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Autor de ‘Passione’ avisa: “Se der na telha, mato mais um”

Silvio de Abreu diz que seu trabalho é manter o mistério, e que não teme o vazamento de informações

“Eu queria o espectador oscilando entre o amor e o ódio por Clara. E o que quero que as pessoas reflitam é: o passado ruim de uma pessoa justifica qualquer atitude dela”

“Meu trabalho é esconder, o da imprensa é descobrir”, diz Silvio de Abreu, do alto de seus 67 anos, 30 dos quais dedicados a escrever telenovelas. Ele diz que os segredos revelados antes da hora podem causar uma certa frustração nos telespectadores/detetives. “Mas todo mundo que vê a novela vai querer conferir se o que foi publicado vai realmente acontecer e como determinada cena será exibida”, afirma o autor de Passione.

Silvio credita seu sucesso ao esforço e ao amor pela profissão. Acorda às 6h30 da manhã e escreve 40 páginas todos os dias. “É trabalhoso, mas é divertido também”, diz. Com 15 novelas no currículo, o autor especializou-se em criar tramas policiais, e é considerado o precursor do gênero no país. Para tanto, cria personagens ambíguos, que agradam em cheio os telespectadores, que neste exato momento clamam por um destino suave para a vilã Clara, vivida por Mariana Ximenes. Silvio, porém, faz questão de ressaltar que não se guia pelo que deseja o público. “Não fiz Clara desse jeito por causa do público, mas por acreditar que todos nós oscilamos entre o bem e o mal”, explica.

Em entrevista exclusiva ao site de VEJA, ele fala de sua da queda por abordar temas polêmicos, revela que, quando escreveu ‘Belíssima’, sentiu-se mal com a torcida dos brasileiros por personagens sem caráter, e questiona: o passado ruim de uma pessoa justifica qualquer atitude dela?

Pesquisas indicam que boa parte do público deseja que a Clara tenha um final feliz. Qual é o motivo, em sua opinião?

Clara é uma vilã que possui uma justificativa. Foi explorada pela avó quando criança, não teve mãe, nem pai, enfim, uma história digna de pena. Ela foi construída assim como personagem, porque essa dualidade é necessária para a narrativa da história. Eu queria o espectador oscilando entre o amor e o ódio por ela. Então, não é nenhuma surpresa que o público tenha este tipo de sentimento. E o que quero que as pessoas reflitam é: o passado ruim de uma pessoa justifica qualquer atitude dela?

O fato de o público torcer por uma vilã incomoda você ou o faz repensar os valores éticos da sociedade brasileira?

Senti muito isso quando fiz Belíssima, quando o público preferia os personagens mau caráter aos de bom caráter. Por isso, em Passione, quis expor um pouco a forma como estamos vivendo. Mas, especificamente no caso de Clara, não acho que esta reação esteja associada aos valores éticos da sociedade, mas, sim, à forma como conduzi a história.

Quem tinha razões para matar Saulo?

No momento, todos são suspeitos.

Quantas mortes ainda podemos esperar?

Mais uma, mas que não tem a ver com a trama policial. Mas, se me der na telha, posso matar mais alguém também.

O assassino será o mesmo de Saulo?

Como a próxima morte não terá a ver com a trama policial, o público saberá quem matou. Agora, se Eugênio e Saulo foram mortos pela mesma pessoa ainda é segredo, apesar de as duas mortes estarem relacionadas.

O vazamento de informações sobre a trama prejudica a audiência?

Não chega a tanto. Os segredos revelados antes da hora podem causar uma certa frustração nos nossos telespectadores/detetives, mas todo mundo que vê a novela vai querer conferir se o que foi publicado vai realmente acontecer e como determinada cena será exibida. Mas, como disse, foi por saber que isso faz parte do jogo, e por me preocupar com o público, que trabalhei dobrado escrevendo cinco possíveis mortes. Não é a primeira vez, nem será a última que crio cenas falsas para manter o segredo de uma história. É trabalhoso, mas é divertido também!

(Leo Pinheiro)