanto, em A Espiã Vermelha (Red Joan, Inglaterra, 2018; já em cartaz no país), esses fatos cruciais são alterados — ou, melhor dizendo, atenuados: ao mesmo tempo em que cresce o interesse pelo papel feminino no fervilhante mundo da espionagem na II Guerra, ficções como esta dirigida pelo bem-comportado Trevor Nunn vão tratando de romantizar essa participação, dando a ela um quê de nobreza ou atribuindo-a à ingenuidade.

Interpretada por Judi Dench na velhice e por Sophie Cookson na juventude, Melita é ficcionalizada com o nome de Joan e aparece como uma jovem que se enamora primeiro de um comunista e depois, por meio dele, também dos ideais igualitários que ele prega. O romance naufraga, mas o idealismo permanece — e, ao receber a oferta de trabalhar como secretária de um pesquisador em um projeto sigiloso do governo inglês, Joan vê a chance de passar à prática. À medida que as tensões da II Guerra se intensificam, cresce sua certeza de que só a garantia da destruição mútua pode impedir um novo conflito global; cumprida a missão, e já desiludida com a tirania de Stalin, ela se retira de cena. Pura invenção: aposentadorias voluntárias eram inexistentes nesse meio, dada a dificuldade de assegurar o silêncio do aposentado — e a biografia de todos os espiões, duplos ou não, cuja identidade foi revelada coincide no relato de que logo qualquer idealismo era aniquilado pela natureza intrinsecamente desagradável do ofício.

DESCARTÁVEIS –  As adversárias da série Traidores: em um mundo masculino

DESCARTÁVEIS –  As adversárias da série Traidores: em um mundo masculino (//Divulgação)

Nesse sentido, a série inglesa Traidores, disponível na Netflix, é um bocado mais fiel: recrutada pela OSS (que daria origem à CIA) para espionar seus compatriotas de inclinações à esquerda na Inglaterra insatisfeita e dividida do pós-guerra, uma jovem de classe alta (Emma Appleton) se infiltra no serviço público, em uma posição subalterna mas próxima do gabinete do primeiro-ministro. Tudo o que ela quer é espantar o tédio. Mas enreda-se numa trama da qual não há mais escapatória, e na qual todos os lados se vão revelando igualmente odiosos e inescrupulosos. Para ela e para seu alvo, uma funcionária pública solitária e de meia-idade vivida pela ótima Keeley Hawes (de Segurança em Jogo), há ainda uma agravante — a maneira como as atitudes sexuais da época jogam contra elas e fazem delas peças facilmente descartáveis.

Nesse sentido, A Espiã Vermelha corresponde à realidade: se Melita Norwood demorou tanto a ser descoberta, foi em boa parte por ser mulher e, graças ao preconceito e ao menosprezo, perder-se na paisagem. Enquanto agentes duplos como Kim Philby ganharam notoriedade (e tiveram de fugir para Moscou), Melita pôde deixar-se cair no esquecimento, cultivando seu jardim e cuidando da família, até não passar de assunto para tabloides.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2019, edição nº 2635

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