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Cabra da peste

Expoente da geração nordestina que tomou de assalto a música brasileira nos anos 70, o pernambucano Alceu Valença lança dois ótimos discos e estreia como cineasta

Em 1972, dois cabeludos saídos de Pernambuco bateram à porta de Jackson do Pandeiro em Olaria, Zona Norte do Rio. Alceu Valença e Geraldo Azevedo queriam que o intérprete de Forró em Limoeiro e Sebastiana, entre outros sucessos do cancioneiro nordestino, cantasse com eles num festival de MPB. Jackson achava que a geração roqueira dos anos 60 e 70 estava tomando o lugar da música regional – e, ao deparar com aqueles jovens com jeitão ripongo, deu por certo que eles faziam rock. Mas Papagaio do Futuro, composição de Alceu que concorreria no festival, era uma embolada – e caiu no gosto do chamado “Rei do Rojão”. É Alceu Valença quem relembra a reação de Jackson do Pandeiro ao ouvir a canção: “Foi logo chamar a irmã: ‘Venha conhecer esses cabeludos que não são cabras safados’, ele disse”. Passados 42 anos, o compositor pernambucano mostra que é, isso sim, um cabra da peste. Prova disso é sua produção discográfica, caso raro em que a quantidade corresponde à qualidade. Em 2014, ano em que se completam quatro décadas do lançamento de Molhado de Suor, sua impactante estreia em disco-solo, Alceu lançou dois álbuns. Amigo da Arte, com um repertório à base de frevos, cirandas e maracatus, muitos deles releituras de seus trabalhos anteriores, chegou às lojas em fevereiro. Na semana passada foi a vez de Valencianas, no qual sucessos como Coração Bobo, Anunciação e La Belle de Jour são recriados em versões orquestrais, com execução da competente Orquestra Ouro Preto. E o cabra ainda está se arriscando no cinema. Ele dirige A Luneta do Tempo, uma história de cangaço com diálogos em ritmo de cordel – o roteiro, claro, é do próprio Alceu. A produção, que deve chegar ao circuito comercial só no ano que vem, levou os prêmios de trilha sonora e direção de arte no 42º Festival de Cinema de Gramado. Entre roteiro, captação de recursos, escalação de elenco (Irandhir Santos e Hermila Guedes estão espetaculares como Lampião e Maria Bonita) e filmagem, Alceu demorou quinze anos para concluir o trabalho.

Alceu Valença, 68 anos, é parte da talentosa geração que, na década de 70, promoveu o namoro, o noivado e o casamento do som do agreste nordestino com a guitarra elétrica. Os cearenses Belchior, Ednardo e Fagner, o pernambucano Geraldo Azevedo (além do próprio Alceu) e os paraibanos Zé Ramalho e Elba Ramalho, entre tantos outros daquele período, renovaram uma tradição que incluía a literatura de cordel, o forró, o baião, a pungência dos cantadores e até influências mouriscas. A distorção das guitarras e a eletricidade dos violões ampliaram o volume desse discurso, que se identificou com a contestação do rock. “É uma geração que trouxe o Nordeste à tona”, diz Geraldo Azevedo. De todos, Alceu Valença é quem melhor assimilou a energia do rock. Ela se reflete na vibração de suas apresentações ao vivo e na força de discos como Espelho Cristalino (1977) e Cinco Sentidos (1981). No entanto, será absurdo dizer que ele é um roqueiro. “Posso cantar rock e blues, mas eles não estão dentro de mim”, diz Alceu. Paulo Rafael, guitarrista e braço-direito do cantor e compositor pernambucano, explica que a eletricidade, na música de Alceu Valença, é regional: “Muitas vezes, o Alceu pedia que a guitarra trouxesse uma sonoridade nordestina, que remetesse aos pífanos ou à rabeca”.

CANGAÇO LÍRICO – Hermila Guedes e Irandhir Santos em 'A Luneta do Tempo': na estreia de Alceu Valença como diretor, diálogos em ritmo de cordel CANGAÇO LÍRICO – Hermila Guedes e Irandhir Santos em ‘A Luneta do Tempo’: na estreia de Alceu Valença como diretor, diálogos em ritmo de cordel

CANGAÇO LÍRICO – Hermila Guedes e Irandhir Santos em ‘A Luneta do Tempo’: na estreia de Alceu Valença como diretor, diálogos em ritmo de cordel (/)

O sucesso comercial na carreira de Alceu Valença chegou em 1982, com o disco Cavalo de Pau (dos sucessos Tropicana e Como Dois Animais). Mas ele passou por apuros até saborear esse momento. Quando era contratado da Som Livre, nos anos 70, foi queixar-se do atraso no lançamento de Espelho Cristalino. Sonhava então com um convite da rival PolyGram. “Eu estava conversando com o João Araújo, presidente da Som Livre, que insistia em me manter na companhia. De repente o Tim Maia entrou na sala, reclamando que não estava sendo pago. Tim esmurrou a parede e depois caiu em lágrimas”, lembra. O executivo da Som Livre não teve paciência para lidar com dois reclamantes ao mesmo tempo: na hora, liberou Alceu Valença de seu contrato. Na PolyGram, o músico foi conversar com Paulo Coelho – sim, o futuro autor de O Alquimista -, que então era um dos diretores da gravadora. “Ele pediu licença para ir ao banheiro e nunca mais apareceu na sala. Acho que saiu de lá direto para o Caminho de Santiago”, conta Alceu. O músico passou então um período na França, fazendo shows esporádicos e trabalhando em suas composições. Em 1980, assinou contrato com a multinacional Ariola, que estava iniciando suas atividades no Brasil. “Alceu e Elba traziam uma sonoridade diferenciada do Nordeste”, diz Marco Mazzola, executivo responsável pela contratação dos dois.

Alceu Valença sobreviveu ao estouro do rock nacional na segunda metade dos anos 80 e ao declínio criativo que acometeu boa parte de seus companheiros de levante nordestino. Nos anos 90, porém, seu nome era citado com certo desprezo pelos jovens do manguebit, movimento encabeçado pelos grupos Chico Science & Nação Zumbi e mundo livre s/a. Para essa geração, Valença era identificado como representante da velha e institucional MPB, e não como revolucionário da sonoridade nordestina (o próprio Chico Science, porém, nunca mostrou nenhuma animosidade em relação ao cantor). A desconfiança geracional vem se dissipando. É nítida a influência de Alceu em cantores como Silvério Pessoa, da segunda leva do manguebit. Bandas de rock como Anjo Gabriel não escondem sua admiração pelo trabalho do cantor. “Mas só a fase roqueira”, adverte o baixista e vocalista Marco da Lata. A homenagem menos ortodoxa veio do Hanagorik, banda que recriou os sucessos de Alceu em versão metaleira. A produção é de Zé da Flauta, parceiro e ex-integrante da banda do cantor. “Alceu é um roqueiro cantador”, define Da Flauta. Cabra da peste, esse Alceu Valença.

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