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Cidade que vai surgindo

José Lins do Rego

O dia está de um céu azul luminoso e a lagoa parada, de águas sem um movimento, tudo na mais doce paz deste mundo. Podem-se ver os morros, como se estivessem cobertos de uma névoa esverdeada. É um dia que não é raro nesta pacífica Rodrigo de Freitas. Dizem que Zweig achava tudo isto por aqui de muita semelhança com pedaços da Suíça. À noite, ao clarão branco da lua, talvez que os morros se pareçam com as montanhas de cartão postal. À noite, todos os gatos são pardos. Agora, nesta amanhã que afago com os meus olhos, esta é mesmo a nossa Lagoa Rodrigo de Freitas, toda ridente, ao sol que faísca pelas suas águas.

Saio de casa para andar um pouco. Quero ser mais íntimo desta beleza uqe ninguém arrebatará de nosso domínio. E quando dobro para os fundos do Jockey Clube vejo uma coisa que me espanta. Há um formigueiro de gente, há uma agitação de povo, lá para as bandas dos paredões da pista. Vejo, então, o que não queria ver. Era o povo do morro que desceram com os seus barracos na cabeça para enfincá-los ali. Uma cidade, de lata, de barro, de capim, de lama, de tábuas, surgia como por encanto, pegada às paredes altas da cidadela dos cavalos ricos.

Fui me chegando para perto e fui vendo a miséria carioca a olho nu. Caminhões da Prefeitura iam aparecendo como lixo e a lama para o aterro que estão a fazer. Mas os engenheiros da nova cidade não paravam. Havia um negro velho, com a camisa para fora das calças, dando ordens: “A sua casa ia ser aqui, dizia ele para uma negra, com cara de choro, mas não pode ser mais. PE preciso tirar esta lama que o caminhão deixou ontem à noite, para poder a gente trabalhar.”

Já havia casa feita com moradores em pleno gozo da propriedade. Na frente era a lagoa, toda ridente, atrás o muro amarelo do Jockey. O negro me disse: “Isto aqui é de primeira. Temos essa lagoa que dá tudo. É uma mãe. Dela comemos. Peixe nos dá. Nela fazemos as serventias da casa. É de primeira. E tem este paredão que ajuda a gente contra os ventos.”

Vi uma casa coberta de capim. Era como se fosse um chiqueiro de porco, em cima da lama fedorenta. Mas havia também uma outra de tijolo e telha. Um palacete dominando a rafameia. Era de um condutor da Light. Tudo aquilo crescera da noite para o dia. O comércio se estabelecera logo. Uma quitanda lá estava, com um menino de lenço no queixo vendendo as mercadorias. Podia ter uns seis anos, este jovem comerciário. E por toda parte uma azáfama de cortiço. Trabalhavam homens, mulheres, meninos. De vez em quando parava um caminhão e deitava lixo e lama bem na cara dos cidadãos da nova cidade. Não era nada. Só fazia feder. Eles já estavam acostumados. Melhor do que o vento frio, a chuva. Eles agora estavam abrigados. Podia a lama e o lixo federem à vontade.

Uma mulher num carrinho de mão levava uma terra imunda de lixo para o lado de uma casa já construída. Era para adubar de monturo a horta que estava plantando. Já havia meninos brincando de papagaio. Outros sacudiam pedras na lagoa, e gritavam naquele milheiro como periquitos.

Eram todos sujos e magros.

Fui voltando para casa, constrangido. Era o dia de uma beleza de espanto, e havia ali, a dois passos, aquele mundo que parecia de página de romance demagógico. Era uma realidade brutal que me esmagava. Nasce uma cidade de lama ao pé do hipódromo mais belo do mundo.

Aí vem o grande prêmio. As modistas já estão a imaginar maravilhas para o acontecimento. Há cavalos comendo gemas de ovo, e um bom vinho do Porto como lorde inglês, para a corrida sensacional. Eu aconselharia o Sr. Prefeito a ver a cidade nova que vem nascendo.