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Documentário expõe os fantasmas e excessos de Kurt Cobain

Sem glorificar o roqueiro, ‘Montage of Heck’, produzido pela filha do cantor, aborda controvérsias como o vício em heroína e a relação conflituosa com a esposa. Por outro lado, se esforça em humanizar o roqueiro líder do Nirvana

Por Daniel Dieb - 18 jun 2015, 11h03

O gosto do casal Kurt Cobain e Courtney Love pela heroína era grande. Tamanho o vício e a falta de pudor em assumi-lo que a cantora afirma que seu marido realmente aspirava pelo título de “junkie”, gíria em inglês usada para quem usa muita droga. A fala de Courtney é parte de um dos muitos depoimentos dados por ela ao documentário Kurt Cobain: Montage of Heck, que chega ao Brasil nesta quinta-feira, em exibições limitadas. Para comprovar o envolvimento com a substância, uma das cenas, talvez a mais aflitiva, mostra o casal visivelmente chapado com a filha Frances Bean Cobain. Ainda bebê, a garota é segurada pelo pai enquanto a mãe usa uma tesoura para cortar seu ralo cabelo.

O vídeo é uma das várias gravações caseiras cedidas por Frances, hoje com 22 anos, ao diretor Brett Morgen. Apesar de autorizado pela família de Cobain, o longa não esconde os problemas do vocalista do Nirvana. Indicado ao Oscar de melhor documentário em 1999 por On the Ropes, Morgen alterna as cenas do passado com efeitos de animação e depoimentos de pessoas próximas, para contar passagens da vida do cantor. Um dos fatos curiosos, por exemplo, é quando ele perde a virgindade com uma garota obesa com problemas mentais. O caso se espalhou entre os colegas de escola, que passaram a fazer brincadeiras humilhantes com o roqueiro. Krist Novoselic, baixista do Nirvana, enfatiza: “Kurt odiava ser humilhado. Ele realmente odiava. Se isso acontecia, dava para ver a raiva nele”. O ocorrido o deixou tão triste, que o levou a sua primeira tentativa de suicídio – Cobain se matou em 5 de abril de 1994, em Seattle.

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Nos vídeos de família, que mostram o cantor na infância, vê-se um Cobain alegre e extremamente agitado. Isso antes da separação dos pais, quando ele tinha sete anos. A partir daí, o futuro músico passou a causar problemas e cometer atos de vandalismo na pacata e entediante Aberdeen, cidade do estado de Washington, Estados Unidos, de apenas 16.000 habitantes, onde ele nasceu. Durante a adolescência, Cobain se tornou persona non-grata em sua própria família, e passou anos de casa em casa de parentes, sem se estabelecer em lugar algum.

Além das gravações antigas, outro recurso usado pelo diretor é a inserção de anotações e desenhos feitos pelo protagonista em seus cadernos pessoais. As imagens se mostram mais reveladoras da personalidade e dos fantasmas do cantor do que quando ele realmente abre a boca para falar sobre si. Aliás, Cobain nem costumava ser prolixo em frente às câmeras de televisão, mas se tornava alguém relaxado e extrovertido quando quem filmava era a família. Nas cenas caseiras é possível ver um Cobain espirituoso, que faz imitações de Bob Dylan, tira sarro de Axl Rose, do Guns n’ Roses, e até recria diálogos de desenhos animados do quais era fã.

O caderno com anotações diárias e ilustrações era um hábito que Cobain alimentava desde criança e é uma instigante viagem por dentro da mente criativa e confusa do cantor. Ali aparecem possíveis nomes para a banda antes de chamá-la de Nirvana – Abort Christ (Aborte Cristo, em português) foi um dos cogitados -, letras de composições, lembrete do que tinha que fazer e até declaração de amor à Courtney: “Eu me faria miserável para fazê-la feliz”.

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A produção só perde a mão na tentativa exagerada de humanizar o cantor. Especialmente em momentos melodramáticos retratados nas animações que completam lacunas sobre sua vida. Outro exagero está na trilha sonora, obviamente composta de músicas do Nirvana, mas com algumas versões distintas das originais, como o cover de Smells Like Teen Spirit, feito pelo coral feminino belga Scala and Kolacny Brothers, que dá um tom obscuro e depressivo à canção.

Mesmo se tratando de um ícone da música, Kurt Cobain: Montage of Heck poderá ser visto por poucas pessoas no cinema no Brasil. Somente algumas cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Salvador recebem a produção. As sessões começam nesta quinta-feira, 18 de junho e seguem até terça, dia 23.

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