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Diretor Brillante Mendoza recria sequestro de estrangeiros nas Filipinas em novo filme

Longa 'Captive', exibido no festival de Berlim neste domingo, tem a premiada atriz francesa Isabelle Huppert no elenco

A atriz francesa Isabelle Huppert confessa que o maior desafio de Captive, que fez sua estreia na tarde deste domingo (12) na competição do 62º Festival de Berlim, foi desaparecer no meio do choque de realidade proposto pelo diretor Brillante Mendoza. Rodado em ordem cronológica, o novo longa-metragem do premiado cineasta filipino, autor de Lola (2009), recria o sequestro de um grupo de estrangeiros por terroristas muçulmanos, em maio de 2001, nas Filipinas, e os quase dois anos que as vítmas viveram sob a mira das armas dos criminosos, nos florestas daquele país.

“Minha performance não ganha um destaque especial dentro da história. Embora inspirado em fatos reais, a ideia de Brillante era recriar aqueles eventos como se fosse um documentário”, diz Isabelle, grande estrela do teatro e do cinema franceses e ganhadora de duas Palmas de Ouro de melhor atriz em Cannes, pelos filmes Violette (1978) e A Professora de Piano (2001), na entrevista coletiva que se seguiu à projeção. “O roteiro era uma mera formalidade, porque não era seguido à risca. Trabalhamos em um estado de surpresa contínua e intensa, como que se tivéssemos mergulhado naquela situação extrema”.

Na trama, terroristas ligados ao grupo Abu Sayyaf invadem um hotel à beira mar com a intenção de capturar funcionários do Banco Mundial, mas acabam se contentando com doze hóspedes estrangeiros do resort. Entre eles está Thérèse Bourgoine, a missionária católica interpretada por Isabelle. Durante o longo período de cativeiro, sequestradores e sequestrados aprendem a lidar com os desafios impostos pela natureza e, lentamente, a superar os medos e preconceitos mútuos. “A ideia era não pesquisar para criar a personagem, mas chegar ao set totalmente crua e reagir ao que estava acontecendo comigo”, afirma a atriz de 58 anos.

Mendoza costuma trabalhar com fragmentos da realidade filipina, marcada por muita pobreza e altos índices de criminalidade. Seus filmes oferecem imagens explícitas, muitas vezes cruéis, das condições de vida de seu país. Com Captive não é diferente: os créditos finais do filme lembram que após o episódio de 2001, em que as autoridades locais e os governos estrangeiros se negaram a negociar com os raptores, o sequestro virou uma atividade lucrativa nas Filipinas. “Desde então, diversos outros casos foram registrados. Queria dividir este problema com os filipinos e com o mundo”, diz Mendoza.

O diretor é conhecido no circuito dos festivais internacionais por histórias chocantes, muitas deles extraídas do noticiário local. Com Kinatay (2009), por exemplo, com o qual ganhou a Palma de Ouro de direção em Cannes naquele ano, Mendoza se inspirou no caso de um jovem estudante de direito e pai de família que, acidentalmente, vai parar no submundo do crime organizado. “Naturalmente, contar a história de Captive exigiu muita pesquisa. Entrevistamos terroristas, vítimas de sequestros, militares que participaram das operações de cerco aos criminosos, e até um casal que sobreviveu ao longo período de cativeiro”, afirma o diretor.