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Em ‘Pancadão das Marchinhas’, funk é o novo samba

Com funkeiros famosos, como Anitta, Naldo e Mr. Catra, disco atualiza as clássicas canções de Carnaval para público jovem

Por Rafael Costa - 2 mar 2014, 16h21
Valesca Popozuda causa tumulto em casa de show na Zona Sul do Rio de janeiro, na madrugada desta quarta-feira (08)
Valesca Popozuda causa tumulto em casa de show na Zona Sul do Rio de janeiro, na madrugada desta quarta-feira (08) VEJA

Foi-se a época em que o Carnaval era marcado apenas pelos ritmos das famosas marchinhas, ou do samba enredo e de raiz. Os tempos mudaram, assim como o público que busca se divertir na festa mais celebrada pelos brasileiros. Este ano, clássicos que fazem parte da cultura nacional desde o início do século passado, como Ô Abre Alas, Cabeleira do Zezé e A Jardineira, foram repaginados por um estilo mais popular para os dias de hoje: o funk.

Capa do disco 'Pancadão das Marchinhas'
Capa do disco ‘Pancadão das Marchinhas’ VEJA

A novidade está no disco Pancadão das Marchinhas, lançado este mês pela Som Livre. As faixas apresentam regravações de algumas das principais marchinhas de Carnaval nas vozes de funkeiros como Anitta, que fez uma adaptação da canção Chiquita Bacana; Naldo Benny, responsável por O Teu Cabelo Não Nega e Me Dá um Dinheiro Aí; e Valesca Popozuda, que deixou o Beijinho no Ombro de lado para doar a voz nas faixas Mamãe eu Quero e Maria Sapatão. “Na época de Carnaval sempre tocam essas mesmas músicas, nas versões de 1930, 1940. Então veio um estalo de fazer isso com a galera do funk cantando”, explica o DJ Dennis, um dos produtores do CD e responsável pela mixagem.

A adaptação ousada pode até incomodar os mais saudosistas, mas não Manoel Ferreira, um dos poucos compositores remanescentes da época, responsável, ao lado de sua esposa Ruth Ferreira, por músicas como Muito-Bem Como Vai, Transplante Corintiano e A Pipa do Vovô, essa última regravada para o álbum na voz de Mr. Catra. “Acho muito boa a iniciativa. Toda forma de expressão e adaptação musical é válida, seja no samba, no funk, no axé”, diz Ferreira que, apesar de não ter ouvido as novas versões, não vê nenhum desrespeito quando outro artista altera a canção original.

Para o funkeiro MC Koringa, que regravou a faixa Mulata Yê Yê Yê, a ideia do CD é justamente imortalizar essas canções e apresentá-las para a nova geração. “A galera que não conhecia essas marchinhas, agora pode conhecer. Sem falar da importância histórica dessas músicas que marcaram uma época”, afirma. Responsável pela releitura do medley Pot-Pourri / Cachaça / Allah-La-Ô, MC Sapão, por sua vez, se diz orgulhoso em fazer parte do projeto. “É um clássico que gerações e gerações curtiram e ouviram. Quando eu morrer, vou ser lembrado como o cara do funk que cantou aquela marchinha”, afirma o cantor.

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‘Mulata Yê Yê Yê’ – MC Koringa

Composta por João Roberto Kelly, em 1965, Mulata Yê Yê Yê, ou Mulata Bossa-Nova, ganhou muitas versões feitas por torcidas de futebol no país, que adaptaram a melodia com gritos de guerra para seus respectivos times. A música foi regravada por MC Koringa, autor do hit Dança Sensual, que fez parte da trilha sonora da novela Salve Jorge, da TV Globo.

‘A Pipa do Vovô’ – Mr. Catra

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Repleta de duplo sentido, A Pipa do Vovô é de autoria do casal Manoel Ferreira e Ruth Amaral. A canção, no entanto, ficou conhecida na voz do apresentador Silvio Santos na década de 1980. A regravação ficou por conta de Mr. Catra, autor de sucessos como Adultério e Uh Papai Chegou.

‘Me Dá um Dinheiro Aí’ – Naldo Benny

Glauco, Homero e Ivan Ferreira são os responsáveis pela marchinha Me Dá um Dinheiro Aí, de 1959, mesmo ano em que foi gravada e imortalizada por Moacyr Franco. A música foi regravada por Naldo Benny, autor de sucessos como Amor de Chocolate e Exagerado.

‘Mamãe Eu Quero’ – Valesca Popozuda

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Composta por Jararaca e Vicente Paiva, em 1937, Mamãe Eu Quero ficou conhecida na voz de Carmen Miranda em 1941. Em 2014, quem assume os vocais é a autora do hit Beijinho no Ombro, Valesca Popozuda.

‘Chiquita Bacana’ – Anitta

Chiquita Bacana foi composta em 1948 por Alberto Ribeiro e João de Barro, também conhecido apenas como Braguinha. A canção ganhou uma nova cara na voz da cantora Anitta, que estourou em 2013 com a música Show das Poderosas.

‘Pot-Pourri’ / ‘Cachaça’ / ‘Allah-La-Ô’ ? MC Sapão

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Autor dos hits Tô Tranquilão e Classe A, o funkeiro MC Sapão fez um medley entre as canções Allah-La-Ô, compostas por Haroldo Lobo e Nássara, e Pot-Pourri e Cachaça, ambas de autoria de Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro e Marinosio Filho. 

Semelhanças – Apesar da distância temporal e de estilo, as marchinhas podem ser comparadas ao funk na questão de popularidade entre o público. Para MC Koringa, representante da vertente do chamado funk melody, estilo que estourou nas vozes de Claudinho e Buchecha na década de 1990, os dois gêneros possuem a virtude de atingir públicos de diferentes idades e classes sociais. “O funk que o Buchecha, o Naldo e eu fazemos, por exemplo, consegue atingir todas as faixas etárias, assim como elas (marchinhas) faziam há décadas atrás, então os dois estilos fazem parte de universos bem semelhantes”, conta.

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Para o professor de música popular da Unicamp José Roberto Zan, no entanto, a diferença de popularidade do funk e das marchinhas está não em sua qualidade musical, mas nas formas atuais de divulgação, principalmente por causa do avanço da internet e das redes sociais. Tais artifícios dão uma certa vantagem ao funk em relação à difusão para diferentes públicos, já que a execução das marchinhas se limitava apenas às rádios na época.

Contudo, um aspecto específico deixa os dois estilos lado a lado: a malícia. “Como o funk trabalha muito com o duplo sentido, há uma certa compatibilidade com as marchinhas, mesmo elas fazendo referências à sexualidade de uma maneira mais velada e cuidadosa, em função até das expectativas do público ao qual ela estava voltada na época”, diz Zan.

Enquanto isso, os sambistas não precisam se preocupar com a chegada dos funkeiros à trilha sonora do Carnaval. A multiplicidade de cultura e as diversas identidades regionais do Brasil, fazem com que haja espaço para todo mundo. “O que caracteriza o Brasil não é o fato de termos uma cultura única, homogênea, mas sim de comportarmos variadas identidades culturais”, diz o professor. Sendo assim, neste Carnaval, o funk e o samba devem andar de mãos dadas nos bailes de salão e blocos de rua ao redor do país. Queira o samba, ou não.

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