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Do gueto ao palco

Documentários sobre o americano Quincy Jones e o jamaicano Bob Marley retratam duas histórias bem diversas de ascensão social pela música

Quincy Jones mostra ao rapper Doctor Dre as marcas que guardou de sua juventude delinquente: uma cicatriz na mão, causada por um golpe de canivete, e outra no rosto, resultado de um ataque com um picador de gelo. “Eu queria ser um marginal, porque você deseja ser o que você vê”, diz o maestro e produtor no documentário Quincy, da Netflix. Criado em uma vizinhança barra-pesada de Chicago nas décadas de 30 e 40, Jones, hoje com 85 anos, encontrou a salvação no piano que começou a dedilhar na escola. Essa biografia tão exemplar do “sonho americano” de ascensão social guarda semelhanças com a do astro jamaicano Bob Marley, que morreu de câncer, em maio de 1981, aos 36 anos. Criado na favela de Trenchtown, em Kingston, ele esteve a poucas tranças de distância da marginalidade, mas redimiu-se pelo reggae. Em Who Shot the Sheriff?, também disponível na Netflix, o tema é o atentado sofrido pelo músico em 3 de dezembro de 1976, às vésperas de um showmício em apoio a Michael Manley, candidato de esquerda na eleição presidencial daquele ano. Os dramas sociais da Jamaica entram com força nesse episódio.

Dirigido por Rashida Jones, filha do personagem principal, e Alan Hicks, Quincy recupera imagens de uma visita que o artista fez, nos anos 80, à casa onde cresceu. Ele chora ao lembrar a infância difícil. Sua mãe, esquizofrênica, foi afastada do convívio dos filhos quando Quincy Jones tinha 7 anos, mas reaparecia, em circunstâncias traumáticas, já na vida adulta do músico. Certa vez, tentou invadir o clube de jazz em que o filho se apresentava para anunciar que todos ali estavam condenados à danação eterna por ouvir música profana. “Saber de onde você vem o ajuda a ir para onde você quer”, diz o maestro. E ele foi longe, em uma das carreiras musicais mais abrangentes nos Estados Unidos do século passado, com passagens por jazz, soul, funk e hip-hop. Esteve sempre próximo dos gigantes: trabalhou com Frank Sinatra nos anos 60 — o anel que ele ainda hoje ostenta no mindinho direito foi presente do grande crooner — e produziu o disco mais vendido da história da indústria musical, Thriller, de Michael Jackson, lançado em 1982.

CARREIRA ABRANGENTE – Quincy Jones (à dir.) e o amigo Frank Sinatra, nos anos 60: o maestro e produtor favorito dos astros

CARREIRA ABRANGENTE – Quincy Jones (à dir.) e o amigo Frank Sinatra, nos anos 60: o maestro e produtor favorito dos astros (Frank Sinatra Enterprises/Netflix)

Who Shot the Sheriff? faz parte de ReMastered, série da Netflix dedicada a crimes no mundo da música (o próximo episódio tratará do assassinato do rapper Jam Master Jay, do Run-DMC). O centro da narrativa, portanto, está na tentativa de assassinato de 1976, o que permite vislumbrar a vida bandida de que Marley esteve próximo. O ataque ao astro foi um dos picos da escalada de violência que grassou na Jamaica nos anos 70 — violência que se imiscuía na política: a disputa entre Michael Manley, o candidato apoiado por Marley, e seu adversário de direita, Edward Seaga, tinha características de guerra territorial. O documentário tenta sustentar a tese não muito confiável de que os dois tiros que Marley levou foram encomendados pela CIA — naqueles anos de Guerra Fria, temia-se que a Jamaica se aliasse a Cuba, cujo regime comunista tinha a simpatia de Manley (Seaga, de seu lado, alinhava-­se aos Estados Unidos e foi até apelidado de CIA-ga). Mas outras motivações possíveis são aventadas com honestidade pelo programa da Netflix. Pode ter sido uma retaliação por dívidas de jogo — não do próprio Marley, mas de um amigo de infância, o jogador de futebol Alan “Skill” Cole, que se envolveu em apostas fraudulentas geridas pelas gangues de Kingston. Marley teria se recusado a saldar a dívida do “parça”, o que poderia ter irritado os bandidos.

Depois do atentado, Bob Marley exilou-se em Londres. No ano seguinte, lançou Exodus, seu disco mais internacional, que combinou o reggae a elementos da música disco que então fervilhava nas pistas de dança. O cantor em seguida partiu para uma turnê europeia, como embaixador do reggae e divulgador do rastafarianismo, a peculiar corrente mística que considerava o ditador etíope Hailé Selassié uma divindade sobre a Terra.

O sucesso que os dois filhos negros do gueto alcançaram pela música não cabe no clichê da “superação”. Há diferenças marcantes entre o americano e o jamaicano. Jones não se envolveu tanto em política, mas, a seu modo, foi mais político do que Marley. Sempre soube buscar apoio para suas iniciativas em prol da cultura negra americana. Os últimos momentos de Quincy mostram a inauguração, há dois anos, do Museu Nacional de História e Cultura Afro­-Americana, em Washington, cerimônia pela qual o maestro foi responsável. Lá está ele recebendo de figurões hollywoodianos como Tom Hanks a nomes da política como o general Colin Powell. Bob Marley foi de uma ingenuidade folclórica em seus esforços pela paz. Dois anos depois de ter sido baleado, voltou à sua Jamaica natal para um concerto que celebraria a conciliação entre Manley e Seaga. Os dois inimigos deram-se as mãos sobre o palco. Puro jogo de cena: no mês seguinte, a violência aumentou. Organizadores do concerto que tinham conexões com o crime foram assassinados. Mais tarde, descobriu-se até que havia armas escondidas dentro das caixas de som do show.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2018, edição nº 2612