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Caco Ciocler explora faces de Kafka em ‘A Construção’

Por AE

São Paulo – O ator Caco Ciocler já estava à procura de um texto significativo para levar ao palco quando entrou em contato com “A Construção”, uma das últimas obras do escritor checo Franz Kafka (1883-1924), que morreu antes de finalizar o conto. Encantado com o que leu, Ciocler chegou a considerar dirigir um filme sobre a trama, mas é no teatro que o projeto se concretiza. Depois de uma série de ensaios abertos, que lotaram a Caixa Cultural neste mês, o espetáculo estreia hoje no Sesc Pompeia já com as entradas para as primeiras apresentações esgotadas.

Com múltiplas leituras possíveis, a peça dá voz a um ser indefinido que se esconde no subterrâneo. A dificuldade em definir essa criatura foi o que levou o ator a pensar que o texto seria melhor explorado em um filme. “Não se sabe se é uma toupeira, um rato. Eu achava interessante que isso não se resolvesse. Pensei que no cinema, usando penumbras, fosse mais fácil manter isso”, diz. “Ele podia ser mostrado por meio de câmeras de segurança, talvez”, completa o ator, de 40 anos.

Ciocler convidou Walter Carvalho para assinar a direção do filme. No entanto, os planos mudaram. A ideia seguinte, então, foi montar um espetáculo híbrido, no qual os espectadores apenas pudessem ver o ator através de câmeras instaladas no local. Nessa fase, Ciocler convidou Gero Camilo para atuar. Os dois ainda pensaram em se dividir entre os dois papéis, mas as agendas da dupla eram incompatíveis.

Com o projeto ainda na manga, Ciocler conheceu o diretor e dramaturgo Roberto Alvim. Juntos, estrearam “45 Minutos”, em 2011, espetáculo que discutia a função do ator na sociedade e, ainda, a concepção de arte versus entretenimento. Agora, a parceria se repete. Alvim é, inclusive, responsável pela adaptação do texto de Kafka, que, de alguma forma, dá continuidade ao debate proposto anteriormente por eles. “O 45 era um questionamento. Já A Construção é uma possível resposta. A peça causa um assombro. Tudo o que eu busco na arte é o assombro”, diz Ciocler.

Com pouquíssima iluminação, a montagem dá espaço para que o espectador preencha as lacunas à sua maneira. Além de Ciocler, há em cena um segundo homem, que não fala em momento algum, mas aumenta a tensão. Por causa do escuro, o público leva um tempo para notar sua presença. Não se sabe se essa segunda figura, que se veste com sobretudo e chapéu, seria uma representação da maneira como o próprio escritor se apresentava para o mundo exterior, confrontando com o ser de pijamas e papéis em punho, que surge fazendo seu discurso inflamado. “Também pode ser o pai do Kakfa, que era muito opressor e não aprovava a mania de escrever do filho. Na verdade, pode ser qualquer coisa. É um texto que trata do outro, que, assim, está presente”, esclarece o ator. As informações são do Jornal da Tarde.

A Construção – Sesc Pompeia (Rua Clelia, 93). Tel. (011) 3871-7700. Estreia hoje, às 21h. Sexta e sábado, às 21 h. Domingo, às 19h. Até 25/3. Sessões extras: 20 e 21/2, às 21h. Ingressos: R$ 24 (esgotados até 4/3). 16 anos.