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Cineasta japonesa afirma que em Cannes venceram “os maiores orçamentos”

Naomi Kawase, que disputou a Palma de Ouro, chega ao Rio para festival em sua homenagem e faz crítica à "americanização" do festival francês

“Este ano o festival estava mais comercial, sim. Para mim pessoalmente isto é ruim. No passado os filmes premiados eram mais parecidos com os que eu faço, mais originais”

Cineasta japonesa mais premiada no Festival de Cannes, Naomi Kawase, desembarcou esta semana no Brasil para, a partir de sexta-feira, 27, participar de uma mostra de 30 filmes de sua autoria no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio de Janeiro. Na bagagem a diretora traz o seu mais recente filme, Hanezu No Tsuki, que concorreu na mostra do festival francês deste ano, e algumas críticas à “americanização de Cannes”.

“Os filmes que ganharam os prêmios foram os de maiores orçamentos. O filme ganhou a Palma de Ouro (A Árvore da Vida) é estrelado por um ator famoso, o Brad Pitt. Isto dá a perfeita noção de que o festival este ano teve características diferentes do que das outras vezes que eu participei. Este ano o festival estava mais comercial, sim. Para mim pessoalmente isto é ruim. No passado os filmes premiados eram mais parecidos com os que eu faço, mais originais”, queixa-se a cineasta.

Naomi evita falar diretamente sobre a relação entre a nacionalidade do presidente do júri – este ano a cargo de Robert De Niro, um norte-americano – e os resultados desta edição da competição em Cannes. Porém, lembra que outra estrela famosa dos Estados Unidos, a atriz Kirsten Dunst, saiu vitoriosa.

Se por um lado a cineasta japonesa levanta dúvidas sobre a ‘americanização de Cannes’, por outro, faz um elogio à predominância da arte sobre a política. Para Naomi Kawase, Kirsten, que atuou ao lado da a inglesa Charlotte Gainsbourg em Melancolia, foi a grande vencedora do festival por ter saído incólume das farpas atiradas no diretor dinamarquês Lars Von Trier, banido de Cannes depois de afirmar que simpatizava com Hitler. “A Kirsten Dunst venceu o prêmio de melhor atriz e isso mostra que os jurados não foram influenciados pela coisa do nazismo. Não teve censura artística no festival. Os filmes tiveram julgamentos artísticos e não políticos”.

Declarações antissemitas – Naomi acredita que a polêmica em torno das declarações antissemitas do diretor acabou tirando a atenção da mídia internacional e do público dos filmes apresentados, diminuindo a visibilidade dos filmes e dos artistas. “Os jornalistas falaram bastante sobre o assunto”, ironiza.

Dona de uma extensa filmografia, premiada em Cannes por filmes como Suzaku, prêmio Câmera d’Or de 2009; e A Floresta dos Lamentos, Grande Prêmio de 2007, Naomi diz que os rumos dos festivais não vão mudar seu estilo de filmar – ainda que a fidelidade a um conceito artístico a mantenha à margem do grande público. E as histórias simples sobre solidão, morte e família ainda serão, por muito tempo, seus temas preferidos.

Apesar de não dialogar com o universo mais rentável e mais populoso dos espectadores de cinema, Naomi se diz surpresa com a recepção de seus trabalhos no Brasil. “Talvez pelo fato de existir aqui uma grande comunidade japonesa, com muitos descendentes, meus filmes estejam sendo mais vistos no Brasil”, avalia.

A mostra O Cinema de Naomi Kawase ficará em cartaz até domingo no CCBB do Rio de Janeiro. Nesta sexta-feira, a cineasta falará com o público após a apresentação de Hanezu no Tsuki, que será exibido, em primeira mão, na sessão das 18h30 do Cinema 1.

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