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‘Deus me fez assim’

O americano Garrard Conley, de 33 anos, expõe o processo da 'cura gay' no livro 'Boy Erased'

Quando eu tinha entre 18 e 19 anos, passei por um processo chamado de “terapia de conversão”, em Memphis, no Tennessee, no sul dos Estados Unidos. O objetivo era “reverter” minha sexualidade. Meus pais descobriram que eu era gay quando sofri um estupro na faculdade. O próprio agressor, cristão como minha família, ligou para minha mãe e me denunciou, dizendo que havia sido uma relação consensual. Foram seis meses de acompanhamento psicológico e, em seguida, duas semanas em uma instituição para pessoas que sofriam de “desvios sexuais”. Tudo se baseava em puro terror psicológico. O programa insistia na ideia de que gays eram pecadores, igualando-os aos pedófilos. Se eu assumisse a homossexualidade, perderia minha família, não conseguiria um emprego, morreria de aids e iria para o inferno. Em determinado ponto, decidi sair da terapia. Minha mãe me apoiou, e então voltei para casa. Meu pai havia dito que não me aceitaria, mas, no fim, não me abandonou.

Meu pai é pastor de uma igreja batista. Todos em casa ficaram desconfortáveis com minha situação. Passamos mais de uma década sem tocar no assunto. Até que um dia descobri um blog com depoimentos de sobreviventes de terapias de conversão. Encontrei pessoas que sofriam os mesmos sintomas que eu — entre eles, não conseguir tocar outra pessoa sem sentir incômodos físicos. Foi então que decidi escrever sobre o que vivi. Entrevistei meus pais e pastores da comunidade, e entrei em contato com um dos responsáveis pelo programa de “cura gay” — que mais tarde, diante de um caso de suicídio, entendeu os traumas provocados nos jovens e se arrependeu.

Ao escrever, assumi um ponto de vista sociológico, não de vítima. Por isso, acho maravilhoso que minha história tenha alcançado tantos países, entre eles o Brasil, que tem um público evangélico tão grande. Mas é pena que o filme baseado no meu livro, Boy Erased: uma Verdade Anulada (publicado pela Intrínseca), não chegue aos cinemas brasileiros. A distribuidora alega motivos comerciais, e não tenho por que duvidar. Creio que nos EUA muitos ficaram com receio de ser vistos entrando no cinema para assistir a um filme sobre o tema. Quando ele chegar ao streaming, talvez tenha mais espectadores. A controvérsia é boa, pois estão falando do livro. Escrevê-lo foi um processo duro, especialmente por causa de meu pai. Pensei: como vou lidar com as pressões que minha família vai sofrer após a publicação? Não queria que ele perdesse a igreja e a vida que tem. Por fim, o livro fez com que meu pai ficasse ainda mais popular. Fui muito cuidadoso ao ressaltar que ele não mudou o que pensa sobre os gays. As pessoas gostaram de ver alguém que conseguiu manter sua crença sem abandonar o filho. Sempre tivemos uma relação difícil, mas o amor foi mais forte.

Aceitei minha homossexualidade e hoje sou casado. Não perdi minha família, mas perdi a fé, infelizmente. Ela foi arrancada de mim cedo demais. Eu confiava na relação com Deus para encarar meus dilemas. E isso acabou. Deus foi usado como arma contra mim. Se as igrejas pararem para pensar, verão que devem perdão aos homossexuais pelos sofrimentos que causaram a eles. Seus líderes têm de admitir que talvez não saibam 100% de tudo. Algumas pessoas precisam de experiências religiosas. E é uma pena que os gays sejam privados disso por serem quem são.

Hoje, acho que sou agnóstico. Não sei mais se acredito em Deus. Não consigo dizer que sim nem que não. Continuo aberto à ideia. Se Deus existe, posso dizer que Ele me fez assim. Minha mensagem aos cristãos é que meu livro não ataca sua fé. Na verdade, tento honrá-la. A Igreja precisa de constantes reformas. Historicamente, fizemos coisas horríveis em nome de Deus. Essas torturas precisam parar, pois são fruto de um cristianismo que nada tem a ver com a mensagem de Cristo.

Depoimento dado a Raquel Carneiro

Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2019, edição nº 2622

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