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Em crise, Broadway aposta em Hollywood

Ter grandes estrelas é garantia de atrair público, mas não de auferir grandes lucros

Quinze anos atrás, a Broadway, rua nova-iorquina que é o coração do teatro americano, vivia uma situação tão difícil que um grupo de produtores veteranos se reuniu para procurar ajuda na Bain & Co. – consultoria mais conhecida hoje por suas ligações com o republicano Mitt Romney, o provável rival de Obama nas próximas eleições presidenciais americanas. A empresa elaborou então um triste relatório, em que se lia que o custo de produção de um show havia aumentado 400% em trinta anos, ao passo que o preço das entradas caíra 80%. E avisou aos produtores que, se não cortassem seus gastos, teriam de fechar de cinco a dez teatros na rua.

O prognóstico, felizmente, se mostrou errado: na temporada de 2010- 2011, a Broadway faturou mais de 1 bilhão de dólares, com 14 musicais, 25 peças e três programações especiais. Felizmente, porque os produtores ignoraram por completo o plano sugerido pela Bain & Co. e, em vez de enxugar, aumentaram os custos, desembolsando altos cachês para ter estrelas de Hollywood nos palcos.

Exatamente o que voltou a acontecer agora, em um novo momento de crise econômica. Basta olhar para a última lista de indicados ao Tony, o maior prêmio da classe teatral nos Estados Unidos. A disputa pelo troféu de melhor ator inclui nomes como John Lithgow (que atuou em Planeta dos Macacos: A Origem) e Philip Seymour Hoffman (presente em O Homem Que Mudou o Jogo).

Contratar estrelas hollywoodianas requer um investimento considerável. O cachê de um ator badalado varia de 25.000 a 75.000 dólares por semana, de acordo com matéria da revista americana The Hollywood Reporter. Mas recentemente nomes como Hugh Jackman e Daniel Craig, que estrelaram juntos a peça A Steady Rain (Um Temporal, em tradução livre), e Daniel Radcliffe, de How to Succeed in Business Without Really Trying (Como se Dar Bem Nos Negócios Sem de Fato Tentar, tradução direta) chegaram a receber 100.000 dólares por semana.

Por isso, ao apostar em astros de Hollywood os produtores, se por um lado garantem a sobrevivência da Broadway, por outro diminuem os próprios lucros. O custo de produção de um espetáculo na rua nova-iorquina fica entre 2 e 3 milhões de dólares. Do total, cerca de 750.000 dólares vão para a publicidade. Outra boa quantia é usada para pagar aluguel, segurança, benefícios trabalhistas e a tecnologia necessária. Uma grande estrela pode atrair público suficiente para ao menos empatar esses gastos. Mas pode não ficar o tempo necessário para gerar os lucros que os produtores gostariam de ter: estrelas, em geral, têm outros compromissos, na TV ou no cinema, agendados.

“A maior dificuldade dessa estratégia de convocar estrelas é fazer o espetáculo continuar interessante para o público depois que a estrela se vai”, reconheceu à The Hollywood Reporter o advogado Seth Gelblum, um dos maiores negociadores da Broadway.

Ainda assim, muitos produtores veteranos estão aderindo com gosto à escalação de astros hollywoodianos. É o caso de Scott Rudin, que pôs Denzel Washington no espetáculo Salesman, Fences (Vendedor, Cercas, em tradução direta) e Ben Stiller em The House of Blue Leaves (A Casa do Blues). Enquanto a crise econômica não passar, Hollywood deve mesmo fazer escala na Broadway.