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British Museum mostra uma viagem ao coração do Islã

Por Por Nathalie AURIOL - 27 jan 2012, 14h18

A pé, em lombo de camelo, à vela, milhões de peregrinos tomaram, século após século, o caminho de Meca. Para lembrar a maior romaria religiosa do mundo, o British Museum inaugurou uma grande e inédita exposição sobre os rituais muçulmanos do ‘hadj’, denominada “Journey to the heart of islam” que poderá ser admirada até o dia 15 abril.

“Esta ‘viagem ao coração do Islã’ é destinada a muçulmanos e a não muçulmanos, a todos os que querem saber mais sobre uma das grandes manifestações religiosas do mundo”, explicou Neil MacGregor, diretor do museu londrino.

“O hadj é a única prática do Islã inacessível aos não muçulmanos”, e Meca, a terra sagrada, também é proibida a eles, lembra. “Parece-nos muito importante tentar compreender o que significa a peregrinação para os muçulmanos, hoje, e medir sua importância através dos séculos”.

A mostra exigiu três anos anos de preparo e negociações com museus do mundo inteiro para reunir as peças apresentadas de maneira bem didática, tendo ao fundo o som das convocações às preces e o rumor dos peregrinos.

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Objetos do cotidiano e obras de arte estão ao lado de vídeos, manuscritos, gravações e fotografias para tentar transmitir a dimensão desse périplo, um dos cinco “pilares do Islã”, e que todo o fiel é obrigado a realizar pelo menos uma vez na vida, se tiver meios.

Durante séculos, a viagem em direção ao lugar sagrado do Islã, situado na Arábia Saudita, foi considerada uma verdadeira epopeia: semanas de caminhada a pé ou no dorso de camelos, em comboios, através de montanhas e desertos, com meses de uma viagem de risco no oceano Índico, enfrentando roubos, doenças ou naufrágios.

Na “rota árabe” Bagdá-Meca, a mais antiga das cinco grandes vias tomadas pelos peregrinos, ao longo da história, poços, e demarcações e locais de repouso foram instalados, ao lado de oásis, como relembra a exposição quilométrica apresentada pelo British Museum.

Mapas antigos e astrolábios contribuíram para que as preces fossem feitas na hora exata, assim como bússolas, guia dos rituais, contos de viagem e o soberbo palanquim vermelho e de ouro, a liteira luxuosa destinada ao transporte dos sultões: a essa versão histórica responde a logística moderna, com os peregrinos viajando em ônibus ou aviões, contratando mesmo a viagem numa agência especializada nas programações para Meca.

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A fórmula moderna foi iniciada por Thomas Cook, um empresário inglês nascido em 1808, que foi o primeiro agente de viagem do mundo. Ele utilizou um trem fretado e criou a primeira excursão em grupo, chegando a promover a destinação à cidade santa muçulmana, a partir das Índias britânicas, como testemunha um antigo bilhete de passagem.

A exposição também compartilha com os visitantes a experiência vivida por alguns poucos ocidentais que conseguiram chegar a Meca – disfarçados, como o explorador Richard F. Burton, que escreveu logo um livro sobre sua vivência e que se tornou best-seller. Ou como o escocês Evelyn Cobbold. Embora não convertido oficialmente, ele, que dizia “se sentir um verdadeiro muçulmano” obteve das autoridades locais, em 1933, o direito de fazer a peregrinação, quando tinha 65 anos.

A palavra também foi dada a artistas contemporâneos, como Ahmed Mater, que criou um enorme cubo negro imantado que atrai milhares de partículas metálicas – ilustrando o fascínio exercido nos peregrinos pela Kaa’Ba, a construção que fica no centro da grande mesquita de Meca.

A exposição também apresenta uma maquete da cidade santa, organizada em parceria com a biblioteca do rei Abdelaziz em Riad, mas passa muito rápido pelos problemas causados pelo afluxo de peregrinos (3 milhões no ano passado) em termos de segurança.

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Em 2006, 364 pessoas morreram pisoteadas. Em 1990, morreram 1.426, em parte sufocadas, após um momento de pânico, num túnel.

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