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Casa de Vidro de Lina Bo Bardi recebe intervenção da dupla Gilbert e George

Exposição também reúne obras de artistas como Cildo Meireles, Alexander Calder, Cinthia Marcelle e Waltercio Caldas, mas destaque é mesmo a dupla britânica considerada precursora da arte performática

Beirando os 70 anos, a dupla de artistas britânicos Gilbert e George raramente sai dos arredores de sua casa, no East End londrino. A reclusão está relacionada à crença de ambos de que a vizinhança é um microcosmo da sociedade. Por isso, a presença dos dois – considerados os precursores da arte performática – no Brasil é um fato raro. Mais de 30 anos depois da última visita ao país, durante a 16ª Bienal de São Paulo, Gilbert e George voltam como integrantes da exposição coletiva O Interior Está no Exterior, que abre à visitação pública em novembro. A arte da dupla vai integrar o projeto do curador suíço Hans Ulrich Obrist, que traz ao país mais uma de sua série de mostras organizadas em casas-museu.

Obrist escolheu a Casa de Vidro, projetada por Lina Bo Bardi em 1950 e habitada por ela e o marido Pietro Maria Bardi. O endereço no bairro do Morumbi, em São Paulo, foi o ponto de partida para as obras inéditas de Gilbert e George, Cildo Meireles, Alexander Calder, Cinthia Marcelle, Waltercio Caldas e da dupla de arquitetos japoneses Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, fundadores do renomado escritório Sanaa. Os artistas criaram trabalhos para se encaixarem à intimidade do casal Bardi – que vão ficar expostos como parte da decoração da Casa de Vidro até maio de 2013.

O conceito foi pensado por Obrist para compor a exposição por meio de uma atmosfera de intimidade, assim como fez na mostra que organizou na casa do escritor alemão Friedrich Nietzsche, em 1992, e no endereço do arquiteto mexicano Luis Barragán, em 2002. “A primeira exposição que organizei na minha vida foi dentro da cozinha da casa dos meus pais. Foi essa dimensão caseira que quis repetir nesse projeto”, diz Obrist.

Para a versão brasileira do projeto de exposições em casas-museu de Obrist, Gilbert e George encenaram o seu conceito de escultura viva no local, basicamente posando um ao lado do outro em frente à lareira e diante da janela na sala de estar da residência. A obra é justamente a presença dos dois nesses ambientes e a foto serve para perpetuar o momento e mostrá-lo aos demais visitantes. Até os trajes impecáveis – ambos usam ternos no mesmo corte, pares de sapatos idênticos e chapéus elegantes – fazem parte da obra, que fica entre a performance e a escultura. Desde 1968, quando deram início à trajetória artística em parceria, os dois, que são também um casal, se vestem de maneira formal para turbinar o conteúdo provocativo de suas aparições, quase sempre críticas à sociedade e ao preconceito contra homossexuais.

Junto com as performances de esculturas vivas de Gilbert e George, O Interior Está no Exterior exibe também uma maquete criada pelo Sanaa que sugere uma nova disposição para a biblioteca da Casa de Vidro, onde o casal Bardi costumava trabalhar. Duas caricaturas feitas pelo americano Alexander Calder, em 1958, estão penduradas na sala de estar.

O artista plástico Cildo Meireles se inspirou na intimidade dos moradores da Casa de Vidro para criar a obra Pietro M. Bardi. A peça consiste na impressão da frase “Lina, va fare um caffé”, dita pelo marido italiano toda vez que Lina se excedia em discussões políticas com convidados.

Mais do que abrigar a exposição, a primeira construção projetada por Lina Bo Bardi volta a receber atenção como uma espécie de preparativo das comemorações do centenário da arquiteta, que se completa em 2014. “Até lá, pretendemos recuperar grande parte da obra de Lina, que está muito mal cuidada”, diz o diretor do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi Renato Luiz Sobral Anelli.