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CCBB-SP expõe a diversidade e as obsessões de Picasso

Aberta nesta quarta-feira ao público, a mostra ‘Picasso e a Modernidade Espanhola’ reúne 90 obras do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia em um rico painel dos temas e paixões do pintor espanhol

Pablo Picasso era um homem insaciável e repleto de obsessões, uma delas pelo conto francês A Obra Prima Ignorada. Na história de Honoré Balzac, um artista está obstinado em produzir uma obra tão colossal que acaba por realizar algo ininteligível. Picasso temia exatamente isso: o espanhol perseguia a ideia fixa de realizar uma obra prima que fosse compreendida por todos de alguma maneira. E conseguiu concretizar não só uma, mas várias obras, parte delas reunida na mostra Picasso e a Modernidade Espanhola, que chega nesta quarta-feira à sede do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo e segue em junho para a sede da instituição no Rio de Janeiro. Ao todo, a exposição conta com 90 peças trazidas do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, de Madri, que provam a qualidade e também a versatilidade de um artista que nunca se prendeu a um único estilo. A mostra fica em cartaz no CCBB-SP de 25 de março a 8 de junho e, no CCBB-RJ, de 24 de junho a 7 de setembro.

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A diversidade de linguagens e linhagens artísticas não era para Picasso a exceção, mas a regra, e é essa característica que deve saltar aos olhos dos visitantes de Picasso e a Modernidade Espanhola. Um mesmo tema podia ser elaborado segundo escolas diversas: da arte primitiva ao classicismo resgatado por ele; do cubismo ao surrealismo ou, então, como um compromisso político, caso da monumental Guernica, uma das estrelas dessa mostra, aqui abordada a partir de estudos e projeções interativas. É muito raro que uma obra de Picasso seja um produto só, sem réplicas ou variações. “Picasso tem a qualidade de sobreviver e de ser diverso”, disse o curador Eugenio Carmona, professor de história da arte da Universidade de Málaga, conterrâneo do pintor, em apresentação para convidados no domingo, no CCBB-SP.

Não se espera menos, é verdade, do mestre nascido na costa da Andaluzia em 1881, filho de um professor de desenho e pintor bissexto que aos 9 anos já fazia uma tela por dia. Na faixa dos 30 anos, Picasso alcançou o posto de artista milionário. Ao final da década de 1960, durante o período de explosão da juventude, era um ancião de 80 anos que estampava capas de revista como símbolo de criatividade e de vitalidade. Em 1973, ao morrer com 91 anos, ele deixou um legado valioso de pelo menos 30 000 trabalhos.

Picasso e a Modernidade Espanhola ocupa todo o prédio do CCBB paulista. Do quarto andar ao subsolo, ordem recomendada para a visita, a exposição vai além das telas e esculturas em oito núcleos temáticos organizados para compartilhar histórias sobre o modernismo, o processo de criação, o imaginário do artista e a relação estabelecida entre Picasso e outros nomes significativos da arte no século XX, como Dalí, Miró, Oscar Dominguez, Juan Gris e Julio Gonzalez. “Nós nos preocupamos em trazer obras importantes e, principalmente, peças que podem surpreender o público pelas histórias que contam”, disse Carmona, responsável pelos textos explicativos afixados junto a cada obra da mostra.

A cronologia também tem importância para a curadoria. Depois de dedicar um andar para uma espécie de painel da carreira do pintor, com um apanhado de temas como o artista, a modelo, a modernidade, a realidade, a suprarrealidade, a forma, o Minotauro e a tragédia, a mostra passa a seguir uma linha temporal. O tema do artista e da modelo é muito caro ao pintor, e nesse recinto podem ser observadas obras significativas em sequência: Cabeça de Mulher (1910), Retrato de Dora Maar (1939), Mulher Sentada Apoiada sobre o Cotovelo (1939) e O Pintor e a Modelo (1963). São obras importantes, nas quais ele se sente muito livre em experimentar cores, formas e traços, mas, ao mesmo tempo, se sente preso aos grandes mestres evocados nessas pinturas, como Velazquez e Durero. O culto à figura feminina, por sua vez, é também o culto ao desejo que move o produtor da arte.

“Picasso não faz distinção entre trabalhar e desejar. Para ele, o trabalho não é uma proibição, é viver”, argumentou Carmona. “Essas telas compõem o sentido da modernidade de Picasso. Uma arte figurativa, com conteúdo, em que o valor plástico é o mais importante, em que uma linha ou uma cor tem vários significados e o artista é capaz de investigar a forma de implantar o encontro com a psicologia, recuperar o classicismo e combinar as linguagens da arte.”

No terceiro andar do CCBB-SP, o segundo a ser visto pelo visitante, encontram-se peças criadas por volta de 1910, quando Picasso começa a retrabalhar o mito da Ilha de Creta. O touro, um dos alter-egos do artista, é a representação da obscuridade, do sinistro, enquanto o cavalo, outro símbolo bastante empregado pelo pintor, remete ao povo sofrido. Ambos são vistos juntos no segundo andar, onde uma sala interativa é voltada para Guernica, talvez a obra-prima máxima do pintor, feita a partir da Guerra Civil Espanhola (1936 e 1939). Já o subsolo abriga obras produzidas após a Segunda Guerra Mundial, em fins dos anos 1950. A organização pensada pelo curador se preocupa em deixar claro que a produção de Picasso deve ser entendida em sua continuidade, além de enaltecer que aquilo que é exibido é nada menos do que o resultado de anos de estudo e pesquisa sobre a obra dele.

A escolha do Brasil para a exibição da mostra, segundo Eugenio Carmona, que traz a exposição ao país depois de sua apresentação em Florença, onde ficou em cartaz até 25 de janeiro, não é aleatória. “Escolhemos o Brasil porque é uma nação que está fortemente marcada em nossa memória cultural. Guernica esteve em São Paulo em um momento que foi importantíssimo”, disse Carmona, lembrando a Bienal de São Paulo realizada em 1953, que recebeu o painel, então sob a guarda do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) a pedido do próprio Picasso, que não autorizava a sua volta à Espanha até que o país retomasse a democracia. A obra só retornaria em 1981. Nesse contexto, a vinda de Guernica a São Paulo foi marcante. Não à toa, a mostra realizada no CCBB é finalizada por obras de artistas premiados durante a 2ª Bienal, de 1953. “Depois da guerra civil, a Espanha vivia uma época obscura. Foi graças à Bienal de SP e a esses artistas, que conseguiram ser premiados, que a nossa arte voltou a ser uma arte reconhecida internacionalmente”, disse Carmona. Graças a Picasso.