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Bruna Caram: ‘MPB é uma sigla que já não quer dizer nada’

No terceiro disco, que a cantora comenta em primeira mão com o site de VEJA, ela implode rótulos ao misturar música brasileira a toques de jazz, blues e pop

Se fosse possível resumir o novo disco da paulista Bruna Caram, Será Bem-Vindo Qualquer Sorriso, em apenas uma frase, seria um dos versos da música que dá nome ao trabalho: “Eu me sinto disposto a ser bem melhor do que já fui”. A letra não foi escrita por ela, mas pelo primo Paulinho Novaes. No entanto, tem tudo a ver com o novo momento da cantora. Na estrada há 17 anos (ela começou aos 9), primeiro nos Trovadores Mirins, depois no Trovadores Urbanos e há seis anos em carreira solo, Bruna diz que esta foi a primeira vez que se sentiu à vontade para ousar. Como resultado, o álbum, o seu terceiro, é o mais maduro e eclético até agora.

A cantora de 26 anos cresceu cercada de músicos – a avó Maria Piedade era cantora de rádio, o avô toca choro e vários tios são cantores – e sob a influência de música brasileira. O novo disco, porém, traz um “sotaque” internacional, com toques de jazz, blues e música pop, como se vê no trabalho de cantoras como Amy Winehouse – que ela reconhece ser uma das referências para este álbum.

“Culpa” de seu novo produtor, Otavio de Moraes, que tem no currículo os discos mais importantes da dupla Sandy & Junior. Com pegada diferente, os dois primeiros álbuns de Bruna, Essa Menina, de 2006, e Feriado Pessoal, de 2009, haviam sido produzidos por Alexandre Fontanetti, que já trabalhou com Rita Lee e Zelia Duncan. “Sempre tive vontade de arriscar algumas coisas, mas também tinha medo. Com o Otavio, me soltei, falei: ‘Vou realizar todos os meus sonhos'”, diz a cantora.

Além da troca de produtor, as mudanças musicais se devem à saída da gravadora Dabliú Discos – amigável, aliás. “Tinha contrato para gravar dois álbuns e, caso quisesse ficar mais, poderia conversar. Mas achei até bom sair, pois já não estava tão próxima da empresa”, diz. “O que é legal de ter gravadora é que ela te promove, te põe na TV… Mas, ao mesmo tempo, falta grana para bancar o que você quiser fazer.”

Decidida a lançar o trabalho de forma independente, Bruna captou recursos via Lei Rouanet. “Achei que era o melhor negócio. Pela primeira vez, pude fazer o que eu queria, sem ter alguém dizendo como tinha que ser o repertório, em quanto tempo eu tinha que gravar e com quem. Nada melhor do que ter liberdade.”

Leia abaixo trechos da entrevista com Bruna Caram.

Este é seu primeiro trabalho fora de uma gravadora. Por que decidiu ser independente? Antigamente, o artista escolhia ser independente porque sabia que ninguém iria comprar seu disco, mesmo. Hoje, é diferente. Conversando com amigos da nova geração, percebi que quem está em gravadora não vê nada demais nisso e quem está fora está muito bem. O legal da gravadora é que ela te promove, te põe na TV… Mas, ao mesmo tempo, falta grana para bancar o que você quiser fazer.

Chegou a procurar gravadoras para lançar o disco? Eu recebi e estudei algumas propostas, mas, como tentei a Lei Rouanet e consegui, achei que era o melhor negócio. Quando gravei o primeiro disco, a equipe veio pronta. E agora, pela primeira vez, eu pude fazer o que queria, fazer do meu jeito, sem ter alguém dizendo como tinha que ser o repertório, em quanto tempo eu tinha que gravar e com quem. Nada melhor do que ter liberdade. E isso ainda casou com o tema do disco, que é independência, recomeço, redescoberta, frescor.

++++1 Pergunta para Bruna Caram:

O que a frase “qualquer sorriso será bem-vindo” significa para você? Escolhi essa música para abrir o álbum e esse verso como título do CD, porque é uma maneira de introduzir essa e as outras faixas. Tudo está relacionado com o que passei para lançar o disco. Em Feriado Pessoal, eu queria mostrar todas as minhas facetas para o público. Agora, queria justamente o contrário: mostrar uma Bruna só. Queria me mostrar de maneira mais íntima. Perdi meus medos, travas, as aflições que tinha em relação a gravar um disco. Eu queria saber até onde podia chegar sem bengalas.

Por que você escolheu Otavio de Moraes para produzir o disco? Quem me indicou o Otavio foi o (cantor) Dani Black, que é meu amigo. Ele me falou que ele era o cara, que tinha produzido coisas meio pop, como Sandy & Junior, mas que por isso mesmo era muito bom, muito aberto a tudo. Eu entrei em contato com ele pelo Facebook e o convidei para um show. A gente conversou muito, demorou para eu decidir gravar com ele, mas fiquei feliz com o resultado, e a gente acabou tendo a mesma cumplicidade que eu tinha com o Fontanetti.

Há duas músicas no disco que usam acordeon, o que é curioso, porque, no começo do mês, o jornal inglês The Guardian deixou muita gente irritada quando, em uma resenha sobre Michel Teló, disse que o instrumento não tinha mais vez na música pop. O que você acha disso? (Risos.) O acordeon é meu instrumento favorito, é o timbre que mais me emociona no mundo. O Marcelo Jeneci está aí para provar que o acordeon está na moda. Tudo bem que o gênero dele é MPB, mas até aí MPB é uma sigla que já não quer dizer praticamente nada. Nesse disco, eu ainda tive a sorte de ter conseguido contar com o Toninho Ferragutti, que talvez seja o maior acordeonista do Brasil.

Esse disco tem influências diferentes de seus dois trabalhos anteriores. Por quê? Eu nunca me importei muito com os gêneros musicais, atentava mais para as letras das canções. Mas, na minha primeira reunião com o Otavio, levei algumas músicas que achava a minha cara — Madeleine Peyroux, Norah Jones, Lily Allen, Amy Winehouse, Zé Rodrix, Caetano Veloso e Gilberto Gil… — e, quando ouvimos juntos, ele comentou que havia muito blues ali. Eu nunca tinha percebido que gostava tanto do gênero. Acabamos misturando as minhas referências de música brasileira dos anos 1960, Herivelto Martins, frevo, choro etc. com blues, jazz e soul. Quando os arranjos ficaram prontos, percebi que era tudo o que eu queria.

Quais foram as coisas mais diferentes que você fez nesse disco? Fiz tudo o que sempre quis, mas achava que não ia conseguir fazer sozinha ou que não ia funcionar para mim. Eu nunca tinha gravado um samba antigo, que é um gênero que canto desde os 12 anos com meu avô, nem um frevo, que é o gênero de 80% de todas as músicas que já compus, mas nunca tinha gravado. Antigamente, eu criava uma estética e tentava me encaixar nela, e agora fiz o contrário.

Essa vontade de fazer tudo diferente reflete uma segurança maior? Sem dúvida. Eu vi que tinha criado um monte de algemas que ninguém tinha me obrigado a usar. Quando percebi que estava me tornando alguém cheia de máscaras, resolvi me desafiar. Queria que, ao ouvir o disco, as pessoas sentissem vontade de me conhecer. Por isso, ele conversa diretamente com o ouvinte. Não há a terceira pessoa. Tudo o que eu canto, estou falando para mim mesma ou para você. Não tem ninguém mais nessa história.