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‘Cliente 9’ conta os bastidores da trajetória de Eliot Spitzer com humor e detalhismo

Documentário de Alex Gibney mostra o topo de onde despencou um dos políticos mais respeitados da política norte-americana recente

Por Rodrigo Levino - 1 abr 2011, 21h22

Como de praxe nos escândalos de políticos dos EUA, a rua e os jornais se deliciaram com as fofocas de alcova

Em 1999, quando assumiu a procuradoria de justiça do estado de Nova York, aos 40 anos, Eliot Spitzer iniciou uma carreira admirável. Advogado, rico e pai de família exemplar, ele empreendeu uma perseguição implacável contra grandes corporações americanas e deu início à investigações no mercado financeiro que lhe renderam o epíteto de “O Xerife de Wall Street”.

À medida que conseguia a condenação de empresas com multas milionárias e denunciava as distorções em operações nos bancos e fundos de investimentos que em 2008 levariam a economia americana à bancarrota, Spitzer angariava popularidade, inimigos e autoconfiança.

O capital moral se transformou em base política. Em 2006 ele foi eleito governador do estado de Nova York pelo Partido Democrata com 69% dos votos válidos. Analistas políticos alegavam que Spitzer tinha credenciais para disputar palmo a palmo a indicação do partido à presidência da república. A vaga ficou com Barack Obama e Spitzer sequer entrou na disputa. Caiu antes.

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Com ar de herói, o paladino pecou por excesso de segurança e abriu um flanco – o do sexo — que tornou possível desmoronar o seu império em poucos movimentos. Cliente 9 – Ascensão e Queda de Eliot Spitzer (Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer, EUA, 2010), em cartaz no 16º Festival É Tudo Verdade, conta essa trajetória com algum humor e muitos detalhes, assemelhando-a a uma tragédia grega.

No discurso de renúncia transmitido pela TV que pronunciou aos eleitores nova-iorquinos, em março de 2008, o governador assumiu a culpa por ter se envolvido com mulheres de uma rede de prostituição de luxo. Houve gritos e espocar de champagne na Bolsa de Valores de Nova York e comemorações entre adversários políticos. Silda Spitzer postou-se ao lado do marido durante a renúncia, lhe transmitiu apoio e ofereceu uma imagem que rendeu debates acalorados entre as feministas norte-americanas. Cliente 9 era o nome com que o FBI identificou Spitzer durante as investigações — repassando-as, claro, à imprensa.

Como de praxe nos escândalos de políticos dos EUA, a rua e os jornais se deliciaram com as fofocas de alcova. Os chistes dos adversários desmoralizaram o “xerife”. Ao contrário do colega de partido, o ex-presidente Bill Clinton, pilhado sob suspeita de ter praticado sexo com uma estagiária na Casa Branca e cometido perjúrio, Spitzer tinha mais gente interessada em transformar o seu caso em um enterro político ao invés de simples piada de salão.

A narrativa montada por Gibney, um experiente diretor de documentários, funciona como um libelo contra o mercado financeiro americano e é claramente favorável a Spitzer, mas sustenta a pacialidade encaixando peças capazes de fazer crer que se engendrou contra o governador uma dedicada vingança que, na tela, às vezes se aproxima de uma comédia de erros. Ao ex-governador restou uma velha lição: quanto mais alto, maior a queda.

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Assista ao trailer do filme abaixo (em inglês)

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