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Desculpe, Gregorio, mas seu filme é muito ruim

‘Desculpe o Transtorno’, comédia romântica que protagoniza com a ex, Clarice Falcão, se apoia em clichês e estereótipos

Por Maria Carolina Maia - Atualizado em 16 set 2016, 18h44 - Publicado em 16 set 2016, 13h28

Se era para servir de homenagem ao romance que viveu com a ex Clarice Falcão, sua companheira por cinco anos, de 2009 a 2014, Gregorio Duvivier ficou devendo. Desculpe o Transtorno, comédia romântica de Tomas Portella que estreou nesta quinta-feira com o ator no papel principal e Clarice como a menina por quem seu personagem se apaixona, é fraca de doer. Apoiado em clichês e estereótipos do que seriam um carioca e um paulistano, e também na atuação de Duvivier, uma base sólida como areia de praia, o filme se arrasta por cerca de uma hora e meia entre piadas bobas – “Dostoiévski? Eu não li nenhum Toiévski” – e cenas que parecem saídas de um comercial de operadora de celular. É triste, quando devia ser divertido.

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Se era para aquecer a carreira de ator de Duvivier, Desculpe o Transtorno também falhou. Duvivier se sai razoavelmente bem em esquetes do Porta dos Fundos, mas em voos maiores, como no longa Apenas o Fim (2008), falta fôlego a ele. Pode-se alegar que Apenas o Fim era um drama calcado em diálogos – um filme que pretendia ser um novo Antes do Amanhecer, de Richard Linklatere, portanto, terreno árido para o ator. Mas Desculpe o Transtorno tem humor – uma piada tosca atrás da outra, mas vá lá – e nem assim Gregorio engrena. Chega a ser constrangedor vê-lo patinar em cena.

O ator faz Eduardo, um carioca que ainda criança se muda para São Paulo com o pai, quando a mãe pede o divórcio. Já adulto, trabalhando para esse mesmo pai (Marcos Caruso), que tem uma empresa de registro de patentes, Eduardo recebe a notícia de que a mãe morreu, e toma um avião para o Rio. Tem início, então, uma sucessão de pontes-aéreas e de trocas de personalidade: no Rio de Janeiro, onde passou a infância sob o apelido de Duca, o estresse do luto desencadeia um transtorno de personalidade pelo qual o personagem se alternará entre Eduardo, seu avatar paulistano, que é noivo da patricinha Viviane (Dani Calabresa), e Duca, o carioca, que conhece Bárbara (Clarice) ainda no aeroporto e se envolve com ela. Bárbara trabalha travestida de coelho no Galeão, onde aparece, sob a pele de pelúcia rosa, segurando balões vermelhos na mão, em cenas que parecem saídas de um comercial feito para emocionar. É esse embate entre seus dois eus que o personagem terá de enfrentar para decidir quem de fato será na vida – e, claro, com quem ficará.

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Descrito assim, o enredo pode até parecer interessante. O resultado, no entanto, é pífio, para não dizer embaraçoso. Gregorio não dá conta de se dividir em dois, mas a culpa do fiasco não é só dele. O roteiro, construído a partir do estereótipo do que é ser paulistano (trabalhador, sério, sem ginga, alguém que dá valor ao serviço de um estabelecimento e acha a pizza) e carioca (extrovertido, relaxado, sangue-bom, avesso ao trabalho) é raso como piscina infantil. E a edição, lenta demais, dá ao filme um ritmo que faz seus 95 minutos parecerem uma eternidade.

Se era para fechar com honra o relacionamento entre Clarice e Gregorio, Desculpe o Transtorno deu ao casal um final chocho. O que pode ter funcionado, entre todas as tentativas ligadas ao filme, foi a de Gregorio usar sua coluna na Folha de S.Paulo para fazer propaganda da produção – com o texto “Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice”, publicado na última segunda-feira. Se a ideia era fazer marketing, como logo se suspeitou, isso sim deu certo. Afinal, se o texto não tivesse sido amado e odiado pelas redes sociais, despertando enorme curiosidade sobre o longa, esta resenha talvez nem mesmo existisse.

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