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De Anselmo Duarte a Kleber Mendonça Filho: o histórico do Brasil em Cannes

Relembre vitórias e momentos marcantes do cinema brasileiro no festival francês

O Festival de Cinema de Cannes, o mais celebrado do mundo, deu início a sua 72ª edição na terça-feira 14. Neste ano, a mostra é de grande importância para o Brasil, que tem quatro filmes selecionados para exibição no evento – dois deles, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e O Traidor, uma coprodução com Itália, França e Alemanha, concorrem à Palma de Ouro. Bacurau será exibido nesta quarta-feira, 15.

A história do país em Cannes começou na terceira edição, em 1949, com a indicação de Sertão, de João G. Martins, ao Grande Prêmio do Festival – que, na época, ainda não se chamava Palma de Ouro. De lá para cá, o Brasil foi premiado apenas uma vez na categoria principal, mas já trouxe outras vitórias importantes para casa. Relembre essas conquistas e outros momentos importantes do Brasil no festival:

A Palma de Ouro

Cena do filme 'O Pagador de Promessas' (1962), de Anselmo Duarte Cena do filme ‘O Pagador de Promessas’ (1962), de Anselmo Duarte

Cena do filme ‘O Pagador de Promessas’ (1962), de Anselmo Duarte (//Reprodução)

Em 1959, o vencedor da categoria principal de Cannes, a Palma de Ouro, foi uma coprodução entre França, Brasil e Itália – Orfeu Negro, do francês Marcel Camus. No entanto, o único filme totalmente brasileiro a ganhar prêmio máximo do festival foi O Pagador de Promessas (1962), do diretor Anselmo Duarte (1920-2009) e estrelado por Glória Menezes e Leonardo Villar. O longa é baseado na peça homônima de Dias Gomes e acompanha a jornada de Zé do Burro, sertanejo simples que carrega uma cruz com a intenção de levá-la até o altar para agradecer a cura de seu animal. Durante o percurso, ele enfrenta a intolerância religiosa por estar cumprindo uma promessa feita em um terreiro de candomblé.

À época, a produção recebeu diversas críticas de diretores brasileiros, que a consideravam “datada”, “à moda antiga”, que não se alinhava às características do Cinema Novo. Internacionalmente, contudo, a recepção foi bastante positiva: além do prestígio em Cannes, O Pagador de Promessas ainda foi reconhecido na premiação do Oscar, com uma indicação na categoria de melhor filme estrangeiro em 1963.

Melhor atriz: duas vezes Brasil

As atrizes Fernanda Torres e Sandra Corveloni

As atrizes Fernanda Torres e Sandra Corveloni (Reprodução/Divulgação)

Em 1986, Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor, foi um dos indicados ao prêmio principal de Cannes, mas quem saiu vencedor foi o britânico A Missão (de Roland Joffé). A produção brasileira, porém, não saiu de mãos vazias: Fernanda Torres foi premiada como melhor atriz por sua interpretação, dividindo o prêmio com Barbara Sukowa, protagonista da cinebiografia Rosa Luxemburgo (Margarethe von Trotta). Como gravava, na época, um remake da novela Selva de Pedra, a atriz não compareceu ao evento, e ficou sabendo da vitória por telefone. Ela só recebeu o prêmio um mês depois, entregue pelo então presidente da República José Sarney numa audiência no Palácio do Planalto.

Outro filme brasileiro indicado à Palma, mas que acabou vencendo apenas na categoria de melhor atriz, foi Linha de Passe, de 2008. Naquele ano, o vencedor da categoria principal foi o francês Entre os Muros da Escola, mas o longa de Walter Salles e Daniela Thomas rendeu um prêmio a Sandra Corveloni, atriz vinda do teatro e que estreava ali sua carreira no cinema. Na trama, ela interpreta Cleuza, uma empregada doméstica que cria sozinha quatro filhos e está grávida do quinto, de pai desconhecido.

Glauber Rocha: três vezes premiado

O cineasta Glauber Rocha

O cineasta Glauber Rocha (Divulgação/Reprodução)

Um dos representantes do Cinema Novo, movimento de vanguarda cinematográfica que marcou a década de 1960, Glauber Rocha foi o único brasileiro a receber o prêmio de melhor diretor em Cannes. O reconhecimento veio com O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de 1969. No filme, o diretor aborda o drama da miséria no sertão nordestino, retornando ao tema do cangaço e a personagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), que consolidou sua carreira como cineasta. A produção chegou a ser censurada pela ditadura militar instaurada no Brasil, na época sob o comando de Emílio Garrastazu Médici, mas foi liberada devido à repercussão internacional e o prestígio em Cannes.

Essa não foi a única vez que Glauber Rocha foi premiado no festival. Em 1967, seu drama político Terra em Transe recebeu o Prêmio da Crítica Internacional, realizado pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci). Anos mais tarde, em 1977, seu curta Di Cavalcanti recebeu o Prêmio Especial do Júri de Melhor Curta-Metragem. Amigo do pintor brasileiro, o cineasta, quando soube de sua morte, correu para o funeral com uma câmera para registrar o momento e homenageá-lo no curta. Contudo, a filha do artista, Elizabeth Di Cavalcanti, entrou com uma ação em 1979 e o filme nunca foi exibido nos cinemas.

Prêmios extintos

Cena de ‘O Cangaceiro’ (1953)

Cena de ‘O Cangaceiro’ (1953) (Reprodução/Youtube)

Nove anos antes de ser premiado na principal categoria do festival, o Brasil já contabilizava uma vitória em Cannes com O Cangaceiro (Lima Barreto), vencedor, em 1953, de uma extinta categoria por melhor filme de aventura. O longa de Lima Barreto é inspirado na famosa figura de Lampião, e narra o conflito entre dois cangaceiros: capitão Galdino Ferreira e Teodoro. Após o bando do capitão Galdino sequestrar a professora Maria Clódia, os dois competem para libertá-la.

Em 1964, três filmes brasileiros apareciam na disputa pela Palma de Ouro: Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas e Noite Vazia (de Walter Hugo Khouri). Apesar de nenhum dos três ter levado a Palma – que ficou com Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy -, a adaptação cinematográfica da obra de Graciliano Ramos rendeu a Nelson Pereira dos Santos o prêmio OCIC, uma honra conferida pela Igreja Católica na época. O diretor, inclusive, foi novamente premiado em 1984, recebendo o Prêmio da Crítica Internacional por outra adaptação de uma obra do escritor alagoano: Memórias do Cárcere, que narra os meses em que o autor esteve preso durante a Era Vargas.

Meow! – A única animação premiada

Cena do curta-metragem brasileiro 'Meow!', do diretor Marcos Magalhães Cena do curta-metragem brasileiro ‘Meow!’, do diretor Marcos Magalhães

Cena do curta-metragem brasileiro ‘Meow!’, do diretor Marcos Magalhães (//Reprodução)

O curta de oito minutos Meow! foi a única animação brasileira a ser premiada em Cannes. O filme de Marcos Magalhães, que através da figura de um gato aborda a questão da globalização que se iniciava na época, recebeu o Prêmio Especial do Júri de Melhor Curta-Metragem em 1982.

Protestos no tapete vermelho

Elenco de Aquarius protesta contra o Impeachment da presidente Dilma no tapete vermelho do 69° Festival Cannes de cinema, em 2016 Elenco de ‘Aquarius’ protesta contra o impeachment de Dilma Rousseff no tapete vermelho do 69° Festival de Cannes, em 2016

Elenco de ‘Aquarius’ protesta contra o impeachment de Dilma Rousseff no tapete vermelho do 69° Festival de Cannes, em 2016 (Pascal Le Segretain/Getty Images)

Após ficar alguns anos de fora das categorias principais, o momento mais importante do Brasil em Cannes nos anos recentes foi a indicação de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, à Palma de Ouro em 2016. Naquele ano, o prêmio ficou com Eu, Daniel Blake, do britânico Ken Loach, mas a participação brasileira do longa ficou marcada no evento por causa de um protesto do diretor e sua equipe. Exibindo cartazes com frases como “Um golpe aconteceu no Brasil” e “54.501.118 de votos foram queimados!”, Mendonça Filho e seu elenco se manifestaram contra o processo de impeachment de Dilma Rousseff durante a passagem pelo tapete vermelho.

No ano passado, mais um protesto brasileiro marcou o festival, realizado pela equipe do longa Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos. Na ocasião, os diretores João Salaviza e Renée Nader Messora, junto com sua equipe, levantaram cartazes contra o genocídio indígena e pela demarcação de terras no país. O filme conta a história de um jovem indígena da etnia Krahô, da aldeia Pedra Branca (Tocantins), e foi um dos selecionados na mostra paralela Un Certain Regard (Um Certo Olhar), recebendo o Prêmio Especial do Júri.