Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Da TV para o YouTube

Xuxa, Portiolli, Galisteu, Marilia Gabriela são apenas alguns dos nomes consagrados da televisão que estão se aventurando com canais na internet

Os youtubers estão por toda parte, sempre seguidos por uma legião de fãs, no cinema, nos livros, e, obviamente, na internet. O sucesso dessas estrelas é tão grande que alguns apresentadores consagrados da televisão estão presentes na plataforma de vídeos do Google. A lista tem nomes como a versátil Marília Gabriela, o popular Celso Portiolli e exemplos que estão fora da TV aberta. Até a Xuxa estreou, recentemente, o seu Canal X, em parceria com a Record, que pretende mostrar de forma intimista os bastidores da sua vida artística.

Com um vídeo novo no YouTube toda terça-feira, Xuxa quer se aproximar dos seus espectadores e aparecer o mais natural possível. Em um dos episódios do seu canal, ela esfrega um pouco de mamão na cara para hidratar a pele, e não esconde as raízes brancas do cabelo. A apresentadora explica que nunca pensou em ter um canal. “Sempre achei coisa pra gente nova com linguagem direta de jovens pra jovens, mas é fascinante esse mundo. Vou aprender muito e quero aprender mais e mais”, disse a VEJA.COM.

A nova empreitada da rainha dos baixinhos na verdade faz parte de um novo projeto da Rede Record, o ACLR, que tem como objetivo expandir a atuação da emissora na internet, como explica o superintendente de Estratégia Multiplataforma da Record, Antonio Guerreiro. “Queremos ampliar nossa participação em produção e distribuição de conteúdo multiplataforma, oferecendo ao mercado ativos diferenciados. Nosso cast está presente na internet desde o início de nosso projeto web, em 2009, com o portal R7”, explica.

A apresentadora conta que só topou o desafio proposto pela Record porque a internet permite novas experiências que até hoje não teve na sua extensa carreira na TV . “A internet é instantânea e interativa ao mesmo tempo. Experimentar esses novos formatos está sendo incrível”, explica. Quando questionada se já é uma youtuber, Xuxa é direta: “Não, né! Longe, muito longe de ser uma”.

Outro nome conhecido da TV que passou a figurar no YouTube é Adriane Galisteu, que lançou em janeiro deste ano o canal Galisteu sem Filtro, com vídeos gravados geralmente na sala da própria casa, com a ajuda de um cinegrafista, e que fala sobre qualquer assunto na maior intimidade com os telespectadores.

A loira conta que está adorando a experiência, e, ao contrário da rainha dos baixinhos, já se considera uma youtuber. “Tenho mais de 100 000 inscritos no meu canal. Não acho que é uma migração, acho que é uma coisa que agrega. Não tem nada a ver isso de sai da TV e vai pro YouTube. Não exclui nada. Uma pessoa que trabalha com comunicação tem de estar em todas as mídias possíveis, e o on-line é tão importante quanto a televisão”, afirma Galisteu.

A grande verdade é que a internet já deixou de ser uma aposta e está se tornando uma realidade para a produção e o consumo de conteúdo, e existe sim uma tendência de nomes da televisão começarem a migrar para o on-line, conforme explica Luiz Felipe Barros, CEO da Digital Stars, a principal agência brasileira de gestão de influenciadores. “No Brasil, 85 milhões de pessoas assistem a vídeos mensalmente pela internet. É uma audiência maior que a da TV por assinatura e aberta. Investir em construir audiência na internet é uma necessidade para os artistas e também para os canais”, afirma.

Adriane Galisteu afirma que o YouTube a ajudou a aumentar a quantidade de fãs. “As pessoas me param na rua para falar do canal. Quando comecei, achei que ia falar com um público muito jovem e recomeçar a minha história na internet. Mas tem muita gente de 45, 50 anos. O meu público-alvo é feminino, de 18 a 45 anos, e ele está lá fiel comigo aonde eu vou”, conta.

A apresentadora do programa Face a Face, na Band News, conta que decidiu começar o canal porque já possuía uma forte presença on-line. “Eu sempre cuidei das minhas redes sociais, e faltava um canal para essa área de comunicação na internet ficar completa. Agora eu estou enchendo o saco da Endemol (produtora dos vídeos), porque eu quero lançar mais um dia. Hoje eu subo vídeos toda quarta-feira, e quero subir outro em outro dia, com a mesma pegada do Sem Filtro, mas outra coisa”, explica.

Mas não basta simplesmente começar a gravar vídeos e postar on-line. Essa migração para a internet precisa ser planejada para que o público da televisão, e muito menos o on-line,  não estranhe ou considere a mudança forçada. Xuxa já percebeu os desafios dessa nova mídia, e pretende ir com calma com o seu canal. “Gravo uma vez por semana alguns quadros. Como tudo é novo, vou esperar pra ver o que o povo vai gostar pra investir ou não naquele quadro”, explica.

Segundo Luiz Felipe Barros, o público da internet espera uma proximidade diferente da TV, e busca autenticidade o tempo todo. “Alguns conteúdos funcionam nos dois meios, mas são raros. A estética e a linguagem são diferentes. Isso gera também um impacto na forma de produzir. Na estrutura de custos, no conteúdo. Conteúdo frequente e admirado pelo público é o que garante a audiência e o próprio prestígio da plataforma”, completa.

Investir em conteúdo da internet pode ser uma ferramenta prática para emissoras que lutam para conquistar audiência, como é o caso da Play TV, um canal pago voltado para a cultura jovem e pop, que desde 2013 faz o caminho inverso, e traz rostos conhecidos do YouTube para sua grade. “Quando trouxemos os primeiros canais para a programação da PlayTV, temíamos que as pessoas não fossem querer ver na TV algo que já estava publicado na internet.  O feedback que tínhamos das pessoas que não conheciam os canais era de que o conteúdo novo era muito bom, que os ‘novos apresentadores’ eram muito bacanas e quem já conhecia os canais na internet relatava a felicidade de agora também poder vê-los na TV”, conta o gerente de programação da emissora, Rodrigo Laríu.

Apesar dessa intimidade com o digital, somente neste ano a emissora investiu na produção do primeiro programa exclusivo para a internet, o Fundo Verde, com apresentadores que já apareciam na grade regular da TV. “Durante esses anos, ficou muito claro que a audiência da PlayTV não está muito preocupada em saber qual é a tela onde ela está assistindo a seu programa favorito: seja TV a cabo, computador, celular, o que ela quer mesmo é assistir. Não existe uma mão única, nem um tráfego numa única direção: da internet para TV, da TV para internet, ou nos dois ao mesmo tempo, o importante é fazer conteúdos de qualidade e se relacionar mais diretamente com sua audiência”, analisa Laríu.

Adaptar-se à internet é um desafio. De um lado existe a vantagem de uma maior liberdade artística e autonomia, além de construir sua própria audiência, estabelecer um contato mais próximo com o público, criar novas oportunidades comerciais e garantir uma exposição constante. “Eu acho que fiquei mais solta, me livrei de amarras. É tão solto que até estranho. Sempre tive produtor, diretor, pauteiro. De repente, você fica sozinha falando sobre o que você quiser, do jeito que você quiser. É sem controle, mas delicioso. Digo que é sem filtro, mas não é sem educação, porque às vezes as pessoas acham que gravar vídeo para a internet é ficar falando um monte de palavrão. É estar sem máscaras, sem muita maquiagem ou produção. Poder falar realmente o que penso sem ler o que as pessoas escrevem para mim”, explica Galisteu.

“A desvantagem do YouTube é sair da zona de conforto. Levar uma superprodução para a internet está longe de ser uma garantia de sucesso. Se na TV o ‘zapping’ entre os canais é um desafio, na internet o desafio é a retenção do público com uma infinidade de conteúdos e outras distrações à disposição” analisa Luiz Felipe Barros. Galisteu concorda que é realmente um desafio conseguir produzir tanto conteúdo e em um ritmo constante para os seguidores on-line. “Não é tão fácil assim. Você abrir a câmera e falar, mas falar o quê? A maior dificuldade que sinto até hoje é escolher os assuntos, e ter começo, meio e fim”, confessa.

Para levar o seu projeto do ACLR adiante, a Rede Record montou uma equipe de 45 profissionais para produzir e comercializar os novos canais multiplataforma da emissora. Mas apesar dessa estrutura oferecida pelo canal, o conteúdo dos vídeos publicados no YouTube depende do perfil de cada apresentador. “Se não houver possibilidade de criação em uma plataforma conhecida pela inovação em formatos e conteúdo, o produto perde seu potencial de mercado. Isso é inerente ao projeto. O público complementa a audiência da TV”, enfatiza Guerreiro.

Assim como a TV não matou o rádio, a internet  não vai acabar com a televisão, e traz apenas novas opções de conteúdo. “A forma que se consome vídeo está mudando. As TVs não estão apostando na internet. Estão investindo nela. Construir sua audiência e se preparar para o futuro onde a competição por ela acontece não só com outras emissoras, mas também com criadores de conteúdo que construíram sua própria audiência, é vital para o futuro delas”, afirma Luiz Felipe Barros. “Você se adéqua. Daqui a pouco a internet vai ter de se adequar ao que a gente não sabe o que será. É uma nova mídia, e não adianta você ignorar. Quem tem filho sabe que as crianças só veem YouTube. É outro momento, e acho genial que esteja acontecendo. Na internet, o sol nasceu para todos mesmo”, completa Galisteu, com propriedade de youtuber.