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Decisão de lutar vai ajudar Gianecchini a enfrentar o câncer

Medicina admite que o estado de espírito do paciente influencia o estado geral e interfere diretamente nos resultados do tratamento

Por Aline Erthal - 13 ago 2011, 12h05

“Não tenho dúvidas de que o engajamento do paciente estabelece vínculos com a capacidade de reação. Em quase 30 anos de trabalho, testemunhei muitas conquistas que não pareciam possíveis, do ponto de vista estatístico. E é interessante observar que essas pessoas são as que abraçam a própria causa, manifestam uma vontade grande de lutar e viver”

Nise Yamaguchi, oncologista diretora do Instituto Avanços em Medicina

O ator Reynaldo Gianecchini começa, esta semana, a trilhar um caminho longo e difícil. Com diagnóstico de linfoma, ele vai iniciar um tratamento que ainda está sendo definido, a partir de exames feitos no Brasil e nos Estados Unidos. A favor dele, além dos avanços da medicina oncológica, está sua disposição de lutar, manifestada na nota que divulgou na semana passada. Patrícia Pillar, Glória Perez, Drica Moraes, Ana Maria Braga e Hebe Camargo fazem parte de uma extensa lista de pessoas que superaram o câncer e mostraram algo que a medicina leva crescentemente em conta: a disposição do paciente tem influência direta nos resultados dos tratamentos.

Não se trata apenas de um estado de espírito. O que a medicina tem constatado é que a atitude do paciente produz efeitos, inclusive, sobre a área imunológica. É normal e previsível que uma pessoa acometida de uma doença grave fique angustiada, tenha medo e raiva. Mas é preciso aprender a lidar com esses sentimentos, porque segundo a oncologista e imunologista Nise Yamaguchi, entregar-se a eles pode desencadear, o aumento do nível de adrenalina e de cortisona – um dos elementos que diminuem a atividade dos glóbulos brancos e, consequentemente, a produção de anticorpos. “Não tenho dúvidas de que o engajamento do paciente estabelece vínculos com a capacidade de reação. Em quase 30 anos de trabalho, testemunhei muitas conquistas que não pareciam possíveis, do ponto de vista estatístico. E é interessante observar que essas pessoas são as que abraçam a própria causa, manifestam uma vontade grande de lutar e viver”, observa. Nise cita Hebe e Ana Maria Braga como exemplos disso. “Elas superaram expectativas. E a mensagem de Gianecchini mostra sua determinação. É um ótimo começo”.

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A médica é diretora do Instituto Avanços em Medicina, que trabalha com uma visão holística do portador de câncer. Para ela, cada consulta é, também, um encontro terapêutico. O paradigma do médico distante, que evita o envolvimento com o paciente, não tem espaço em sua sala. “Vejo como uma obrigação do médico e de toda a equipe de saúde estimular a pessoa a buscar forças para lutar. Vamos nos envolver, sim, com ela e com seus problemas”, frisa.

Envolvimento que se dá de forma cada vez mais personalizada. A farmacogenômica, por exemplo, estuda os genes relacionados à eliminação dos medicamentos do corpo em cada indivíduo. “Os tratamentos são pensados para cada câncer, em cada pessoa. A medicina caminha para isso”.

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A reumanização das relações paciente-médico é um movimento recente no Brasil. “O cientificismo do século 19 perdurou por quase todo o século 20. Só agora estamos resgatando alguns valores perdidos, como a compreensão de que o paciente tem dimensões múltiplas, psicológicas, espirituais, sociológicas. E sua luta pessoal, seja pela cura ou pela dignidade no tratamento, merece toda a atenção do profissional de saúde”, defende Cláudia.

A cirurgiã oncológica Cláudia Naylor, do Instituto Nacional do Câncer (INCa) confirma. “A vivência do cotidiano não deixa dúvidas: a resposta ao tratamento do câncer é muito melhor quando há um engajamento efetivo do paciente”, diz. A médica dirige o HC4, unidade do Instituto Nacional do Câncer (INCA) é responsável pelo atendimento às pessoas com doença em estágio avançado, fora de possibilidade terapêutica. O objetivo, ali, não é a cura nem um adiamento da morte, mas oferecer a melhor qualidade de vida possível ao paciente.

O hospital conta com uma equipe multidisciplinar, que combina terapias da linguagem, ocupacional, musicoterapia e atividades artísticas com as praticas tradicionais da medicina. Ao envolver-se com as atividades propostas, o paciente abandona a postura passiva e age pelo seu próprio bem-estar. Os resultados são significativos como a atenuação de sintomas como dor, náuseas, vômitos, falta de ar e de apetite, mau funcionamento do intestino e fadiga. E mais: “Ainda que este não seja o objetivo em nossa unidade, alguns pacientes conquistam uma sobrevida maior”, diz Cláudia.

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