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Diálogos de ’50 Tons de Cinza’ provocam risos em Berlim

O pobre Jamie Dornan faz o que pode para dizer com dignidade alguns dos piores diálogos já escritos na história da humanidade

A fila já tinha virado um amontoado de gente uma hora antes da primeira exibição de imprensa de Cinquenta Tons de Cinza, de Sam Taylor-Johnson, apresentado em sessão especial no 65º Festival de Berlim, na noite desta quarta-feira. O longa-metragem baseado no best-seller de E L James, sobre o relacionamento entre a universitária virgem Anastasia Steele (Dakota Johnson) e o bilionário dominador Christian Grey (Jamie Dornan), estreia no Brasil nesta quinta. E passou em Berlim em circunstâncias incomuns: a gala não foi no Berlinale Palast, como de praxe, e não houve nem coletiva de imprensa.

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Todas as 330 cadeiras da sala Cinestar IMAX foram ocupadas por jornalistas que não conseguiram conter os risos em alguns dos diálogos mais sofríveis do filme. Mas também é verdade que, no início, o longa se apoia no humor, reforçado pela trilha de Danny Elfman, o compositor favorito do diretor Tim Burton. Todas as cenas da negociação do contrato sexual ente Anastasia e Christian são bastante divertidas.

Mas vamos ao que interessa: as cenas de sexo que envolvem cordas, algemas, chicotes e afins. O ponto positivo é que, sim, há muito mais cenas de sexo do que os filmes de Hollywood costumam ter. Algumas ficaram de fora? Verdade. Mas como é que se filma uma cena que envolve um absorvente, sinceramente? O ponto negativo é que a primeira sequência parece demorar séculos para acontecer. E as outras são um tanto repetitivas. Mais curioso é que, em dado momento, a diretora apela para a batida câmera lenta. Não precisava.

Para um filme escrito por uma mulher, roteirizado por uma mulher (Kelly Marcel) e dirigido por uma mulher, repete-se o problema de sempre: muita nudez feminina e quase nenhuma masculina. Não há nudez frontal. Aqui e ali, mais no caso de Dakota do que de Jamie, aparecem alguns pelos pubianos. O filme não é para mulheres, basicamente? Dá para apostar que elas iam querer ver a câmera se demorando mais em Jamie Dornan.

O pobre Dornan faz o que pode para dizer com dignidade alguns dos piores diálogos já escritos – que, verdade, foram reduzidos ao mínimo. Deu também para entender por que a reação foi tão negativa (“sem química!”, gritaram alguns) quando saiu o trailer, contendo basicamente a cena em que os dois se conhecem: falta um pouco de calor ali. Depois, melhora. É quase como se o belo ator não acreditasse totalmente em seu poder de sedução. A impressão que fica é que seu Christian Grey está mais próximo de Paul Spector, o serial killer que o irlandês interpreta na série The Fall, do que de um sedutor convencido, com preferências sexuais um tanto exóticas. Pode ter sido até uma opção da direção mesmo, ou falta de tempo para se preparar (ele substituiu Charlie Hunnam às pressas, quando este desistiu do papel), mas Christian Grey é mais assustador do que perturbado emocionalmente. Desde o início, está na cara que não é homem para se apaixonar.

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‘Nadie Quiere La Noche’

Nascida em Barcelona, Isabel Coixet vai à Groenlândia para contar a história de Josephine (Juliette Binoche), mulher de um explorador do Ártico que parte para as terras geladas e acaba descobrindo afinidades com Allaka (Rinko Kikuchi), uma mulher inuit. O longa, que está em competição, abre o 65º Festival de Berlim.

Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, 'Táxi' Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, ‘Táxi’

Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, ‘Táxi’ (/)


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‘Life’

O holandês Anton Corbijn fotografou alguns dos maiores nomes da música, como David Bowie, Bob Dylan, Bruce Springsteen e Miles Davis e teve uma longa colaboração com o U2. Seu filme de estreia, Control, falava sobre o líder do Joy Division, Ian Curtis. Seu quarto longa, Life, mostra a relação entre o fotógrafo Dennis Stock e James Dean.

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‘Knight of Cups’

Em 41 anos, Terrence Malick lançou apenas sete longas-metragens. Mas ele deu uma acelerada nos últimos tempos, estreando A Árvore da Vida em 2011, Amor Pleno em 2012 e agora Knight of Cups, sobre um ator de Hollywood (Christian Bale) à procura de significado na vida. Natalie Portman e Cate Blanchett também estão no elenco. 

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‘Que Horas Ela Volta?’

Diretora de Durval Discos (2002), É Proibido Fumar (2009) e Chamada a Cobrar (2012), a paulistana Anna Muylaert foca seu novo filme em Val (Regina Casé), empregada faz anos de uma mesma família. Sua filha Jéssica (Camila Márdila), com quem não se encontra há uma década, aparece de repente, alterando o delicado equilíbrio da casa.

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‘Everything Will Be Fine’

Numa noite de inverno, Tomas (James Franco) não consegue frear seu carro a tempo e acaba pegando Christopher e seu irmão, filhos de Kate (Charlotte Gainsbourg). Anos mais tarde, Christopher (Robert Naylor) resolve procurar o homem que transformou sua vida para sempre. O alemão Wim Wenders filmou essa história de culpa e perdão em 3D.

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‘Cinquenta Tons de Cinza’

A adaptação do best-seller de E. L. James finalmente chega aos cinemas depois de alguns percalços, como a troca do ator principal. Dakota Johnson é Anastasia Steele, a estudante ingênua que cai nas garras do milionário Christian Grey (Jamie Dornan), chegado em umas práticas sadomasoquistas. O filme é dirigido por Sam Taylor-Johnson, de O Garoto de Liverpool.

Já as escolhas de interpretação e direção para Anastasia Steele foram melhores. Ela é ingênua, mas também engraçada, esperta e cheia de opiniões. E Dakota Johnson, praticamente desconhecida, se dá bem. A atriz, filha de Melanie Griffith e Don Johnson, é natural e um pouco pateta às vezes, o que provoca simpatia.

A verdade é que Cinquenta Tons de Cinza, como cinema, é menos risível do que muitos jornalistas naquela sala gostariam. Ponto para Sam Taylor-Johnson. Se a trama não fosse tão absurda, os personagens, tão psicologicamente inconsistentes, e os diálogos, tão ruins, poderia até ser um longa-metragem decente. Mas provavelmente nem os mestres do cinema conseguiriam fazer esse milagre, a não ser que realmente não ligassem nada nem para o que E L James fala nem para o que as fãs vão dizer.