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Com Spielberg no júri, Cannes 2013 tem sotaque americano

Os operários ainda trabalhavam nesta terça-feira no Palais des Festivals para a abertura do mais importante – e badalado – festival de cinema do mundo, o Festival de Cannes, que de 15 a 26 de maio deve apontar os longas que serão notícia em todo o mundo pelos próximos meses. O tapete vermelho que sobe as escadarias do Grand Théâtre Lumière, onde acontecem as sessões de gala, ainda estava coberto, preservado para receber gente como o presidente do júri deste ano, Steven Spielberg, os cineastas Roman Polanski, Joel e Ethan Coen e Steven Soderbergh e atores como Michael Douglas, Leonardo DiCaprio, Ryan Gosling e Benicio del Toro. É bom eles se prepararem, porque a previsão é de chuva e friozinho nos próximos dias. Além de um forte sotaque americano.

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Com Spielberg na presidência do júri da competição da 66ª edição do evento, era mesmo de se esperar que a seleção fosse mais americana. Dos vinte concorrentes, sete são falados em inglês, ambientados nos Estados Unidos ou dirigidos por americanos. O filme de abertura (hors concours), O Grande Gatsby, é dirigido pelo extravagante Baz Luhrmann e estrelado por Leonardo DiCaprio – mesma dupla de Romeu e Julieta (2006), também a adaptação de um clássico salpicada de glitter. Já o Brasil ficou, mais uma vez, fora da disputa.

Entre os longas que disputam a Palma de Ouro, a aposta, como sempre, recai sobre os cineastas que buscam propostas mais autorais. Behind the Candelabra (ainda sem título em português) até tem uma aura pop: é a história do músico Liberace, interpretado por Michael Douglas. Mas, porque mostra o romance entre o pianista que se apresentava todo trabalhado no paetê e o jovem Scott Thorson (Matt Damon), a produção de Steven Soderbergh (vencedor da Palma de Ouro em 1989 com Sexo, Mentiras & Videotape) teve dificuldades de conseguir financiamento e precisou ser salva pelo canal por assinatura HBO, o que prova que a televisão de fato anda bem mais corajosa do que Hollywood.

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Os irmãos Ethan e Joel Coen também já ganharam a Palma de Ouro, por Barton Fink, em 1991. Agora, apresentam Inside Llewyn Davis (ainda sem título em português), sobre um músico na Nova York dos anos 1960. Alexander Payne (Os Descendentes, 2011), que já foi membro de dois júris em Cannes e competiu com As Confissões de Schmidt, em 2002, volta com Nebraska, sobre um homem forçado a ficar com o pai por alguns dias na pequena cidade onde ele nasceu. Jim Jarmusch, que venceu o Caméra d’Or (para estreantes) com Estranhos no Paraíso, em 1984 e o Grande Prêmio do Júri com Flores Partidas, em 2005, agora exibe Only Lovers Left Alive (ainda sem título em português), uma coprodução Reino Unido-Alemanha passada entre Detroit e Tanger e protagonizada por Tilda Swinton e Tom Hiddleston.

A cota de estrelas que sempre faz sucesso em Cannes está bem representada este ano com o trio Only God Forgives, The Immigrant e Jimmy P. O dinamarquês Nicolas Winding Refn, melhor diretor em 2011 por Drive, escalou novamente Ryan Gosling para estrelar Only God Forgives (ainda sem título em português), em que ele interpreta um americano dono de um clube de boxe em Bancoc, que serve de fachada para o tráfico de drogas. James Gray, que mostrou quatro filmes anteriores no festival, agora concorre com The Immigrant (ainda sem título em português), com Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner. Na trama, uma polonesa imigra para os Estados Unidos na década de 1920 e é forçada a se prostituir. Em Jimmy P. (ainda sem título em português), o francês Arnaud Desplechin, habitué do festival, conta, em inglês, a história de um nativo americano (Benicio del Toro), ex-soldado da Segunda Guerra Mundial, tratado por um psicanalista e antropólogo francês, Georges Devereux (Mathieu Amalric).

A competição é completada pelos europeus Venus à la Fourrure (ainda sem título em português), de Roman Polanski, La Vie d’Adele (ainda sem título em português), de Abdellatif Kechiche, Michael Kohlhaas (ainda sem título em português), de Arnaud des Pallières, Un Chateau en Italie (ainda sem título em português), de Valeria Bruni Tedeschi, Borgman (ainda sem título em português), de Alex van Warmerdam, Jeune & Jolie (ainda sem título em português), de François Ozon, La Grande Bellezza (ainda sem título em português), de Paolo Sorrentino, pela coprodução França-Itália Le Passé, dirigida pelo iraniano Asghar Farhadi (vencedor do Oscar de filme estrangeiro com A Separação), pelo africano Grigris, de Mahamat-Saleh Haroun, pelos asiáticos Like Father, Like Son (ainda sem título em português), de Hirokazu Kore-eda, A Touch of Sin (ainda sem título em português), de Jia Zhangke, e Shield of Straw (ainda sem título em português), de Takashi Miike, e pelo mexicano Heli, de Amat Escalante, o único latino-americano na disputa pela Palma de Ouro.

Além de Steven Spielberg, o júri é formado por outros nomes conhecidos, como os vencedores do Oscar Nicole Kidman, Christoph Waltz e Ang Lee. O ator francês Daniel Auteuil, a atriz indiana Vidya Balan, a diretora japonesa Naomi Kawase, o cineasta romeno Cristian Mungiu e a cineasta escocesa Lynne Ramsay também vão escolher os premiados.

Paralela mais feminina – Se na competição há apenas uma cineasta do sexo feminino – Valeria Bruni Tedeschi, irmã da ex-primeira-dama da França, Carla Bruni -, na paralela Um Certo Olhar, que faz parte da seleção oficial, há uma boa quantidade: são oito produções dirigidas por mulheres entre as dezoito selecionadas, entre elas The Bling Ring, de Sofia Coppola. Recordista em participação em festivais nos últimos anos, James Franco apresenta As I Lay Dying.

O Brasil participa com dois curtas-metragens em seções paralelas (fora da seleção oficial). O paranaense Pátio, de Aly Muritiba, está na Semana da Crítica e mostra as atividades e conversas de detentos numa prisão. O mineiro Pouco Mais de um Mês, de André Novais Oliveira, participa da Quinzena dos Realizadores e conta o começo do relacionamento entre André (o próprio diretor) e Elida, sua namorada na vida real.