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‘Divertida Mente’, a nova e deliciosa aventura da Pixar

Em entrevista ao site de VEJA, diretor da animação garante que escrever a história protagonizada pelas emoções de uma garota de 11 anos foi a parte mais complicada do filme

Quando a filha do cineasta Pete Docter completou 11 anos, sua personalidade e atitudes mudaram (oi, pré-adolescência!). Foi do incômodo que ele sentiu com a transformação da herdeira que nasceu a ideia central de Divertida Mente, novo filme da Pixar, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, após um jejum de três anos sem lançamentos. Docter, que tem em seu currículo produções aclamadas como Toy Story, Monstros S.A., Wall-E e Up: Altas Aventuras, pelo qual levou o Oscar de melhor animação em 2010, garante, apesar da experiência, que foi difícil chegar ao resultado final de sua nova obra. “O filme levou cinco anos para ficar pronto, sendo que três foram dedicados só ao roteiro”, conta ao site de VEJA sobre o processo de pesquisa do funcionamento de uma mente, além da interação entre as duas tramas centrais.

A história acompanha a vida de Riley, uma pré-adolescente que vê sua rotina ser transformada ao mudar de cidade com a família. As novidades do novo mundo e o passado deixado para trás são fontes de dramas e conflitos para a garota, que tenta se adaptar à nova situação. Ao mesmo tempo em que o dia a dia de Riley é exibido, o filme se divide em mostrar a central de controle de sua mente, comandada pela Alegria, que tenta centralizar em si todas as experiências da garota, sem deixar muito espaço para os demais sentimentos: Medo, Tristeza, Nojinho e Raiva.

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Após uma discussão com Tristeza, Alegria e a companheira melancólica se perdem na mente da menina, deixando o controle totalmente nas mãos dos três outros sentimentos. Conforme Alegria e Tristeza andam pela cabeça de Riley, elas descobrem setores como a fábrica de produção de sonhos, o armazenamento de memórias de curto e longo prazo, o mundo da imaginação, entre outros espaços aparentemente difíceis de serem tratados em um filme próprio para crianças. Porém, quem desenvolveu a animação foi a Pixar, estúdio que tem poucos erros em seu currículo e domina a arte de aliar elementos que agradam tanto ao público adulto quanto o infantil. O resultado é uma aventura divertida, instigante, inteligente e deliciosa.

Em entrevista, Docter fala sobre o processo de criação da trama, os personagens do estúdio que marcaram sua história e como é trabalhar em uma das empresas que mais causa fascínio no mundo.

Divertida Mente deixa a entender que cada pessoa é controlada por um sentimento diferente. Enquanto Riley é comandada pela alegria, a mente da mãe é dirigida pela tristeza e do pai, pela raiva. Qual destas emoções te controla? Na maior parte das vezes é a alegria. Porém o medo também tem seus momentos, mais do que eu gostaria. De vez em quando, quem manda é a raiva.

Além de diretor, o senhor é um prolífico roteirista da Pixar, que ajudou a criar histórias como Monstros S.A. e Toy Story. Como funciona o processo de criação de novas tramas no estúdio? Geralmente, trabalhamos seguindo o diretor, que é quem diz como o filme vai ser. Se, por exemplo, Brad Bird (Ratatouille) ou Lee Unkrich (Toy Story 3) tem alguma ideia nova, seja qual for, eles falam sobre o que estão pensando e então juntamos um time de pessoas interessadas em fazer parte do projeto. No caso de Divertida Mente, eu tinha um conceito de as emoções serem o centro do filme. Tive a sorte de conseguir uma equipe de bons aliados no estúdio, como Ronnie del Carmen (animador de Universidade Monstros) e Josh Cooley (de filmes como Up: Altas Aventuras e Carros 2), que me ajudaram com a produção do roteiro. Depois, meu trabalho era dividir entre eles as funções e os caminhos a seguir, orientar, explicar minhas ideias. Assim, eles me ajudaram a fazer a história como um todo, dar dramaticidade ao texto, que foi escrito e revisado diversas vezes. Foi um trabalho de muitas mãos, bem colaborativo, parecido com o que é feito na televisão e não no cinema.

As animações do estúdio costumam agradar adultos e crianças. Qual o segredo para atrair um público tão amplo? É engraçado, mas no começo do processo nem pensamos sobre isso. Acho que os filmes são uma transição do que somos no dia a dia para os elementos fictícios que vão nascer. Coisas que gostamos, como adultos, entram na trama. Mas também somos apaixonados por desenhos animados. Crescemos assistindo a vários que nos influenciaram. Quando desenvolvemos o conceito do filme é implícito que a ideia é agradar ao maior número de pessoas possível. Porém, nossa primeira preocupação ao escolher um tema é que ele continue interessante depois de pelo menos cinco anos, pois estes filmes demoram muito tempo para serem feitos. Divertida Mente, por exemplo, levou cinco anos para ficar pronto, sendo que três foram só dedicados ao roteiro, em pesquisas de como faríamos. Depois, em apenas dois anos, os produtores fizeram todas as cenas.

Foi o roteiro a parte mais difícil de Divertida Mente? Sim, com certeza. Foi uma luta para chegar ao ponto certo. O respeito ao roteiro é um processo comum na Pixar. Porém, este é um filme com uma trama muito frágil, em que tínhamos que alinhar duas histórias que andavam juntas. Tinha que existir harmonia. Temos a história da Alegria que vive dentro da mente de Riley. Ela se perde e tenta voltar à sala de comando. Porém, do outro lado do roteiro, Riley nem sabe que a personagem Alegria existe. Com o tempo, descobrimos que quanto mais as duas histórias andassem juntas, afetando uma a outra, mais interessante tudo ficava. Foi um processo longo até juntarmos todo o processo de conexão entre elas. Por exemplo, quando Riley desiste de antigas paixões, como uma amizade ou do hóquei, isso causa uma mudança física no mundo da Alegria. Juntamente com a pesquisa que fizemos do funcionamento da mente, foi um processo longo, que realmente levou três anos.

Seus filmes costumam fazer uma trajetória de autoconhecimento dos personagens. Como Buzz Lightyear, de Toy Story, que descobre ser um brinquedo e não um astronauta, ou Carl Fredricksen, o idoso de Up!, que passa por um novo amadurecimento ao longo de uma viagem com uma criança. São coincidências ou um tema que te agrada? Os personagens são um reflexo da vida que levamos e pessoas com que trabalhamos. E o autoconhecimento faz parte do nosso amadurecimento. Por causa de Divertida Mente, algumas pessoas me perguntam qual emoção eu gosto mais. Isso é difícil de responder, porque todos aqueles sentimentos são parte de quem eu sou. Então os personagens refletem o dia a dia que conhecemos. Eu sinto que os filmes são como parte da minha vida. De uma maneira ampla, eles mudam quem eu sou e como eu vejo o mundo.

Tem algum desses personagens que te marcou por algum motivo? Acho que todos. Depende de quando estávamos trabalhando com eles. Porém, depois que está tudo pronto eles já não me pertencem mais. Eles ganham outra vida depois de lançados. Possuem fãs, se tornam brinquedos e parque temático. Mesmo assim, assumo que dois foram marcantes. O primeiro é Carl Fredricksen, de Up!, e agora Alegria, de Divertida Mente. Pois Carl olha para seu passado, tem esse tom nostálgico, enquanto Alegria é uma entusiasta. A combinação dos dois é como eu me sinto na maior parte do tempo.

O senhor está no time de roteiristas de Toy Story 4. Pode adiantar algo? Sou parte do conceito da ideia, mas não totalmente no roteiro. John Lasseter (envolvido em todos os filmes da franquia) e Josh Cooley (diretor dos dois primeiros) estão à frente da história e da direção. Só me envolvo quando eles gritam e pedem minha opinião. Então eu falo que não sei se tenho algo realmente valioso para acrescentar, mas claro que converso (risos).

O senhor tem um dos trabalhos mais cobiçados do mundo. Qual a pior coisa de trabalhar na Pixar? Fico chateado que minha vaga no estacionamento é muito longe (risos). Realmente é difícil falar algo de ruim sobre trabalhar na Pixar. Tenho muitos amigos que fazem trabalhos burocráticos, que não estão felizes. Quando eu paro para pensar que eu sou pago para fazer filmes de animação, quase não acredito. É um trabalho duro, e levamos a sério. Mas tenho consciência de que sou bem mimado (risos). Ter esse emprego foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Claro que não é um lugar perfeito, mas tenho orgulho do meu trabalho.