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Em São Paulo, Iron Maiden prova que o rock não morreu

Banda britânica lotou o estádio do Palmeiras e animou legião de fãs com músicas do novo disco e hits do passado

A afirmação de que o rock está com os dias contados virou uma espécie de clichê no mundo musical. Muitos músicos, inclusive do próprio gênero, como Gene Simmons, do Kiss, já o declararam como morto. Se nas paradas e revelações musicais recentes o pop e o rap, por exemplo, têm tido maior destaque e visibilidade, neste sábado, no Allianz Parque, na Zona Oeste da capital paulista, o Iron Maiden, uma das maiores bandas de heavy metal da história, provou que um dos mais influentes estilos musicais ainda continua bem vivo. Com a ajuda de mais de 40.000 fãs, que lotaram o estádio, o grupo comandou um show explosivo e recheado de solos de guitarra, efeitos grandiosos e um rock pesado que saia das caixas de som em alto e bom som.

Os britânicos subiram ao palco para fazer o quinto e último show brasileiro da turnê mundial The Book of Souls, que divulga o disco de mesmo nome, lançado no ano passado – eles tocaram na última semana no Rio, Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza. Antes deles, o The Raven Age, banda de George Harris, filho do baixista Steve Harris – do Iron -, e os também veteranos do metal, Anthrax, esquentaram o público, que esperava pelos donos da festa. Após um vídeo divertido em que mostrava o famoso avião da banda, pilotado pelo vocalista Bruce Dickinson, caindo em uma selva, o show começou com uma dupla de canções do último álbum da banda: If Eternity Should Fail, não muito conhecida pelos presentes, e Speed of Light, single que ganhou uma recepção mais calorosa.

Após a dobradinha de novas, Dickinson se diz triste por este ser o último show da turnê dos britânicos no Brasil, mas garante: “Guardamos o melhor para o final”. É então que o Iron Maiden toca o primeiro clássico da noite: Children of the Damned, do disco The Number of the Beast, que completou 34 anos de lançamento na última terça-feira. A faixa, tocada ao vivo, evidencia ainda mais a incrível potência vocal de Dickinson, recém recuperado de um câncer na língua. O vocalista inclusive é incansável, correndo por todo o cenário – decorado como uma ruína maia -, que conta com uma grande plataforma elevada atrás da bateria, pulando e cantando sempre de maneira performática enquanto distribui gritos de “Scream for me, São Paulo” (Grite para mim, São Paulo), de tempos em tempos. Após a canção, outras duas do disco novo deixam o clima da apresentação mais morno: Tears of a Clown, composta em homenagem ao ator Robin Williams, que se suicidou em agosto de 2014, e The Red and the Black.

Após o público ficar mais distantes nas duas novas vem o primeiro grande momento da noite. A banda causa uma catarse no local quando Dickinson surge no alto da plataforma vestido de soldado e empunhando uma bandeira do Reino Unido enquanto os cinco outros membros iniciam um dos grandes hits da banda: The Trooper, que tem seu refrão cantado em coro pelos fãs. Logo em seguida outro sucesso anima o público: Powerslave, que conta com o vocalista mascarado. Depois dos dois hits, novamente uma do novo trabalho: Death or Glory.

Além dos seis membros da banda, os fãs do Iron Maiden ainda têm um carinho especial pelo mascote do grupo, Eddie, uma caveira com cara de mau que sempre estampa os produtos e capas de discos dos britânicos. No meio de The Book of Souls, música que nomeia o mais recente álbum e a turnê, um boneco do monstro surge, caracterizado como na arte do último CD, para interagir com os membros da banda, enquanto eles abusam dos solos para fazer uma versão estendida da canção. Enquanto isso, Dickinson arranca o coração do peito da criatura antes de simular uma oferenda aos deuses com o órgão e espremer o sangue na cabeça do guitarrista Janick Gers.

Após toda a teatralidade do momento, a banda finalmente se encaminha para a parte final do concerto, quando os veteranos do heavy metal enfileiram hits de sua extensa carreira e o show segue para seu ápice. O primeiro é Hallowed Be Thy Name, uma tétrica canção sobre um homem que aguarda, sentado em uma cela, sua execução na forca – Dickinson inclusive canta o ato com uma corda sobre os ombros. Depois vem o hit que é o carro chefe dos britânicos: Fear of the Dark, que conta com os três guitarristas abusando das habilidades no instrumento e o público acompanhando a letra na ponta da língua. Para fechar a parte anterior ao bis, eles cantam a explosiva Iron Maiden e se retiram de cena, mas por pouco tempo.

Na volta, outra das mais icônicas do grupo: The Number of the Beast, que já causou controversa por conta das citações ao demônio em sua letra, o que por muito tempo fez com que a banda fosse rotulada como satanista. A imagem de Lucífer, inclusive, aparece no fundo do cenário, acompanhada de labaredas de fogo. A música, que tem a uma das melhores recepções de todo o espetáculo dá espaço para Blood Brothers, mais melódica e que faz com que os fãs troquem os pulos e as rodas de bate-cabeça por um mar de mãos, que batem palmas sincronizadas ao comando de Dickinson.

A escolhida para fechar a apresentação é a animada Wasted Years, mais uma que conta com o público afiado na letra. É então que uma das maiores bandas de metal do planeta reforça que o rock ainda vive. Com seus três competentes guitarristas, um baixista que é considerado um dos mais inovadores do estilo, um baterista sólido e um vocalista carismático e de voz poderosa, o Iron Maiden mostra que o gênero ainda tem força e, mais que isso, as 40.000 pessoas que esgotaram os ingressos e acompanharam com paixão os ídolos assinam embaixo: ainda há espaço para o rock no Brasil e no mundo. A banda agora dá adeus à América Latina e segue para Nova York, onde se apresentam na quarta-feira.