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‘Ele renunciou a tudo para escrever’, diz irmão de Ubaldo

Amigos e familiares se despediram do escritor, que morreu nesta sexta-feira vítima de embolia pulmonar. O enterro está marcado para as 9h de sábado

“Vocês conhecem a obra literária, mas eu lembro dele iniciando, como contista, depois jornalista. Ele sempre dizia: ‘Vou viver da pena’ – era como se referia a caneta. E conseguiu”, contou o irmão Manoel Ribeiro Filho.

“Saudade do João” era a frase que mais se ouvia na tarde desta sexta-feira na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Centro do Rio. No Salão dos Poetas Românticos, amigos e familiares velavam o corpo do escritor João Ubaldo Ribeiro, que morreu na madrugada, aos 73 anos, vítima de uma embolia pulmonar. Todos se mostravam em choque. “Tão novo”, comentavam os colegas imortais, boa parte com mais idade do que o romancista.

Entre as coroas de flores, a última homenagem do Museu da Imagem e do Som e da própria ABL dividia espaço com as lembranças de amigos da escola de samba Império da Tijuca e do Boteco Belmonte, bar que ele frequentava perto de casa no Leblon. “Ele estava sempre lá. Eu gostava de passar em frente com meu filho, os dois faziam a festa. Pelo menos ele curtiu ser avô um pouco, e sempre foi um paizão”, contou Bento Ribeiro, filho de João Ubaldo e pai de um menino de cinco meses.

O ator quase não saiu de perto da mãe, Berenice, e das irmãs, Francisca (que morava com os pais) e Emília (vive em Salvador). Para ficar completa, a família aguarda a chegada de Manuela, que estava na Alemanha e tem voo previsto para chegar às 5 horas deste sábado. O velório será reaberto às 8 horas, e às 9 horas deve acontecer o enterro no mausoléu da ABL, no cemitério São João Batista. “Só posso dizer que meu coração está despedaçado”, foram as únicas palavras que Berenice conseguiu dirigir aos jornalistas.

O irmão Manoel Ribeiro Filho, nove anos mais novo, falou do tempo de juventude e das brigas constantes que João Ubaldo tinha com o pai, que queria que ele fosse advogado ou funcionário público. “Vocês conhecem a obra literária, mas eu lembro dele iniciando, como contista, depois jornalista. Ele sempre dizia: ‘Vou viver da pena’ – era como se referia a caneta. E conseguiu. Renunciou a tudo o que tinha, e foi escrever começando do nada. A persistência dele foi espetacular”, orgulha-se.

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Academia – Entre os colegas de ABL, o sentimento era de perda insubstituível. “O legado que fica para cada um de nós é a memória, mas para o povo brasileiro é a obra dele. A biografia é formidável, mas é a obra que diz por que você está aqui”, comentou Nélida Piñon. Também imortal, Marcos Vilaça lembrou as conversas que tinha com o amigo sobre futebol, e agradeceu ter tido a oportunidade de compartilhar com ele a Copa do Mundo no Brasil. “Ele era só agrado. Com aquela voz pré-amplificada de cantor de ópera, animava qualquer conversa. Um homem que aproveitou o circo do povo brasileiro e ali tirou os momentos para construir uma obra literária extraordinária”, elogiou.

A característica “voz de locutor” também foi lembrada por Zuenir Ventura, o mais cotado para ocupar a cadeira número 34 que Ubaldo deixa vaga. “Você não ficava cinco minutos perto dele sem rir. Ele chegava em uma roda e não tinha para mais ninguém. A obra dele é imortal, mas a presença física, de amigo, é uma lacuna que não dá para preencher.” O bom humor de Ubaldo é igualmente inesquecível para Arnaldo Niskier. “A última pessoa que poderia se imaginar que chegasse ao fim da vida aqui (na ABL) é o João Ubaldo, que demonstrava uma imensa alegria de viver em todos os momentos”, observou.

“Quando soube da notícia, fiquei com muita raiva da vida, dessa injustiça da morte a que todos nós estamos submetidos”, lamentou o cineasta Domingos de Oliveira, que dirigiu no teatro a elogiadíssima montagem de A Casa dos Budas Ditosos, estrelada por Fernanda Torres – que também compareceu ao velório, muito emocionada. Para ela, o Brasil perde um gênio, e ela, um conselheiro da vida. “Eu sempre recorria a João Ubaldo quando tinha alguma dúvida. Nenhuma opinião ou piada dele era desprovida de inteligência. Ele representou o melhor que um brasileiro pode alcançar.”

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