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Diretor de ‘Pequeno Segredo’: Polêmica do Oscar ofusca filme

Após seleção do MinC, David Schurmann fala sobre sua produção, elogia ‘Aquarius' e garante: 'Meu longa tem cara de Oscar'

“Foi um dia ótimo. Até vi borboletas”, diz bem-humorado o cineasta David Schurmann, de Pequeno Segredo. A produção foi eleita representante do Brasil para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar nesta segunda-feira, pelo Ministério da Cultura. Enquanto o diretor se alegrava e planejava os próximos passos de divulgação do longa, o clima, nas redes sociais, era bem mais amargo.

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Envolto em diversas controvérsias desde seu lançamento no Festival de Cannes, o filme Aquarius era considerado o nome forte para a indicação do MinC. Mas não rolou. A recusa foi vista com olhos tortos por quem tinha o título como favorito. Até Kleber Mendonça Filho, diretor de Aquarius, foi ao Facebook dizer que a decisão era “esperada”, e que estaria em sintonia com o momento político do país.

Schurmann, contudo, prefere analisar a situação do ponto de vista artístico. “Pequeno Segredo é um filme com cara de Oscar”, diz. “Cada premiação tem seu estilo, seu perfil. Aquarius tem cara de Cannes, por isso estava lá. Diferente de Pequeno Segredo, que conversa melhor com o Oscar.” Apesar de se dizer triste com a polêmica, que ofusca a qualidade de seu filme, o cineasta afirma que, quando o longa for visto pelo público, a escolha do MinC fará sentido. “As pessoas vão entender quando assisti-lo”.

Como recebeu a noticia da indicação? Foi uma surpresa, óbvio. Nunca sabemos pra onde vai o voto. Mas eu acreditava no filme, por isso lutei pelo direito de concorrer à indicação. Tudo começou em Berlim este ano, onde fizemos uma projeção fechada para produtores e distribuidores internacionais. Ao fim, escutamos muitos elogios. Todos diziam que o filme tinha pegada de Oscar. É uma história real, tem qualidade, estrutura, uma fotografia linda, bons atores. Então acreditamos.

Para ser elegível ao Oscar, o filme deve ser lançado antes de 30 de setembro. Mas Pequeno Segredo está marcado para ser lançado no dia 10 de novembro. Vão adiantar a estreia? A ideia era lançar em junho, mas atrasamos para caprichar mais na finalização. Agora vamos fazer um lançamento restrito, em algumas praças, a partir da semana que vem, para cumprir as regras de elegibilidade do Oscar. Depois será feita uma distribuição maior. Estava marcado para 10 de novembro. Não sei se a data continuará sendo esta.

Você está acostumado a filmar sua família em documentários, mas Pequeno Segredo é uma ficção inspirada em histórias reais. Como foi essa mudança? Sempre quis contar a história da Kat (filha adotiva do casal Heloisa e Vilfredo Schurmann e irmã de David). Era um sonho, só que respeitei a família e o segredo. Toda a história já parece ser uma ficção mirabolante. Um casal que encontra outro casal, do outro lado do mundo, e adota uma menina soropositiva. Decidi que tinha que ser feito em formato de ficção. Fiz documentário a vida toda, e esperava por essa chance para mudar e alcançar um maior número de pessoas. Já aprendi a enxergar minha família como um personagem. Tenho um olhar objetivo.

Por que agora? Tive que esperar o tempo certo. A Kat morreu em 2006, então pedi permissão para a minha mãe, que depois lançou um livro sobre o assunto (Pequeno Segredo, Harper Collins Brasil). Começamos a fazer o roteiro em paralelo. Eu não queria um melodrama, nem que fosse piegas. Também queria a história com três núcleos. Depois passei a me rodear de grandes e bons profissionais nacionais e estrangeiros.

Como seus pais reagiram ao filme? Eles ainda não viram, nem leram o roteiro. Pedi permissão, mas queria liberdade artística. Não pedi aval para fazer do meu jeito. Agora quero ver como eles vão receber. Espero que bem.

A escolha do MinC levou seu filme a ser envolto na controvérsia de Aquarius. Como enxerga toda a discussão em torno da produção? Entendo totalmente a controvérsia. Aquarius já nasceu controverso por causa dos protestos da equipe em Cannes, o que é valido, eles têm o direito de fazer. Mas eu acredito que Aquarius tem cara de Cannes, muitos filmes exibidos lá não vão para o Oscar. Eu vi Aquarius em Cannes, aplaudi de pé. Cada premiação tem seu estilo, seu perfil. Pequeno Segredo conversa melhor com o Oscar. Tenho muito respeito por todos os concorrentes. Mas existem critérios. Acredito que a escolha foi coerente com o tipo de premiação que é o Oscar.

Ficou chateado com a repercussão? Foram seis anos fazendo esse filme. Só de roteiro foram quase quatro anos. Então eu fico triste com as polêmicas, pois elas ofuscam um filme que foi feito com um cuidado extremo. Foram oito semanas de filmagem, uma parte foi feita na Nova Zelândia. Tudo foi feito com o intuito de ficar perfeito. O resultado é maravilhoso. Sei que estamos no turbilhão de opiniões. Mas o filme vai falar por si próprio. Quando as pessoas assistirem, vão entender a escolha.

Comentários

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  1. Luciana Loks

    Ok a situação política e a bandeira de Aquarius. Mas se o filme tivesse um potencial de público, teria feito mais que 56 mil espectadores na primeira semana. Esse “marketing político” do filme não vem trazendo resultados na bilheteria. No Oscar a “bandeira” não conta, o mercado sim.

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  2. Jonathas Pinheiro

    Enfim, pragmatismo, seja bem-vindo ao Brasil. Menos ativismo e mais profissionalismo.

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  3. Elias Estevam

    Pagou. Passou.

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  4. Mairipora Peixoto

    BRAVO, BRAVO! A FAMÍLIA SCHURMANN SÃO INCRÍVEIS.

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  5. Outra matéria com falhas… Creio que matérias assim bacanas (esta é bem bacana! Aliás, raridade ultimamente, na Veja… ) merecem uma revisão profissional, não?

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