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De volta para o futuro

Em 'Dor e Glória', o diretor espanhol Pedro Almodóvar revisita seu passado com ânimo investigativo — e sai afinal de sua fase de estagnação criativa

Dores nos joelhos e, às vezes, também enxaqueca. A dor nas costas, essa é constante — e a cicatriz de cirurgia que acompanha a coluna atesta que não é fruto da imaginação. Sem falar nos engasgos, tão frequentes e violentos que acabam com a vontade de comer: Salvador Mallo está aturdido com o avanço da idade. Escreve sem vontade, porque não poderá filmar aquilo que cria no papel — o trabalho de um diretor, no set, é de grande demanda física, explica ele ao médico, que já não faz muita ideia de qual analgésico receitar. E, se Salvador não pode filmar, não sabe mais para que serve. Sem vislumbrar algo à frente, ele olha para trás. Vai à procura de Alberto Crespo (Asier Etxean­dia), o ator com quem brigou trinta anos antes e que o recebe ressabiado e já pronto para devolver as pedradas: no despontar fervilhante da sua carreira, Salvador era um sujeito sanguíneo, capaz de vetar a presença de um protagonista na estreia de um filme porque o trabalho dele não saíra do seu agrado. Salvador, porém, amolece Alberto com um convite para que ele o acompanhe numa projeção comemorativa do filme que causou a discórdia entre eles; e Alberto amolece Salvador com a fumaça convidativa da heroína, o vício do qual nunca conseguiu se desprender. “Tem certeza de que é uma boa ideia provar algo assim nesta altura da vida?”, indaga o ator, em tom de aviso. “E por que não?”, responde o diretor, já embarcando num dormitar finalmente livre de dores, a partir do qual ele começa a puxar o fio de seu passado distante, numa aldeia qualquer da Mancha, junto de sua mãe, Jacinta (Penélope Cruz).

Dessa forma, olhando-se em um espelho que reproduz algumas feições e inventa outras, o cineasta Pedro Almodóvar busca a si mesmo em Dor e Glória (Dolor y Gloria, Espanha, 2019), que estreia no país nesta quinta-feira — e no qual seu alter ego, Salvador Mallo, é vivido por Antonio Banderas, o ator com que ele iniciou a carreira, passou anos brigado e então reatou, a partir de A Pele que Habito, em 2011. Banderas acaba de ser premiado no Festival de Cannes pelo papel de Salvador: é uma interpretação íntima, lúcida, na qual transparece um alívio considerável na reacomodação aos ritmos de Almodóvar, ao idioma natal e à própria Espanha e aos espanhóis. Em filmes americanos, e em inglês, Banderas nunca chegou a ser o ator que é quando está em casa (ou, muito literalmente, na casa de Almodóvar, já que Salvador Mallo “mora” no apartamento do próprio diretor, e mobília, quadros e tudo o mais foram mantidos tal e qual no cenário). E talvez nenhum outro ator compreenda tão bem esse personagem, com seu humor fácil mas cortante, e sua distensão imprevisível entre os extremos mais calorosos e os mais ríspidos. Essa disposição de confiar-se a um ator que o conhece tão bem e pode colocar-se em pé de igualdade com ele é um dos muitos sintomas de que Almodóvar, afinal, começa a se libertar da estagnação criativa que redundou em filmes decepcionantes, como Abraços Partidos (2009), desastrosos, como Os Amantes Passageiros (2013), e constrangedores, como Julieta, de 2016, em que ele tentava imitar — sem nenhum sucesso — o cineasta que fora em melodramas arrebatadores como Tudo sobre Minha Mãe e Fale com Ela.

CÍRCULO COMPLETO – O diretor e o ator no set, nos anos 80: reatados

CÍRCULO COMPLETO – O diretor e o ator no set, nos anos 80: reatados (Album/Fotoarena)

Em Dor e Glória, Almodóvar abandona essa volta fraudulenta ao passado em favor de uma volta real, de cunho investigativo. Aceita que seu país não é mais aquele em que sua carreira emergiu, o da Movida com que a Espanha purgou as décadas de ditadura franquista numa erupção de criação artística, agitação política e liberação sexual e de costumes. Admite — a contragosto — que também ele não é mais o artista de altíssima voltagem que apanhou o cinema mundial de surpresa, nos anos 80, com trabalhos ousadíssimos, exuberantes e coloridos como Matador, A Lei do Desejo e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. E dá um importante passo além ao tentar compreender não apenas o que perdeu, mas o que talvez tenha preservado ou mesmo ganhado entre o então e o agora.

Na companhia de Banderas e de Penélope Cruz, além de atores como os excelentes Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia e Julieta Serrano — que faz Jacinta, a mãe, na velhice —, Almódovar/Salvador percorre um percurso longo. Revisita desde a primeira paixão, na infância (ao se perceber atraído por um rapaz, ele desmaia, fulminado pela culpa católica), até o amor perdido da juventude. Faz um esforço sincero para ser mais brando na convivência com os outros e então desiste, numa cena divertidíssima em que, junto com o ator Alberto, dá uma entrevista por telefone. Reconcilia-se afinal com a perda da mãe e com a ideia de que, por ser quem é, nunca poderia ter agradado a ela completamente. E, mais forte, põe de lado a heroína com que vinha aplacando as dores físicas e psíquicas. É o que basta para reencontrar aquelas duas criaturas elusivas, a inspiração e a vontade.

Dor e Glória se encerra com a promessa de um novo filme de Pedro Almodóvar. E, pela primeira vez em um bom tempo, essa é uma ideia excitante.

 

Publicado em VEJA de 12 de junho de 2019, edição nº 2638

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