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‘Diário de uma Camareira’ tem a si mesmo como rival

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Terceira adaptação da obra-prima de Octave Mirbeau (1848-1917), Diário de uma Camareira, em cartaz desde esta quinta-feira com assinatura de Benoît Jacquot (Sade e Adeus Minha Rainha), concorre com a sombra de dois grandes nomes do cinema europeu. A história, publicada pelo anarquista Mirabeau em formato de série, já foi levada às telas por Jean Renoir, com Segredos de Alcova, em 1946, e Luis Buñuel, sob o mesmo título, em 1964. E teve ninguém menos que Jeanne Moreau no papel principal, o da camareira Celéstine, agora defendida por Léa Seydoux (Azul É a Cor Mais Quente). Mas talvez o maior rival do longa seja ele mesmo, a começar pela sinopse que desenrola e pelo tom que dá a ela. Apesar do esforço claro de Jacquot para modernizar a trama, ainda que mantendo a sua ambientação no século XIX, o longa se arrisca a soar como apenas mais um filme sobre opressão de classe e de gênero.

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Diário de uma Camareira conta a trajetória de uma empregada que obtém trabalho em residências por intermédio de uma agência semelhante às que têm se criado no Brasil, em especial depois do advento da chamada PEC das domésticas. A agenciadora deixa claro, logo no começo do longa, que Celéstine deve melhorar o seu comportamento – a camareira, um tanto rebelde, é dada a se queixar e afrontar patrões. E ter bom comportamento, nesse caso e nessa época, significa satisfazer por completo os donos da casa, não apenas trabalhando como uma escrava, mas também deitando-se com quem ordenar.

Entre idas e vindas, o roteiro mostra Celéstine em diferentes situações: se envolvendo devotamente com um patrão tuberculoso, rejeitando a oferta de trabalho na casa de uma jovem dondoca, casada e com filhos, e no interior, no lar de um casal tenebroso – a mulher a trata como serva e o marido, famoso por engravidar uma camareira atrás da outra, tenta seduzi-la a todo custo. E onde, no entanto, ela encontrará o amor e o sonho de ascensão social na figura do pavoroso Joseph (Vincent Lindon), um antissemita militante que chega a citar Dreyfus – o capitão judeu perseguido injustamente no caso Dreyfus e defendido por Émile Zola no livro Eu Acuso! – em seus panfletos.

Além de Joseph, jardineiro e piloto da carruagem do casal aburguesado, trabalha na casa Marianne, uma empregada com uma história triste. Ela engravidou de um patrão e, para conseguir se manter empregada e sobreviver, se viu forçada a matar o bebê logo após o nascimento. Ao lado da violência e da exploração sexual de mulheres, aliás, o infanticídio é prática corrente aqui: há uma moradora da pequena cidade conhecida por “fazer anjinhos”.

Uma história forte, sem dúvida, e narrada com a câmera sensível e inteligente de Benoît Jacquot. Mas, e isso nem tanto pelo fato de se tratar da terceira adaptação de uma mesma obra, com o ranço de algo já muito gasto: uma trama carregada pelo horror da opressão, que por vezes corre o risco de soar tão panfletária quanto a propaganda antissemita de Joseph.