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Cineasta Eduardo Coutinho é morto no Rio

Filho é o principal suspeito do assassinato, segundo jornal 'O Globo'

O cineasta Eduardo Coutinho, de 80 anos, foi morto no Rio de Janeiro, informou na tarde deste domingo o site do jornal O Globo. O corpo de Coutinho foi encontrado em sua casa, no bairro da Lagoa, Zona Sul do Rio.

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O principal suspeito do assassinato é seu filho, Daniel Coutinho, de 41 anos, que sofreria de esquizofrenia. Ele teria matado o pai a facadas. Coutinho, o filho, também teria tentado assassinar a sua mãe, Maria das Dores de Oliveira Coutinho, de 62 anos. Ela foi vítima de duas facadas no peito, três no abdômen e uma lesão no fígado. A esposa do cineasta passou por cirurgia e está em estado grave no Hospital Miguel Couto.

O filho do documentariasta também deu entrada no mesmo hospital, com duas facadas no abdômen e seu quadro é estável. O caso está sendo investigado pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil.

Trajetória – Eduardo de Oliveira Coutinho nasceu em 11 de maio de 1933 em São Paulo. Abandonou o curso de Direito na década de 1950 e trabalhou como revisor na revista Visão entre 1954 e 1957. Dirigiu a peça infantil Pluft, o Fantasminha, escrita por Maria Clara Machado, antes de rumar para Paris, onde estudou direção e montagem no Institut des Hautes Études Cinématographiques (Idhec) até 1960.

De volta ao Brasil, Coutinho integrou o Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). Na entidade, ele trabalhou na montagem da peça Mutirão em Nosso Sol em parceria com o dramaturgo Chico de Assis, apresentada em 1962. Coutinho também participou da produção do primeiro longa-metragem do CPC, Cinco Vezes Favela (1962), como gerente de produção.

Seu segundo projeto com o grupo começaria a ser idealizado logo depois. Coutinho tinha planos de fazer um filme ficcional, mas com base em fatos reais, sobre o assassinato de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, de Pernambuco. Sua ideia era a de trazer os próprios camponeses do Engenho Cananeia, no interior do Estado, para a frente das câmeras, inclusive a esposa de Teixeira, Elizabeth, que interpretaria a si mesma.

As filmagens do longa que se chamaria Cabra Marcado para Morrer tiveram início em 1964, mas duraram apenas duas semanas, interrompidas pelo Golpe Militar. Parte da equipe de Coutinho foi presa, acusada de realizar práticas comunistas, e a outra dispersa pelo movimento. O filme só foi retomado em 1981, quando o cineasta encontrou negativos que haviam sido escondidos por um membro de sua equipe. Coutinho decidiu, então, mudar a concepção do filme, transformando-o em um documentário sobre a interrupção de suas filmagens e sobre a vida real das pessoas que seriam os atores do longa. Cabra Marcado para Morrer foi finalizado e lançado em 1984.

Nas décadas de 1960 e 1970, atuou como roteirista de filmes como A Falecida (1965), de Leon Hirszman, e Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto. O cineasta dirigiu algumas produções de ficção, como O ABC do Amor (1967), O Homem que Comprou o Mundo (1968) e Faustão (1971), mas foi ao gênero documentário que Coutinho dedicou a vida. Em 1975, entrou para a equipe do Globo Repórter, programa para o qual dirigiu os filmes O Pistoleiro da Serra Talhada (1976), Seis Dias em Ouricuri (1976) e Teodorico, Imperador do Sertão (1978), entre outros.

Coutinho ficou no semanal até 1984, quando decidiu se dedicar somente ao cinema. Entre seus principais trabalhos estão os documentários Santo Forte (1999), Edifício Master (2002), Peões (2004), Jogo de Cena (2007) e As Canções (2011), seu último trabalho. O cineasta ganhou diversos prêmios ao longo de sua carreira, como o Kikito de Cristal, no Festival de Gramado, pelo conjunto de sua obra, em 2007.

‘Cabra Marcado para Morrer’ (1984)

Idealizado em 1964, o filme contaria a história do assassinato de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, de Pernambuco. O longa, ainda que baseado em fatos reais, seria tratado como ficção e teria interpretações dos próprios camponeses. Com o Golpe Militar, as filmagens foram interrompidas e o cineasta só retomou o filme em 1981, mas o transformou em documentário, abordando a interrupção das gravações e a vida real daqueles que seriam os atores do filme. 

‘Santo Forte’ (1999)

O documentário trata da relação de moradores da favela Vila Parque da Cidade, na Gávea, bairro do Rio de Janeiro, com diferentes religiões. Coutinho e sua equipe entrevistaram onze pessoas em 1997, ano em que o então Papa João Paulo II celebrou uma missa no Rio, durante sua passagem pelo Brasil. Diante da câmera atenta do cineasta, católicos, evangélicos e umbandistas dividem suas visões sobre a fé e o sobrenatural.

‘Babilônia 2000’ (2000)

Por 12 horas, as equipes de Coutinho filmaram os preparativos para a virada do ano de 1999 para o de 2000, em duas favelas do Rio de Janeiro, Chapéu Mangueira e Babilônia, em Copacabana.  Durante a preparação para as festas, os moradores falam sobre suas vidas e seus desejos para o novo ano. 

‘Edifício Master’ (2002)

Eduardo Coutinho mostra o dia a dia dos moradores do Edifício Master, tradicional prédio residencial de Copacabana, no Rio de Janeiro. No edifício, o cineasta conversa com 37 pessoas, que dividem suas histórias, sonhos e desejos. 

‘Jogo de Cena’ (2007)

Em uma mistura de ficção e realidade, Jogo de Cena apresenta mulheres comuns que contam suas histórias de vida a Eduardo Coutinho. As cenas, então, são regravadas e reencenadas por conhecidas atrizes, como Marília Pêra e Fernanda Torres, a partir de suas interpretações dos relatos. 

‘As Canções’ (2011)

A partir do depoimento de 18 personagens, Coutinho aborda o cancioneiro brasileiro. O diretor pede que cada pessoa conte qual a canção brasileira que mais marcou sua vida e explique o porquê. Os entrevistados, claro, também cantam as músicas, emocionados com as lembranças que elas trazem.